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Joachim Koerper abre restaurante no Rio

por Duarte Calvão, em 29.07.11

Está para breve a abertura do restaurante de Joachim Koerper no Rio de Janeiro. O restaurante fica na Barra da Tijuca, uma zona bastante valorizada da cidade, junto à praia, e chama-se Enotria, nome de um grupo de restauração local ao qual o chefe do Eleven se associou neste empreendimento. Mas não julguem que esta nova aventura do experiente e irrequieto chefe alemão, que já andou por Espanha antes de vir para Portugal, implica que nos vai deixar. "O Eleven é a minha casa", garantiu Joachim Koerper ao Mesa Marcada, "e é lá que estarei na maior parte do tempo". Por falar em Eleven, há também mudanças importantes na equipa, com o chefe permanente, Gonçalo Costa, a rumar também ao Brasil, para trabalhar em São Paulo, não sabemos ainda onde. Para o seu lugar, Koerper foi buscar o espanhol Pedro González, com quem já tinha trabalhado na Posada de la Abad, em Palencia (Castela e Leão), e que agora estava no Hangar 7, em Salzburgo, famoso restaurante da Red Bull. Vamos ver se traz nova energia a este óptimo restaurante, que, com estrela ou sem estrela Michelin (não é provável que a reconquiste este ano, para mais com estas mexidas na equipa) continua a ser um referência em Lisboa e em Portugal.

 

Fotografia: Nuno Correia

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publicado às 13:56

Restaurante Pedro e o Lobo

por Miguel Pires, em 28.07.11

Inconformismo, elegância e boas vibrações

 

 

É impossível ficar indiferente a este espaço: pé direito alto, linhas depuradas, influências nórdicas, madeira, cimento, aço e mobiliário vintage. É um espaço quente, contemporâneo, com áreas bem definidas, boa iluminação e mesas à distância certa. Não sou muito dado a causas místicas mas a elegância informal e o bom ambiente que se sente na sala do Pedro e o Lobo transmite-nos, logo à partida, boas vibrações.

Esta atmosfera senti-a na primeira vez em que lá jantei, poucos meses após a abertura. A comida não me entusiasmou, não porque fosse má ou mais do mesmo, mas porque criara alguma expectativa em relação à criatividade da dupla de Chefs, Diogo Noronha e Nuno  Bergonse, cujas passagens por restaurantes como o Per Se, de Thomas Keller, em Nova Iorque (Diogo Noronha), o Virgula e o Ritz, em Lisboa (Nuno Bergonse), ou o Moo, a segunda operação dos irmãos Roca, em Barcelona (onde ambos se conheceram) foi amplamente divulgada na imprensa. Na altura notei algumas falhas (técnicas e de produto) e uma ou outra conjugação que não me agradou. Mas também algumas pistas que me deixaram curioso e interessado em acompanhar a evolução.

Passado quase um ano regressei e senti a mesma boa atmosfera. Quando nos sentámos (às 21.00h) a sala estava vazia, no entanto, uma hora depois, não havia um lugar por ocupar (não, não foi em Madrid. Foi em Lisboa e a meio da semana!).

A ementa pareceu-me equilibrada e sugestiva. Ao contrário do que muitas vezes acontece, em que a percorremos várias vezes e não encontramos nada de muito interessante, aqui passou-se o contrário. A dificuldade esteve em escolher perante a variedade de propostas estimulantes, algumas utilizando produtos menos usuais, sobretudo no que diz respeito as peixes (como a veja dos Açores, o cantaril, ou o pata roxa).

Curiosamente a grande parte dos pratos do menu de degustação não constam na carta e, inclusive, pereceram-me menos interessantes. Como éramos três pessoas o ‘a la carte’ permitia experimentar vários pratos, pelo que foi a opção tomada.

