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Sob o signo do estilo e da elegância

por Miguel Pires, em 29.01.10
(com algum atraso, mas  a tempo. Na verdade, apesar de já ter passado uma semana, ainda não fiz a digestão)
 
 
 gambas cruas e cozinhadas, sorbet de laranja e beterraba, creme de azeite, cevada crocante
 
Andrea Berton 
 
risotto de ervas aromáticas, pó de alcaparra, azeitonas, vieiras 
 
bacalhau preto do Alasca, chip de topinambour  , emulsão de açafrão,redução de vinho tinto
 

sela de corça, café de abóbora, creme de pistáchios 

 

fígado de pato, milho da baviera; pipocas doces e salgadas 

 

tiramisú cremoso no copo 

 

 

Quem ontem chegasse ao Vila Joya apenas a saber da proveniência italiana do chef e, por isso, esperasse um jantar italiano – ainda que fine dining – teria ficado certamente baralhado à medida que visse chegar os pratos à mesa. Andrea Berton é de facto italiano, fez grande parte da carreira no seu país, mas no que apresentou ontem viu-se sobretudo uma cozinha de base francesa com referências italianas – provavelmente influência de Alain Ducasse, com quem trabalhou. Berton é o chef do Trussardi Alla Scala de Milão, ligado à famosa casa de moda. Talvez por isso as suas propostas revelem uma grande elegância, quer em termos visuais, quer na harmonia dos sabores, além de uma certa leveza.
O jantar começou com umas gambas ligeiramente cozinhadas, plenas de sabor. A valorizar, por um lado, um toque fresco cítrico (e de terra) de um sorbet de laranja e beterraba e, por outro, uma telha de cevada crocante com um creme de azeite a dar a untuosidade necessária ao conjunto. Seguiu-se para um risotto de ervas aromáticas, pó de alcaparras, azeitonas e vieiras. Leve, al dente, perfumado e saboroso – muito interessante o toque subtil do pó de alcaparras no arroz. Depois veio o bacalhau preto do Alasca numa emulsão de açafrão, naquele que viria a ser o prato menos conseguido: o sabor do peixe era demasiado neutro para dar luta ao açafrão e nem os chips crocantes de topinambour e da pele do bacalhau chegaram para dar equilíbrio ao conjunto. Uma nota dissonante numa sinfonia que rapidamente voltou ao tom e às suas características essenciais, na sela de corça, abóbora (um rectângulo envolto numa gelatina de café) e nata de pistáchio e, sobretudo, no muito interessante fígado de pato, creme sólido de milho com pipocas doces e salgadas. Esta última, uma proposta criativa (a mais out of the box de todas) numa ligação incomum que funcionou lindamente. De sobremesa chegou-nos um bom tiramisú no copo, servido com uma telha de caramelo que ao partir se entrosava no conteúdo e, a finalizar, uns simples macarons com azeite.
Nos vinhos, de novo, uma noite de boa harmonização. Desta vez destacaram-se o branco do Douro, Guru 08, com o risotto; e o Mouchão 03, em magnum, com a sela de corça. Assim terminou mais uma noite de grande nível, desta vez sob o signo do estilo e da elegância.
 
 
 
(texto publicado no dia 23 de  Janeiro na revista do Tribute to Claudia/International Gourmet Festival 2010 que decorreu no Vila Joya aentre 16 e  24 Janeiro . Fotos de Vasco Célio/F32 
 

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publicado às 19:53

Pub grátis (Bi-par-tinto)

por Miguel Pires, em 29.01.10

"Experimente e descubra o enólogo que há em si", apelam-nos os Srs. do Marketing da Casa Santos Lima. Isto a propósito do bag in box com vinhos de duas castas diferentes, em separado (Castelão e Touriga Nacional), que acabam de lançar. O produto é no minimo curioso e a ideia de promover um concurso para o melhor 'blend' é engraçada. Pena que a comunicação seja tão amadora.

