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Nestas coisas das cozinhas e das comidas, já passei por muitas fases... A sorte é que todas me têm dado muito prazer e conhecimento... Há uns 15 anos comecei a ficar um pouco farta do pão que comprava. Decidi experimentar fazer. Com boa vontade (muito boa vontade)  o pão que fazia era razoável... mas era o meu! O que valia, é que era cada vez mais razoável, e depois até bom (ao excelente, ainda não cheguei). Houve uma época em que fazia todo o pão que comia em casa. Nessa fase o objectivo era ter um pão cada vez mais interessante. Assim, decidi ter no frigorífico um frasco de massa azeda (sourdough). O pão ficava com mais personalidade e conservava-se mais tempo devido à acidez da massa.

 

 

Mas a massa azeda dá trabalho. Ou fazia pão e a usava e alimentava, ou tinha que deitar fora regularmente parte da massa e alimentá-la. Uma das minhas amigas um dia até disse: "Já percebi. Isso é o teu animal de estimação!". E era mais ou menos isso, era preciso cuidar das minhas bactérias e leveduras. Uns animaizinhos de estimação que compensam o trabalho que temos com eles - dão um pão bem melhor. E às vezes até eram divertidos, lembro-me uma vez que pus uma tigela com uvas no frigorífico... devem ter recebido a visita das primas que vinham nas uvas e aquilo era uma alegria, tudo borbulhava. Cuidei razoavelmente dos meus bichinhos uns dois ou três anos. Depois, fui de férias, entrei numa fase em que fazia menos pão, e um dia dei com a minha massa azeda com um aspecto avermelhado e deitei pelo cano.

 

Recentemente comecei a voltar ao pão. E anda-me a apetecer fazer massa azeda. Tenho pensado nisso, já pus a hipótese de começar breve, ou depois das férias para lhe poder dar mais atenção. Ainda não decidi. Mas andando neste dilema, foi com um misto de ternura e divertimento que li o post The sourdough hotel: a cultural centre do blog Word of Mouth. Um hotel para deixar a massa azeda quando se vai de férias! Diverti-me a ler o post e diverti-me ainda muito mais a ler os comentários do leitores! Como é que uma coisa destas pode causar tanta irritação a alguma pessoas??!!

 

 

 http://www.urbandeli.org/bageriet/

 

300 coroas suecas (33,4 euros) para nos cuidarem dos bichinhos uma semana, é um pouco demais, até porque os bichinhos ficam bem sozinhos uma semana e até muito mais. Mas também é verdade que se a coisa dá para o torto é chato! Uma boa massa azeda, com muitos anos (e há-as com décadas!), é valiosa, sobretudo porque é a personalidade do nosso pão. Pensar nos bichinhos sozinhos pode mesmo estragar umas férias, como refere um dos leitores do Word of Mouth: “I had a fairly hair-raising holiday last summer worrying that my brother in law might not keep our starter alive. Thankfully he did, but looked awfully relieved to give it back afterwards. He said he had not had any idea what kind of responsibility he was taking on.”

 

Tudo isto me fez tomar uma decisão importante! Vou mesmo começar breve a minha massa azeda, e vou mantê-la viva muitos anos! É que não é só ter uns bichinhos de estimação, não é só um bom pão, é quase uma forma de estar na vida. E a época em que vivemos exige que repensemos a nossa forma de viver e os nossos valores,  e eventualmente os mudemos.

 

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Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

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Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

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