 

Não houve amouse bouche, mas perdoa-se, pelo couvert com vários tipos de bom pão (de centeio, focaccia e brioche de azeitona) e azeite. A primeira entrada colocou a refeição logo a um nível elevado: ostras, navalhas e berbigão com puré de wakame, madalena de algas de água doce, pepino e tomate confitado. Uma proposta muito actual que faz lembrar algumas do Noma (e, em parte, mas com menos sofisticação, o “Cascais à beira mar”, de José Avillez). Trata-se de um prato de produto, fresco, leve, colorido e com contrastes subtis: fresco e marítimo dos mariscos e também da salicórnia que faz a ponte para a frescura vegetal e a textura ‘crunchie’ do pepino. O tomate confitado dá um toque de acidez e de doce e, por fim, a original madalena de algas proporciona consistência ao conjunto.

Menos complexa, mas não menos interessante, a segunda entrada: caranguejo de casca mole, quinoa, chips de banana, iogurte grego e azeitonas. Este tipo de caranguejo, que é apanhado quando na mudança da carapaça, é uma gulodice que se come por completo, normalmente frito, como foi o caso. O iogurte corta a fritura com a sua frescura e acidez e a quinoa, escura, provavelmente cozinhada com tinta de choco, dá corpo ao prato. Este grão altamente nutritivo, originário da América do Sul (era conhecido como o ouro dos Incas) parece ser um ingrediente prezado na casa. Já na primeira carta havia um prato que o incluía, junto com abacate e lulinhas salteadas (na altura foi o mais interessante dos que provei). Ainda outro aparte: tanto a quinoa como o bulgur são dois grãos muito utilizados na dieta vegetariana e é muito interessante vê-los bem integrados nas criações do Pedro e o Lobo, pela originalidade, e como alternativa a cereais mais habituais como o arroz ou o trigo comum. A esse facto não deve ser estranho o facto de Diogo Noronha ter sido cozinheiro num restaurante vegetariano, em Nova Iorque.

 

Voltando à apreciação do jantar. Nos pratos principais o cantaril com puré de favas, ragout de courgete, salsichas frescas e emulsão de rosmaninho

estava correcto. No entanto, a concorrência era grande e os outros dois que se lhe seguiram, relegaram-no para segundo plano. Culpas para a veja dos Açores e, especialmente, para o entrecosto a baixa temperatura com carpaccio de pés de porco. A veja, um peixe saboroso e de textura com alguma firmeza, veio no ponto certo e em boa companhia, com alcachofras salteadas, mousse de pimento vermelho assado e esponja de limão. Um prato muito bem pensado e que resultou a todos os níveis: produto, apresentação, técnica, conjugações e originalidade. O entrecosto com carpaccio de pés de porco foi também um prato muito interessante. E arriscado. A textura algo viscosa e o sabor assertivo dos pés de porco não serão certamente do agrado de muitos. Mas como diz o ditado, quem não arrisca não petisca e, neste caso, quem não o fizer não sabe o que perde. A ligação com os restantes elementos é exemplar. O entrecosto (sem osso, da parte entremeada mais perto da barriga) de carne firme e amaciada pela cozedura a baixa temperatura mostrou-se excelente. O courato bem tostado foi o elemento contrastante necessário à textura dos pezinhos e a salada de mostarda verde e maçã granny smith o contraponto de frescura e acidez. 

O capítulo final, o das sobremesas, serviu para acabar a refeição em beleza, sobretudo do lado do chocolate, com a  ‘Floresta negra, gelado de nata e cerejas amarenas’ a encher as medidas (metaforicamente e literalmente falando). Já o mil folhas de pêras caramelizadas, sabayon de Madeira e gelado de doce de leite pareceu-me um pouco enjoativo, embora confesse que a essa altura do campeonato o palato já pedia tréguas.

