Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




 

Ainda o Madrid Fusión. Depois dos interessantíssimos dois posts de grande fôlego do Duarte Calvão (aqui e aqui) e, também, do link que remetia para  uma visão diferente por parte do jornalista espanhol Carlos Maribona, gostei de ler, hoje,  no Fugas (Público), a reportagem de José Augusto Moreira (JAM) sobre o mesmo evento. Embora escreva sobre restaurantes e gastronomia há muitos anos JAM não é propriamente um jornalista que faça grandes reflexões sobre o tema. Talvez por não fazer grandes considerações em relação a tendências (a não ser do que viu) ou sobre esta ou aquela cozinha é do futuro ou do passado, acaba por nos dar uma visão complementar sobre o Madrid Fusion dedicando, uma boa parte do espaço, por exemplo, a um dos países convidados de que pouco se tinha lido, a Coreia do Sul - os seus condimentos, as suas cozinhas tradicional e contemporânea (donde se destaca o Sang Hoon Degeimbre do restaurante L'Air du Temps na Bélgica) e o que as entidades coreanas fizeram em Madrid para promover a gastronomia do seu país.

 

JAM escreve ainda sobre a presença portuguesa (Avillez, Nuno Mendes e vinhos Niepoort) e sobre a politica espanhola para a internacionalização das suas cozinhas e dos seus produtos. 

 

Quando aqui escrevi há umas semanas sobre a pífia intervenção do Ministro da Economia português a propósito da sua tirada sobre internacionalização do pastel de nata, critiquei essa aposta por revelar uma boa dose de ignorância (dado que o pastel de nata é algo que há muito existe pelo mundo) e, sobretudo, por o exemplo escolhido pouco adiantar em termos de valor acrescentado para a nossa economia (dado não ser necessário nenhum ingrediente português para fazer um pastel de nata em qualquer parte do mundo). Nesse post (ou melhor, num dos comentário) referia, em termos gerais, os exemplos italiano e espanhol como casos a seguir. É precisamente sobre este último exemplo que deixo aqui um dos parágrafos da mesma reportagem de JAM no Fugas: 

 

"Helena Arzak, Dani Garcia, Joan Roca e os irmãos Sérgio e Javier Torres, sucederam-se em palco para demonstrar a a utilização da liofilização, do nitrogénio liquido, do Rotaval e do Gastrovac. Engenhos para aprisionar, conservar e potenciar sabores que são excelentes demonstrações da vanguarda espanhola.

Ideias e conceitos que o país vizinho quer potenciar e difundir com o objectivo de potenciar e consolidar a sua liderança mundial no sector. Exemplo disso são os cursos de cozinha espanhola para jovens cozinheiros de diversos países que nos últimos cinco anos têm sido promovido pelo Instituto do Comércio Externo de Espanha, o Icex (...).

O objectivo expresso (...) é o de familiarizar os futuros líderes culinários com os produtos de origem espanhola, criar uma rede internacional de alto nível ligada à alta cozinha espanhola, e transmitir a imagem de liderança no mundo culinário. 

A formação começa com um curso intensivo de castelhano na Universidade de Salamanca, seguindo-se depois estágios rotativos nas cozinhas dos mais prestigiados restaurantes. Termina com uma competição entre todos eles, que decorre sob o patrocínio do Conselho Regulador dos Cavas. Pois claro!"

 

Que o Ministro Álvaro Pereira ou os seus tão atentos e interventivos spin doctors leiam este artigo do Fugas (ou, pelo menos, este excerto). 

Leia ainda:

Paixão

por Rui Falcão, em 04.02.12

 

Paixão, paixão e mais paixão, esta é a palavra indispensável no léxico do vinho e da gastronomia, o substantivo mais reiterado, mencionado em cada intervenção, repetido até à exaustão cada vez que se conversa sobre o vinho, a gastronomia e os seus protagonistas, sejam eles o produtor, o enólogo, o viticultor, o chef ou o próprio autor da crónica, quando se refere ao seu amor pelo vinho e pela gastronomia.

A paixão é óptima e mais que desejável. A paixão move mundos e incendeia a alma, solta a imaginação, é poderosa e arrebatadora. Num mundo perfeito a paixão deveria estar patente em todas as actividades a que nos dedicamos, intelectuais ou práticas, pessoais ou académicas, na actividade profissional ou nos interesses que abraçamos nos tempos livres. Mais que um chavão gasto que mencionamos a todo o instante a paixão deveria ser uma convicção.

A paixão, porém, apesar de obrigatória, como em todos os cometimentos da vida, não é suficiente para sustentar um negócio. Os dois únicos mundos que se alimentam da paixão, por si só, e que em muitos casos não é mais que um subterfúgio para a palavra ego, são o vinho e a restauração, onde é raro encontrar uma postura séria na procura de conhecimento e onde palavras pesadas como trabalho, investigação ou suor costumam ficar esquecidas em prol da poesia da paixão platónica. Até porque a paixão costuma ser passageira, entendida como um sentimento doloroso e patológico, capaz de nos fazer perder a identidade e o poder de raciocício.

Paixão, sim, é um sentimento indispensável e, felizmente, costuma estar presente de forma eloquente no vinho e na comida… mas não é, de todo, suficiente. Desengane-se quem pensa que a paixão é tudo e que o trabalho e o conhecimento são simples acessórios a acrescentar à contínua evocação da palavra paixão.

Leia ainda:


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Pesquisar

  Pesquisar no Blog