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Restaurante Os Arcos

por Miguel Pires, em 31.03.11

"Era um bife Wellington, sff"


“Onde é que se come um bife Wellington na zona de Lisboa?” é uma pergunta recorrente nos últimos tempos. O interesse súbito por este prato deve-se ao ‘reality show’, Hell’s Kitchen, que a Sic Radical transmite actualmente. Neste concurso os aspirantes a Chefes de cozinha têm que preparar devidamente um dos vários pratos do menu, sob pena de serem alvos da fúria do anfitrião, o famoso e colérico Chefe britânico, Gordon Ramsay. Um dos pratos que os concorrentes têm de preparar, e onde é mais frequente haver erros, é precisamente o bife Wellington. Respondendo à pergunta inicial... pode-se comer um bife Wellington no restaurante Os Arcos, em Paço de Arcos. E vale a pena? O restaurante, em geral, sim. O bife, Nem por isso.

Os Arcos é conhecido pelos mariscos e pelos pratos de peixe. Entre estes figuram duas especialidades da casa: o robalo ao sal e o robalo no capote. No primeiro, sempre me agradou a forma impecável como conseguiam partir a carapaça de sal sem estragar e de como essa cobertura permitia que o peixe cozinhasse nos seus sucos retendo os sabores. No segundo caso (no capote), na única vez que o comi, achei o conjunto um pouco enjoativo, devido à massa de pão envolvente que ficou empapada pelos sucos e pelo azeite quente que no final levou em cima.

O bife Wellington sofreu de maleita semelhante. A mesma que os aterrorizados cozinheiros do Hell’s Kitchen incorrem frequentemente: se a carne não for devidamente selada os sucos vão acabar por empastelar a parte de baixo da massa. Foi o que me pareceu ter acontecido nesta versão de Os Arcos. Seria melhor também se a peça fosse um naco do lombo alto e não apenas um simples bife do lombo e que tivesse um duxelles (uma mistura de cogumelos) a envolvê-la . O que safou é que tanto a carne, como a parte de cima da massa (estaladiça), e o acompanhamento de batatas fritas em cubos eram bons (já a guarnição de brócolos e o quarto de tomate cru, dispensavam-se).

Felizmente existem outros predicados neste conhecido restaurante da Marginal. Logo de inicio, um bom pão com chouriço (de qualidade). Depois uns rissóis de camarão e uns pastéis de bacalhau, ambos em versão mini, bem fritos e equilibrados no recheio. As amêijoas à Bulhão Pato, eram ‘das boas’ e embora já as tenha visto mais carnudas estavam bem confeccionadas - aparentemente, sem mostardas ou outros aditivos que por vezes lhe juntam. Nos pratos principais, ainda sável frito com açorda: postas de sável finas passadas e fritas em boa polme e cortadas com a espessura suficiente para se sentir o sabor do peixe, no meio, e não apenas o sabor guloso a frito. Nota máxima também para a açorda feita com ovas de pescada, em vez das do peixe do rio (porque os sáveis não tinham ovas suficientes, justificaram). A sobremesa foi uma tarte de queijada de Sintra. O tamanho XL não acrescenta nada a este doce regional, mas também não prejudica, e como o recheio a eleva ao nível das melhores, não há nada a dizer (a não ser: “embrulhe-me outra para levar, sff”).

Quanto aos vinhos os Arcos têm fama. Copos adequados, temperaturas correctas, e uma carta com muitas das principais referencias e colheitas antigas (guardadas em cave com temperatura controlada). No entanto há uma discriminação absoluta nos brancos face aos tintos. Os tintos estão divididos por região e quase todos com data de colheita. Já os brancos têm direito a duas páginas com todas as referências ao molho e fé em deus: não há uma ordem aparente, nem datas de colheita e, por insólito que pareça, nuns a região vem mencionada à frente, noutros a casta substitui essa menção.

Em sinal de protesto (silencioso) acompanhámos toda a refeição, inclusive o bife Wellington, com um branco alentejano, o Baron de B 2008, que esteve sempre à altura.

O serviço esteve bem pela mão de pessoas simpáticas, prestáveis e competentes.

Entrei nos Arcos com o objectivo de comer e de poder aconselhar um bom bife Wellington. Esse objectivo não foi satisfeito mas, pela amostra, e pelo que observei, pareceu-me que este restaurante mantém intacta a competência naquilo que lhe deu fama: a confecção de peixes e mariscos.

 

bife Wellington

 

 (por esta refeição, com duas águas e cafés, pagou-se, 93€, por duas pessoas)

 

Contactos: Rua Costa Pinto 43/7, Paço de Arcos ( Oeiras) . Tel: 214 433 374

 

texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 25 de Março de 2011

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Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

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