 

Veja dos Açores, alcachofras salteadas, mousse de pimento vermelho assado e esponja de limão 

 

Entrecosto a baixa temperatura, carpaccio de pés de porco, salada de mostarda verde e maçã granny smith 

 

O jantar foi acompanhado por um Chablisienne Vieilles Vignes 2004, um branco da Borgonha, mineral, de boa acidez e algum corpo. O suficiente para aguentar, com prazer, toda a refeição (excepto doces). Foi servido em copos correctos, à temperatura certa e por alguém com conhecimento de causa. A carta de vinhos poderia ser mais extensa mas para compensar é ponderada na selecção e sensata nos preços (embora não ficasse mal ter mais dois ou três tintos abaixo dos 20€).  São 43 vinhos nacionais, entre brancos (15), tintos (24), rosés(2), espumantes (2) e generosos (9 portos e 1 moscatel de Setúbal). Há ainda 18 vinhos estrangeiros, dos quais 4 champanhes.  

Em geral o serviço correu bem. Os empregados são atentos, cordiais e discretos e nem o atraso num dos pratos (quando a casa encheu) ou uma certa atrapalhação na resposta a uma pergunta mais técnica foram suficientes para prejudicar uma refeição que a todos os níveis correu a preceito.

 

O Pedro e o Lobo quando abriu apresentava uma carta mais cautelosa de forma a perceberem “os gostos e as existências dos clientes portugueses”, segundo explicou por email a responsável pelo restaurante, Patricia Baptista. É pois com grande contentamento que verifico hoje uma carta inconformista (apenas com um ou outro prato de defesa), execuções seguras, bons produtos, conjugações ousadas e estimulantes e... casa cheia! Afinal parece haver clientes portugueses que apreciam este tipo de cozinha, o que contrasta com o lamento de alguns Chefes e responsáveis por restaurantes que justificam não arriscarem por não haver público para grandes ousadias.

 

Morada:

 

Rua do Salitre, 169, Lisboa; Tel: 211 933 719; www.pedroeolobo.pt

 

Preços:

 

. Preço médio para refeição completa (de entrada, prato e sobremesa) com vinho: 45€, ao jantar - o que correspondeu ao preço pago, por pessoa, pela refeição descrita.

 

. Menu de degustação: 38€, 6 pratos

 

. Ao almoço (com menu executivo): Entre 18 euros (com dois pratos) e 22 euros (com três pratos). Ambos incluem couvert, copo de vinho ou água.

 

 

Classificação:

 

Cozinha:18; sala: 17.5; vinhos:16.5

 

 

Texto publicado originalmente na revista Wine de Junho. (Fotos: Nuno Correia)

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publicado às 13:06

Bela belly

por Miguel Pires, em 26.07.11

 A propósito de barriga de porco (pork belly)...  

 

 Alyson Thomas, "The meat sessions" 

 

 

Esta veio do restaurante Mandarim, do Casino do Estoril, na semana passada, enquanto visitava a cozinha para recolher dados para um artigo para a Up Magazine de Setembro. 

 

 

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publicado às 12:53

Bon Jovi, perdão: Bon Chovie

por Miguel Pires, em 25.07.11

 

 

 

Escrevia no post anterior de David Chang e de certos fenómenos de que uma cidade como Nova Iorque é pródiga. E que tal umas roulotes de boa comida simples with a twist, na Praça de Espanha, por exemplo?

We all know The Brooklyn Flea’s street cred as an incubator of a new wave of culinary talent. At Smorgasburg, the Flea’s recently-launched all-food spinoff,  a new crop of local upstarts is pulling no punches as they pursue dreams of translating success on the Smorg’s sun-blasted, riverside market field into something more: A living, a business, or something unforeseen.

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publicado às 00:03

Ele há pêssegos...

por Miguel Pires, em 22.07.11

 

Gostava que houvesse uma boa revista de gastronomia portuguesa. Já agora se fosse com este perfil e com este grafismo, tanto melhor.

A Lucky Peach é uma revista ligada a David Chang* do Momofoku e colaboram neste primeiro número nomes como Bourdain, McGee ou Arzak. Não me parece que venha a ser comercializada por cá mas podem sempre tentar encomendar aqui ou esperar pela versão para ipad.