 

p.s. e que tal traduzir o blogue para português e acrecentar som ao video

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publicado às 00:18

Mesa marcada no Largo

por Duarte Calvão, em 27.01.10

Fui ontem jantar ao restaurante Largo, que abriu há pouco mais de uma semana junto ao largo do Teatro de São Carlos com cozinha assinada por Miguel Castro e Silva e decoração de Miguel Câncio Martins. Apesar da fama deste último, não vou entrar em pormenores sobre a decoração do espaço, que aproveita um antigo claustro da Igreja dos Mártires, mas devo dizer que estava um pouco alarmado quando me disseram que o restaurante iria ter 120 lugares.Já imaginava um daqueles espaços enormes, que mesmo que estejam com meia sala parecem desolados, mas fiquei satisfeito em verificar que houve a inteligência de o dividir em três sectores. Logo à entrada, há um balcão e várias mesas junto às janelas, depois, um andar superior, onde se pode fumar e mais vocacionado para grupos. Finalmente, um terceiro mais ao comprido, com mesas para dois e quatro comensais, em que uma das paredes tem incrustados três grandes aquários (um estava apagado) com medusas, vulgo alforrecas, que vão mudando de cor consoante a luz que as ilumina. Foi aqui que jantei, juntamente com a minha mulher.

A lista inclui pratos a que Miguel Castro e Silva nos habituou dos tempos do Bull & Bear, com uma ou outra variação. Nas entradas, optámos pelo trio de peixes (vieiras grelhadas, atum à japonesa - tataki com vinagreta de soja e balsâmico - e o seu famoso tártaro de carapau, uma das utilizações mais nobres que já vi dar a este peixe tão desprezado) e por um risotto de morilles. Alguém poderá estranhar que o demorado risotto surja nas entradas, que se querem rápidas, mas é sabido que Castro e Silva tem um método próprio de deixar o risotto meio pronto, finalizando-o rapidamente quando é pedido na sala. Estava óptimo, como sempre. Sobre os peixes, a única observação é que eu facilmente substituiria as vieiras por outro produto do mar mais original. Mas é um conjunto absolutamente vencedor.

Nos pratos principais, um bacalhau confitado no vácuo a 80ºC com migas de poejo e hortelão da ribeira. Esplêndido, a lascar, com ponto de sal exacto, com a frescura das ervas a darem leveza ao conjunto. Já não gostei da vitela maronesa com óregãos e limão, que, além de me parecer um erro de casting devido à excessiva simplicidade, com puré de batata e bróculos, não mostrava o sabor característico nem da erva nem do citrino. A carne, em  pedaços, era boa e estava macia, mas não era suficiente para trazer o prato para o mundo dos adultos. À sobremesa, pudim de mel com requeijão e doce de abóbora, tudo muito bom.

Nas bebidas, o tinto Guarda-Rios (27,5 euros), uma das poucas opções válidas abaixo dos 30 euros. Os vinhos estão aqui demasiado caros e também não se justifica que sirvam uma cara água mineral holandesa (marca Sourcy, 4.90 euros) quando temos em Portugal tão boas opções nesse domínio. O serviço é jovem, simpático e atencioso, com uma ou outra pequena falha que não vale a pena mencionar. No total, pagámos quase 110 euros, preço que se justifica plenamente, tirando uns 10 ou 15 euros das bebidas.

A casa estava cheia a 3/4, com gente com bom aspecto, que, e isso para mim é fundamental, emitia aquele suave ruído de satisfação que se encontra nos bons restaurantes. Marquei mesa em nome falso e não pedi para ver o chefe, nem ele veio às mesas.

A julgar por esta visita, que espero seja a primeira de muitas, Lisboa ganhou um belo restaurante e Portugal tem de novo um dos seus principais chefes a poder mostrar a sua cozinha, já que no Castro Elias o conceito, ainda que muito válido, é assumidamente menos ambicioso. Para mim, é sempre uma enorme satisfação reencontrar a cozinha de Miguel Castro e Silva. Ainda por cima, agora fica perto de minha casa...

Nota: já nesta semana, o restaurante passa a estar encerrado aos domingos, funcionando para almoço e jantar nos outros dias.

 

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publicado às 14:40

Lisboa em Nova Iorque

por Miguel Pires, em 27.01.10

 

 

Parece que os media nova-iorquinos descobriram Lisboa e gostaram de comer por cá. Primeiro, em Novembro, foi a New York Mag, com alguns disparates à mistura (aqui). Agora, melhor, foi a vez do prestigiado New York Times (aqui).

 

P.S. aproveitando a boleia e já que estamos na América, mais a norte, do outro lado da fronteira chegam noticias sobre o  "The Montreal High Lights Festival" , em que Portugal é o país convidado (aqui, com o contributo de Miguel Santos que deixara este link num post anterior).

