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Agitando a crítica (III) - A vergonha das borlas

por Duarte Calvão, em 06.08.10

Ainda que com quase dois meses de atraso, venho agora cumprir o prometido e continuar a desenvolver os temas abordados por este polémico artigo do Público, de Paulo Moura, sobre o qual já escrevi um primeiro e segundo post. Deixo para breve (espero…) um quarto e último sobre a parte que refere a “cozinha tradicional portuguesa”, Como sempre, não vou abordar declarações de outros intervenientes no artigo, já que temo que, tal como as minhas, também estejam desenquadradas, podendo induzir a erros de interpretação por parte dos leitores.
Uma das coisas que me lembro de ter frisado a Paulo Moura e que ele, com todo o direito que lhe assiste, preferiu não incluir, é que considero uma vergonha, repito, uma vergonha, que haja jornalistas ou críticos que visitem restaurantes, a convite destes ou por iniciativa própria, e não paguem a conta no final. É uma vergonha que haja responsáveis editoriais que aceitem esta situação (quando não a incentivam) e que haja donos e chefes de restaurantes que também a aceitem ou até promovam. Uma coisa é convidar colectivamente a Imprensa para experimentar um novo restaurante ou nova carta, por exemplo, outra é “comprar” artigos, na esmagadora maioria do caso favoráveis, em troca de refeições à borla. Não por acaso, quase todos os jornalistas ou críticos que praticam este tipo de “trabalho” custam muito pouco ou mesmo nada às publicações onde estão. É, torno a dizer, uma vergonha, que os jornais, por muitos limites orçamentais que tenham, pactuem com estas práticas, que não admitiriam noutras secções.
Trabalhar sem custos e nem sequer apresentar as facturas dos restaurantes “criticados”, além de uma concorrência desleal a quem está honestamente no mundo da gastronomia, dá artigos completamente desinteressantes e ridículos, onde tudo é “fantástico”, onde qualquer restaurante é “uma catedral do bem comer” ou “templo de sabores”, sem sequer qualquer reparo ou observação que possa indispor quem lhes deu de comer e beber à borla. A culpa, como disse, é dos jornais que publicam este tipo de artigos e de responsáveis por restaurantes, às vezes com méritos, que parecem ficar deslumbrados por textos acríticos e onde apenas variam os adjectivos exaltantes da sua cozinha. Com este tipo de “crítica”, cada vez mais presente em Portugal, nunca irão evoluir e mesmo que lhes tragam alguns clientes numa primeira fase, este tipo de artigos afectam a existência de opiniões fundamentadas que lhes poderão dar uma reputação consolidada.
Não se julgue que estou a escrever isto por interesse próprio, já que neste momento estou fora do jornalismo (não renovei sequer a carteira profissional) e sem esperanças de a ele voltar, bastante satisfeito com o trabalho que desenvolvo para a Associação de Turismo de Lisboa no âmbito da gastronomia. Por gosto, escrevo sobre restaurantes de vez em quando aqui no Mesa Marcada e também estou bastante satisfeito com essa opção. Sobretudo quando vejo o que se passa na nossa Imprensa.

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publicado às 18:36


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