 

*David Chang um daqueles fenómenos próprios de cidades como Nova York. Ficou famoso por ter trazido para dentro de portas uma certa cozinha asiática de rua, dando-lhe uma volta e alguma sofisticação. A sua barriga de porco (salvo seja) ajudou a criar o fenómeno  mas experimentá-la é mais complicado dado que é extremamente difícil conseguir mesa nos seus restaurante. A menos que se chame Redzepi, Aduriz, Atala Bottura ou pro-fifty world. Há quem tenha gostado e quem se tenha decepcionado. Eu por mim só queria mesmo um número da revista (mas se alguém tiver uma reserva a mais...) 

 

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publicado às 17:57

Restaurante Yakuza by Olivier

por Miguel Pires, em 20.07.11

Japa by Agnaldo

  

 

Olivier da Costa, ou apenas Olivier, como é conhecido, é uma das mais controversas figuras da restauração de Lisboa. Idolatrado por uns, desprezado por outros, é mais um criador de conceitos do que propriamente um Chef de cozinha. Goste-se ou não da figura, o certo é que os seus restaurantes estão quase sempre cheios: do Olivier (Rua do Alecrim), ao luxuoso Olivier Avenida (Hotel Tivoli Jardim), passando pelo informal, e mais recente, Guilty (Barata Salgueiro). Curiosamente o Yakuza, o seu projecto mais interessante em termos gastronómicos, começou por não ser bem sucedido no local inicial, no piso inferior do Tivoli Fórum. Felizmente foi-lhe dada uma segunda oportunidade, passou para o outro lado da avenida e ocupa desde há algum tempo um espaço do Hotel Tivoli Jardim, com ligação aberta para o Olivier Avenida, a quem pede emprestado alguns recursos (as cartas de vinhos e de sobremesas, e alguns empregados).

Mas se Olivier é a imagem, o brasileiro Agnaldo Ferreira, antigo Chef do Sushi Lounge, em Santos, é a alma gastronómica deste espaço de cozinha japonesa, clássica e de fusão.

Entra-se pela porta do Olivier Avenida e ao meio há um bar/zona de serviço que serve de fronteira entre os espaços. O Yakuza fica à esquerda. Sala bem composta, com uma ou outra família, casais em traje casual e alguns executivos. Embora um pouco mais sóbria, a decoração segue os mesmos princípios do vistoso e rebuscado decor da casa ao lado. A iluminação é agradável e intimista e destaca o aquário colocado na zona central.  A mesa que nos foi atribuída fica ao lado e embora o cenário seja agradable não deixa de ser algo estranho comer peixe com outros peixes a observar. Mas acredito que sejam mais as vantagens. Além de gracioso deve servir também de distracção a casais sem assunto, ou de pretexto de conversa quando o anfitrião, Olivier, faz a sua volta de reconhecimento pelas mesas.

A refeição iniciou-se com a oferta do Chef, um fresco e ‘coentrado’ ceviche de peixe branco (que não consegui descortinar) e salmão. Para amouse bouche está muito bem. Depois, de entrada, um toro tataki (fatias braseadas da parte gorda da barriga de atum). Matéria-prima de qualidade da espécie blue fin, a mais saborosa (e infelizmente em risco, devido ao excesso de captura com destino ao Japão). Preferia que viesse com o tradicional molho ponzu em vez do de cebola confitada que em nada beneficia o prato. A seguir vieram uns uramakis (rolinhos de arroz com alga nori por dentro) com caranguejo de casca mole frito e salmão. Conjunto saboroso ainda que devesse ser trabalhado de forma a manter a textura estaladiça do caranguejo quando frito. Posteriormente, o conjunto ‘sushi to sozay’: fatias de sashimi de atum, salmão, camarão; niguiri, shake maki e gunka de salmão. Variedade, frescura e de novo matéria-prima de qualidade, com destaque igualmente para o atum. Depois ainda um prato quente: um magnifico lombo de bacalhau negro (black cod) marinado com molho miso, tamarindo e caril, uma versão próxima da celebrizada pelo famoso restaurante Nobu de Nova Iorque. Trata-se de um peixe do Pacífico apesar do nome, não pertence à família dos bacalhaus que conhecemos. O que nos serviram era de textura macia e firme (que permitiu retirar lasca a lasca) e sabor suave, mas com personalidade. A ligação com o molho foi perfeita. Um produto e um prato de antologia que fica na memória.