 

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publicado às 00:56

El Bulli fecha por dois anos

por Duarte Calvão, em 26.01.10

O nosso leitor e amigo Artur Hermenegildo acaba de nos informar que Ferran Adrià anunciou que vai fechar provisoriamente o seu El Bulli nos anos de 2012 e 2013. Quem quiser conhecer o restaurante na sua actual fase tem ainda o ano de 2011 para tentar a sorte, porque para 2010 já não deve haver mesas disponíveis.

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publicado às 15:42

O essencial, 'sofisticato'.

por Miguel Pires, em 26.01.10

 

 

'Parago' - pargo marinado, caviar, vinagreta de ameijoas e pepino

 

'Astice' - lavagante, queijo Squacquerone, beringelas,

sementes de mangericão

 

risotto, calamaretti, tinta, azeite novo

 

'Uovo' - ovo biológico escalfado, trufas pretas, ragout de Madeira,

polenta cremosa e crisp parmigiano

 

'Agnolloti' - Agnolloti de carne, cogumelos selvagens, salva

 


'Piccione' -  peito de borracho salteado, fígado de ganso involtino,

castanhas, zimbro e rosmaninho

 

 

Michael White é americano (do Wisconsin). O nome, a língua, os seus traços fisionómicos indiciam a origem. No entanto, quando com ele falamos de gastronomia transforma-se e não raras vezes começa a expressar-se em italiano. Não por snobismo, ou porque não entenda o nosso inglês, mas porque é uma língua a que está muito ligado, ou não tivesse passado uma parte da sua formação de cozinheiro em Itália. Embora seja um homem de muitas palavras, White gosta que a sua cozinha se traduza numa única: Alto (2 estrelas Michelin), Convívio e Marea (ambos com 1 estrela Michelin) são os nomes dos seus 3 restaurantes italianos de Manhattan. O primeiro é dedicado à cozinha do norte; o segundo, à do sul; e no terceiro pratica uma cozinha de mar.

De igual modo no menu definido para este jantar os seus pratos iniciam-se sempre com o nome do elemento principal (Parago, Astice, Uovo...). No primeiro contacto que tive com White, após o jantar ‘molecular’ de Jonnie Boer, recordo-me de ter referido o seu agrado  por aquela refeição mas o que íamos ver dele e da sua equipa seria muito diferente: uma cozinha simples e directa, muito focada no produto. O ‘crudo’ de pargo que abriu o menu revelou isso mesmo (um peixe que White vira na antevéspera, em Sagres, e que o deixara impressionado): apresentou-o da forma mais simples possível, cru, como num sashimi, apenas com uma leve vinagreta de amêijoas e um toque de caviar de lado. Seguiu-se-lhe o astice (lavagante), num ponto de cocção perfeito, bem combinado com um toque de emulsão de mangericão com as suas sementes, pedaços de beringela, e queijo squacquerone. Com os pratos mais cozinhados, o nível manteve-se, quer nos mais simples, como no risotto de tinta de choco com pequenas lulas, nos agnolotti de vitela com cogumelos selvagens; no mais elaborado, ovo escalfado em cozedura lenta, trufas pretas, ragout e polenta cremosa; ou ainda no mais sofisticado piccione – peito de pombo salteado com fígado de ganso envolvido em couve com uma redução dos sucos do pombo. Nas sobremesas, belíssima a primeira: um leve e fresco sorbet de clementinas, bolo (humedecido pelo gelado) com um toque de baunilha e creme de iogurte; mais intensa a segunda, uma boa tarte de chocolate e avelã, algo prejudicada por um gelado de leite que não se mostrou à altura.

White não o disse na altura mas era óbvio que a cozinha simples e directa que prometeu fazer não seria propriamente a de uma trattoria. Caso o tivesse dito seria agora a nossa vez de acrescentar apenas uma palavra: sofisticata.

 

(texto publicado no dia 22 de  Janeiro na revista do Tribute to Claudia/International Gourmet Festival 2010 que decorreu no Vila Joya aentre 16 e  24 Janeiro . Fotos de Vasco Célio/F32 )

 

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publicado às 00:31

A excelência da Áustria do Sul

por Miguel Pires, em 23.01.10

 

Roland Gorgosilich




truta salmonada escalfada em azeite,

queijo de cabra e gaspacho de pepino

 


trio de avestruz, chutney de albricoques e nata ácida

 



lavagante, lula recheada, creme de espinafre,

tortellino de maçã e espuma de 'beurre noisette'

 



pregado, fígado de ganso e 'jus' de pinhões






caril de cordeiro de Cape Malay, esmagada de batata, pimentos fumados, molejas de cordeiro e dip de iogurte 



antílope com crosta de pimenta rosa e pistáchio, duo de abóbora

doce e amarga, almôndega de sêmola e 'jus' de ameixa

 



'gatteux' de Amarula, physalis e gelado de café

 



 

 

 

Depois de vários dias seguidos entre ‘estrelados’  havia alguma incógnita à volta do convidado da noite, Roland Gorgosilich. No entanto, nos momentos que antecederam o jantar, a forma entusiástica e confiante com  Dieter Koschina falou da sua cozinha sugeria que o resultado final só seria uma surpresa para quem não conhecesse o seu trabalho. De Gorgosilich, 31 anos, austríaco - Chefe do Bosman’s Restaurant, em Cape Town, na África do Sul - sabíamos que gosta de usar os produtos típicos da região, mas que não faz uma cozinha local ; que gosta de os conjugar com harmonia e que dá uma especial atenção à sazonalidade numa região de grandes amplitudes térmicas. Expostos os princípios básicos da sua cozinha faltava-nos confirma-los na prática.

O desfile iniciou-se com um gaspacho de pepino e queijo de cabra com truta salmonada escalfada em azeite, no meio – a primeira confirmação do conceito: os elementos foram tratados de forma a suaviza-los destacando-se o lado mais subtil dos sabores, sem lhes retirar o carácter. Este principio esteve presente ao longo do jantar, num grande rigor em termos de equilíbrio. Isso aconteceu nos 3 pratos de carne – trio de avestruz (crua, em carpaccio; em lombo, ligeiramente assado e em croquete) com chutney de albricoques (alperces) e nata ácida; caril de cordeiro com uma espécie de ragout; e antílope com crosta de pimenta rosa e pistáchios acompanhado de um duo de abóbora doce e amarga – e de igual forma nos dois do mar: no lavagante, espinafre cremoso e tortellino de maçã e no pregado, couve nova, fígado de ganso ralado e pinhões torrados.

Considero o antílope e este ultimo como um dos melhor pratos de peixe e de carne servidos até ao momento. E se estes apenas se destacam moderadamente dos restantes do menu de sete pratos que foi servido é porque também este foi, até ao momento, um dos mais bem conseguidos do evento. O nível foi de tal forma elevado que nem espaço sobrou para falar da excelente sobremesa final - “gateaux” de Amarula –  deste austríaco que recorrendo a diversas técnicas e ingredientes, nos surpreendeu com a sua cozinha equilibrada e dinâmica. Prost!

 

(texto publicado no dia 21 de  Janeiro na revista do Tribute to Claudia/International Gourmet Festival 2010 que decorre no Vila Joya até ao próximo dia 24 . Fotos de Vasco Célio/F32 

 

 

 

 

 

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publicado às 13:04

A modernidade clássica de Pourcel

por Miguel Pires, em 22.01.10

Jacques Pourcel

 

empratamento do ouriço do mar recheado com sapateira e caviar 

 

 

ouriço do mar recheado com sapateira e caviar 


 

 

 

granisado de maçã verde, tártaro de ostras, mousse de iogurte


 

 

carpaccio de vieiras, clementinas, salada de alho francês, chips de beterraba

 

´rouelle´de lavagante salteado com confit de cebola e

tomilho,espuma de batata, óleo de crustáceos

 

'royal' de fígado de pato, 'salpicon' de castanhas,

consommé fumado de trufas

 

peito de pombo, 'pastilla' com ervas aromáticas, pêra, molho de cacau amargo

 

 

'cristaline' de framboesas, natas e sopa de lichias

 

 

 

parfait de chocolate e chá verde, caramelo e sésamo

 

 

 