Para finalizar, de sobremesa, creme brulée com gelado de Ferrero Rocher à parte. Bons, ambos, mesmo que em conjunto os sabores não casem lá muito bem.

Em relação aos vinhos a carta inclui algumas das principais referências portuguesas e outras estrangeiras, entre elas, um Petrus (1000€)  e vários champanhes de topo (Dom Pérignon, Krug e Cristal) que me dizem ser a perdição da clientela angolana abastada. (Nós ficámo-nos por um modesto Poema, um verde alvarinho, que acompanhou muito bem a refeição).

A última nota vai para o serviço de mesa para destacar a forma cordial e com conhecimento de causa do empregado que nos atendeu.

Ainda que com uma ou outra combinação discutible, Yakuza é um restaurante com uma vertente gastronómica interessante e que vale a pena experimentar – mesmo para quem não é adepto da marca Olivier.

Ah… nenhum dos peixes do aquário saltou para ao prato.

 

 (Por esta refeição, com duas águas e dois cafés, pagou-se 106€, 2 pessoas). 

 

Contactos: Hotel Tivoli Jardim, Rua Júlio César Machado, 7/9, Lisboa; Tel.: 21 357 15 02; http://www.restauranteyakuza.com/

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 1 de Julho de 2011

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publicado às 09:37

 

 

A Xocoa existe há dois anos em Lisboa e a sua única loja por cá fica na Baixa, junto à estação de Metro Baixa/Chiado. É uma sui generis casa de chocolates de origem catalã. São assim para o carote mas bons por sinal. Como curiosidade há um disco de 7'' que pode ser tocado num prato gira discos até três vezes e depois comido, como comprova o vídeo abaixo. Para a loja de Lisboa vieram vinte e tal cópias. Ainda restam algumas. Também há Cd's mas esses não tocam. 

 

 

P.S. malta da pirataria: não há versão mp3 para sacar da net. 

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publicado às 09:12

Cada vez melhor

por Duarte Calvão, em 12.07.11

Rascasso dos Açores salteado com funcho do mar, legumes glaceados e batatas ratte em vinagrete de bottarga

 