Depois do festival ter andado pela Alemanha, Áustria, Espanha e Holanda, ontem foi a vez de um regresso às origens: a França, à França da modernidade clássica. No seu principal restaurante, Le Jardin des Sens, em Montpellier (2 estrelas Michelin) Jacques Pourcel, em conjunto com o seu irmão gémeo Laurent, pratica os princípios da cozinha que defende. Uma cozinha criativa, de autor, muito centrada no produto e inspirada na região. É verdade que estas características tão em voga nos discursos dos grandes Chefes não definem um tipo de cozinha, mas sim os seus princípios (Jonnie Boer, que ontem aqui se apresentou, assinaria por baixo e no entanto, as suas propostas estão nos antípodas de Pourcel). Na linha dos seus compatriotas Pierre Gagnaire ou Michel Brás, Pourcel apresentou um menu que percorreu praticamente as 4 estações com um rigor extremo de grande detalhe e sensibilidade na apresentação. O jantar iniciou-se com um ouriço do mar recheado com sapateira, e caviar. Estamos em França e não no Japão e por isso houve lugar a um contraponto naquilo que me pareceu ser um creme fraiche com cebolinha. Fresco, suave e leve, tal como no granizado de maçã verde, tártaro de ostras e mousse de iogurte, ou no carpaccio de vieiras, clementinas e salada de alho francês - embora neste ultimo prato pouco se sentisse do sabor das vieiras. De seguida vieram os pratos mais outonais. Primeiro, ‘rouelle’ de lavagante salteado sobre espuma de batata e confit de cebola no fundo; depois, um consommé fumado de trufas, mousse liquida de fígado de pato e castanhas picadas pelo meio - tudo numa reconfortante conjugação de sabores. O prato de peixe foi um magnifico lombo alto de robalo, valorizado pela ligação cítrica do limão, em vinagreta e em espuma, e o acompanhamento simples de espargos. Já o prato de carne (peito de pombo) que noutro contexto, por certo, brilharia acabou por se tornar um pouco excessivo ao ser incluído neste menu de nove pratos, onde já constavam dois outros bastante intensos. No entanto, no final, os sentidos focaram-se na apresentação da sopa de líchias e ‘cristalline’ de framboesas, tão grata à vista como ao palato, o mesmo acontecendo com o parfait de chocolate, chá verde e caramelo com que encerrou este jantar muito focado na sensibilidade e no detalhe.

 

texto publicado no dia 20 na revista do Tribute to Claudia/International Gourmet Festival 2010 que decorre no Vila Joya até ao próximo dia 24 . Fotos de Vasco Célio/F32 

 

 

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publicado às 18:49

O Agricultor ilusionista

por Miguel Pires, em 21.01.10

 

Jonnie Boer




'Dutch Glory' - Queijo, arenque e beterraba


 



 


"Veggie beef canibal"

 



'On the rocks' - figado de ganso, beterraba e ostras

 



lagostins com Oloroso, pepino e queijo de cabra




salmonete, camarão, chá principe e coco

 

 


linguado 'snert', topinambour, touchinho e trufas

 



pombo, pistáchios, lapsang shouchong 




Epoisse, tâmaras, anis estrelado e rins de coelho

 



bolo de maça desconstruido

 


truque de ovo - I




truque de ovo - II Piña colada

 

 

 

 

 

Em holandês, Boer significa agricultor. Por todo o seu percurso, pela forma como se relaciona com a comunidade em sua volta, pela sua própria ligação à terra, é um nome que, no sentido mais lato do termo, lhe assenta bem. Jonnie Boer gosta de descrever a sua cozinha como sendo simples, honesta, natural e pura. Mas não se espere deste holandês - o primeiro Chefe do país a obter 3 estrelas Michelin com o seu De Librije (Zwolle) - uma cozinha directa. Boer é um ilusionista que joga com os nossos sentidos. Senão, vejamos o que se passou ontem à noite: no seu menu de 10 pratos tivemos aquilo que julgávamos ser um bife tártaro com uma gema de ovo de codorniz; na verdade era uma espécie de melancia em pickle. A trufa que acompanhava o linguado ‘snert’, afinal era uma capa de topinambour com o seu puré. Dois ovos na companhia tâmaras e rins de coelho? Não, um forte queijo Epoisse liquidificado e envolto num alginato. Nas sobremesas houve um bolo de maça desconstruído com um pau de canela que não o era, tal como não o eram as recriações perfeitas de uma vagem de baunilha, de um cravinho ou de uma estrelas de anis. E a terminar? Um ovo surpresa que ao quebrar a casca (de manteiga cacau) nos revelava uma piña colada em texturas diferentes. Mas toda esta ilusão foi apresentada de forma equilibrada, uma vez que estes pratos foram-se intercalando com outras propostas aparentemente (mas só aparentemente) mais directas, como foram os casos do salmonete com couscous, camarão e chá príncipe; dos lagostins com Oloroso, pepino e queijo cabra ou, aquele cuja ligação de sabores atingiu a perfeição: o fígado de ganso (em terrina), com beterraba e ostra Gillardau - dois galos e um adjuvante que se entrosaram em harmonia num mesmo poleiro.   

Nos vinhos tal como tem vindo a acontecer o receio do risco não mora por aqui. Assim mais uma vez tivemos direito a conjugações que poderiam fazer torcer o nariz mas que casaram muito bem, como por exemplo: o tinto Vinha Paz Reserva 2006, no ultimo prato referido, e o Porto branco Krohn Colheita de 1964, que acompanhou o epoisse e rins de coelho.

No final já com os coelhos reunidos na cartola houve direito (mais do que merecido) a aplausos e festa. 

 

texto publicado no dia 19 na revista do Tribute to Claudia/International Gourmet Festival 2010 que decorre no Vila Joya até ao próximo dia 24 . Fotos de Vasco Célio/F32 

 

 

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publicado às 12:29

O Sul de Dani Garcia

por Miguel Pires, em 19.01.10

 

Dani García e alguns elementos da equipa do Vila Joya

 

 

 

fígado de pato e queijo cabra com maçã verde (finalização)

 

 

 

Tomates verdes, vermelhos e amarelos 

 

 

 

alho branco coalhado com "pipocas" e pimentos caramelizados

 

 

 

fígado quente com guisado cigano e abóbora

 

 

 

 

pescada com gazpachuelo de sésamo

 

 

 

porco ibérico com carabineiro

 

 

 

 

a lua de Marbella

 

 

 

 

 

 

 

No segundo dia do festival, o centro de gravidade muda-se para Marbella, província andaluza de Málaga. Estamos a sul, terra de sol, de calor mediterrânico. A tradição gastronómica, como em muitas outras zonas do mediterrâneo, centra-se numa cozinha dita pobre, mas rica em sabores. Pão, azeite, queijo, vinho são os quatro pilares básicos desta dieta mediterrânica. Conjugados entre si ou acrescidos de elementos simples – como verduras, tomate, pimento e alho –resultam em dezenas de variações. Dani García tem no seu ADN essa cultura. Pratica-a, respeita-a, divulga-a, mas não se fica por aí. Reinventa-a, sem a descaracterizar, mas também sem medos de introduzir outros ingredientes e novas técnicas como a da cozinha molecular de que é um dos pioneiros.

Foi assente nestes princípios que Dani García veio ao Vila Joya exprimir a sua arte, a arte que pratica no Calima/Meliá e que lhe vale actualmente uma estrela do Guia Michelin.

Do seu menu de oito pratos, o primeiro, uma conjugação de foie (mi cuit), com queijo de cabra e maçã verde é de 98; os restantes são criações recentes. Ao segundo prato, “Tomates Verdes, Vermelhos e Amarelos”, Dani revela o referido atrás. Uma espécie de gaspacho com três sabores diferentes – tomate no vermelho, manjericão no verde, e pimento no amarelo – é envolto numa película e mergulhado em nitrogénio (que o irá congelar rapidamente) para lhe dar a forma de tomate. O resultado impressiona à vista e surpreende na boca pela sua simplicidade e carácter. O cortejo continua com ostra com ceviche; alho branco com pipocas de líchia e pimentos caramelizados (as pipocas são feitas de uma infusão de líchias que ganha a sua forma ao passar também pelo nitrogénio); fígado quente com guisado cigano e abóbora (excelente conjugação entre cozinha pobre e rica); pescada com gazpachuelo de sésamo; porco ibérico com carabineiro (da terra, o sabor intenso, como num torresmo; do mar, o complemento distinto mas suave do marisco). A terminar, a “Lua de Marbella”, uma esferificação de apresentação minimal com chocolate branco, baunilha, mandarina e yusu no interior. Nos vinhos, o sommelier Arnaut Vallet (em sintonia com o chef) apresenta as suas propostas de conjugação com os pratos. Neste caso, todos portugueses e com alguma ousadia à mistura com os tintos Vinha do Fojo 09, a acompanhar a pescada, e Vinhas da Ira (Alentejo) 05, para o porco ibérico com carabineiro. Costuma dizer-se que a sorte protege os audazes. Mas para se ter sorte é essencial ter conhecimento. E toda esta equipa demonstrou tê-lo. Para nosso deleite.

 

(texto publicado ontem na revista do Tribute to Claudia/International Gourmet Festival 2010 que decorre no Vila Joya até ao próximo dia 24 . Fotos de Vasco Célio/F32 

 

 

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