Cada vez admiro mais restaurantes sólidos, consistentes, capazes de no dia-a-dia manter um nível de qualidade em todos os detalhes, independentemente de estarem a servir muitos ou poucos clientes, faça chuva ou faça sol, esteja o chefe bem ou mal disposto. Um “rompante” de seis meses ou de um ano, há vários restaurantes que são capazes, persistir ao longo do tempo num nível elevado, e até aperfeiçoá-lo, é que está ao alcance de poucos. Se esse nível ainda por cima é de cozinha criativa, “intelectual”, elaborada, fico completamente rendido.
Já vou à Fortaleza do Guincho há bem mais de dez anos, quer como cliente (não tantas quanto gostaria, porque falta-me tempo e dinheiro) quer sobretudo como convidado para ir acompanhando a evolução deste restaurante com consultoria de Antoine Westermann, que teve como chefe residentes o inesquecível Marc le Ouedec (por onde andará?) e de há uns anos para cá Vincent Farges, um profissional extraordinário que se interessa genuinamente pelos produtos portugueses, cumprindo o dever de trabalhar com ingredientes frescos do país onde trabalha (bem demonstrado pelos magníficos peixes, mariscos e legumes que vão à mesa) em vez de os mandar vir do Rungis ou de qualquer entreposto internacional prestigiado.
Desde a primeira vez que lá fui, a Fortaleza do Guincho sempre me despertou expectativas elevadas e talvez só por raríssimas ocasiões elas não se cumpriram. Recentemente, no âmbito da apresentação da carta de Verão à Comunicação Social, jantei lá mais uma vez e a primeira coisa que destaco é a satisfação de ter visto a sala quase cheia (principalmente com estrangeiros, é verdade), o que nem sempre acontece, sobretudo quando o tempo está mais frio. Mas a maior satisfação foi verificar que, à medida que a noite avançava, se erguia um “burburinho” de boa disposição na sala. Olhando em volta, vi casais a conversarem animadamente, grupos alegres, gente feliz. Ou seja, não era só eu que estava rendido, mais uma vez, à cozinha de Vincent Farges.
A primeira coisa a destacar quando nos sentamos à mesa na Fortaleza é o pão. Da autoria de Fabian Nguyen, um dos melhores pasteleiros a trabalhar em Portugal, por muito que tente me guardar para o desfile de pratos que sei que se seguirá, não consigo deixar de comer quilos das diversas qualidades que nos vão pondo à frente, acompanhados por óptima manteiga, creio que normanda de Échiré  neste capítulo, ainda temos muito caminho a percorrer em Portugal),. A determinada altura, tenho que pedir para não me servirem mais pão, porque senão não como mais nada.
Logo a abrir, duas pequenas entradas notáveis: sardinha assada com especiarias, caviar de beringela e molho de ervas; polvo marinado em vinagrete à algarvia, raspas de ovas secas. Pontos perfeitos (aqui vai um conselho de Vincent Farges que já experimentei e que dá muito certo para quem, como eu, evita panelas de pressão. Ponha o polvo fresco, depois de bem lavado, dentro de uma panela, sem água, sem sal, sem nada. Deixe cozer assim, tapado, em lume brando durante uns 45 minutos e vai ver como fica bom. Depois, pode mariná-lo, fritá-lo, assá-lo, o que quiser), combinações equilibradas de ingredientes, apresentações bonitas, alegria no prato, o tom do jantar estava dado.

 


Polvo marinado em vinagrete à algarvia, raspas de ovas secas

 

Veio a seguir uma coisa que costumo detestar. Pezinhos de porco. Pensei que se Vincent Farges queria homenagear a nossa cozinha podia ter escolhido melhor, embora eu saiba que ele é mais ou menos obcecado por suínos. Fiquei mais aliviado quando li o resto. Vinha com legumes da Quinta do Poial em salada com coentros frescos e pão saloio torrado em azeite transmontano. Gosto sempre de ver os nossos bons produtores homenageados por grandes cozinheiros e Maria José Macedo, com sua pioneira Quinta do Poial, em Azeitão, que encontro todos os sábados de manhã no mercado biológico do Príncipe Real, é das pessoas que mais tem contribuído para a diversidade e qualidade dos bons restaurantes portugueses, com as suas ervas aromáticas, os seus legumes, as suas flores, as suas batatas. Na Fortaleza, como noutros bons restaurantes, não querem outra coisa.
Mas voltando aos tais pezinhos, não é que vieram para a mesa em cubos, limpos, sem aquela (para mim) repugnante viscosidade, com a gordura na medida certa? Julguei que me iria ficar pelos acompanhamentos, mas não ficou um “cubinho” para amostra…Já tinha gostado das versões de Miguel Castro e Silva, no Castro Elias, e de José Avillez, no Tavares (num prato chamado “ Paisagem Alentejana”) e este, com os seus bem vincados coentros, que não é erva apreciada na Gália, são mais uma demonstração de que em restaurantes deste nível devemos até experimentar aquilo de que à partida não gostamos.

 

Pezinhos de porco e legumes da Quinta do Poial em salada com coentros frescos, pão saloio torrado com azeite transmontano

 

Novo prato e nova surpresa no ingrediente principal. Rascasso dos Açores salteado com funcho do mar, legumes glaceados e batata ratte em vinagrete de bottarga. Conheço este fabuloso peixe do Ribamar, de Hélder Chagas, de Sesimbra, onde creio que é conhecido como rocaz, em receitas simples e esplêndidas. Na tradução francesa, vem referido como “chapon de mer” (literalmente “capão do mar) e não “rascasse”, já que, segundo me explicou Antoine Westermann, este termo designa os peixes mais pequenos e acastanhados e não os grandes e vermelhos, como o que veio para a mesa.
Tudo o que se diga é pouco para descrever a perfeição deste prato, com o saboroso e firme peixe a lascar, complementado pelo inesperado “funcho do mar”, uma planta de sabor marítimo que os cozinheiros do Guincho vão buscar ali nas dunas, a delicadeza dos legumes e da ratte (mais parabéns para Maria José Macedo), o salgado da bottarga. Só para comer este rascasso vale a pena ir à Fortaleza.

 

Lavagante assado com espargos verdes e roxos, refogado de girolles e paia alentejana

 

Do mar puro deste prato, passámos para o “mar e terra” do lavagante assado com espargos verdes e roxos, refogado de girolles e paia alentejana, num caldo perfeito e aromático, mais uma vez tudo perfeitamente conjugado, e seguimos para “terra e ar” com o peito assado de pombo royal de Anjou, legumes guisados com amêndoas e tâmaras, coxa em “pastilla” perfumada com limão confitado. A “terra” nesta caso é no norte de África, numa demonstração de que Vincent Farges manteve bem viva a memória dos tempos em que trabalhou em Marrocos, antes de vir para o Guincho. A harmonia dos ingredientes mais doces com a ave, a qualidade da confecção da pastilla no seu contraste crocante com a suavidade da carne desossada, conduziram-me a um êxtase que só não foi final porque no Guincho as sobremesas de Fabian Nguyen não apenas um remate doce da refeição mas sim um caso muito sério de criatividade e de aproveitamento da “fruta da época”: pêssegos escalfados com lúcia-lima, Arlette estaladiça e gelado de lúcia-lima e depois bábá com kirsch velho da Alsácia com frutos vermelhos, sorvete de framboesa-cassis. Souberam-me tão bem e estavam tão “leves” que ainda tive estômago para as espectaculares “mignardises” que acompanham o café.

 

Peito assado de pombo royal de Anjou, legumes guisados com amêndoas e tâmaras, coxa em pastilla perfumada com limão confitado

 

Nos vinhos, depois do champagne Ruinart Brut, um branco do Dão que não conhecia e de que gostei muito, Pedra da Cancela Malvasia Fina e Encruzado 2009, seguindo-se Tiara 2009 (que não é dos meus preferidos da Niepoort) e o Dão tinto Quinta das Marias Reserva Touriga Nacional 2007, bastante adequado ao prato de carne e elegante para um vinho ainda novo. No fim, Porto Graham’s Six Grapes.
Apesar de saber que estava numa ocasião especial, não hesito em assegurar que o serviço de sala deste restaurante é dos melhores do país, sempre atento e simpático, nunca “chato” e intrusivo, e depois de um jantar como este só estranho que a Michelin esteja a demorar tanto para dar uma segunda estrela a esta casa que, de ano para ano, de estação para estação, está cada vez melhor.

 

 

Bábá com kirsch velho da Alsácia com frutos vermelhos, sorvete de framboesa-cassis

 

 

As fotografias, como sempre esplêndidas, foram tiradas por Paulo Barata para a Fortaleza do Guincho, a quem agradeço a cedência.

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Peixe à Segunda-Feira

por Miguel Pires, em 11.07.11

 

Frase do dia: "Não se deve comer peixe à segunda-feira porque os funcionários dos viveiros não trabalham ao domingo"

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Yes master

por Miguel Pires, em 09.07.11
Começa hoje a versão portuguesa do Masterchef. A partir das 21h

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