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O Meu Pão

por Paulina Mata, em 13.10.13

Todos precisamos de uma componente no quotidiano que nos transporte para uma forma de vida mais calma e menos frenética do que a que geralmente temos. Para alguns isso é um contacto estreito com a natureza. Confesso que a natureza, grandes espaços isolados e com pouca gente me causam uma sensação de prisão, de ansiedade e até de falta de segurança. É bom, ocasionalmente, umas horas… mais do que isso dispenso. Sou profundamente urbana e gosto de todas as vantagens e, até por vezes, inconvenientes de uma vida numa grande cidade. Aprecio verdadeiramente a inteligência, arte e engenho de mulheres e homens.

Acho que cozinhar para mim sempre desempenhou a função de escape. Mas, há mais de uma década, tomei consciência de que o pão que comprava não tinha uma qualidade que me satisfizesse, decidi então começar a fazer o meu pão. Não correu bem sempre (aliás, ainda não corre sempre bem), mas foi evoluindo. Introduzir alterações (nas farinhas, na componente líquida e adicionar outros ingredientes) dá por vezes resultados engraçados… Hoje, acho que faço um pão bastante razoável (que me dá mais prazer a comer do que a generalidade do que compro). Fui ao longo do tempo também percebendo que, mais que tudo o resto, fazer pão era a minha ligação preferida à natureza, o meu escape favorito.

A última etapa, obviamente, tinha que ser fazer o meu pão partindo do zero e apenas com farinha, água e sal. O que significa fazer o meu próprio fermento. Já tinha feito uma tentativa há uns anos, mas foi passageira. Apetecia-me tentar de novo. E talvez os tempos difíceis que vivemos até tivessem tido algum peso na decisão. Precisamos de escapes, ligações a raízes e segurança… de mudar a vida.

Há uns meses escrevi aqui o post “Massa Azeda – quase, quase um Animal de Estimação”, em que terminava assim:

Vou mesmo começar breve a minha massa azeda, e vou mantê-la viva muitos anos! É que não é só ter uns bichinhos de estimação, não é só um bom pão, é quase uma forma de estar na vida. E a época em que vivemos exige que repensemos a nossa forma de viver e os nossos valores,  e eventualmente os mudemos.

Num dos dias seguintes meti mesmo mãos à obra. A minha massa azeda tem neste momento quase um ano e meio, e está bem viva e borbulhante e pronta para viver muitos anos.

Ela é resistente! Houve períodos de maus tratos, de menos atenção, mas a estes seguem-se excitantes tentativas de reanimação, a vê-la recuperar a saúde e a antecipar o pão que vou fazer.

Fazer pão com massa azeda é bem mais difícil que com a levedura comercial. Tenho que confessar que os insucessos foram muitos, mas que a evolução também.

Um pão bom e bonito contribui muito para a qualidade de vida. assim, foi com grande excitação que comprei o meu primeiro “banneton” (não sei como se diz em português). Não é que o cesto de verga coberto com um pano branco que usava não fizesse a sua função, mas não era a mesma coisa…

O entusiasmo de fazer o meu primeiro pão usando o banneton foi grande. Melhor ainda porque tinha trazido na mala de uma viagem fiz um quilo de farinha “Very Strong Canadian White Bread Flour”. Passo a vida a ler rótulos de farinhas para tentar encontrar uma com um teor de proteínas adequado. Quando li no rótulo desta que o teor de proteína era 14,8% achei que tinha finalmente encontrado o que procurava. Quando a seguir li “For richly flavoured, slow-fermented breads like sourdough, this 100% Canadian wheat flour is ideal. Famed for its superior quality and proteins levels, it allows you to prove your dough for longer, for even fuller flavor and distinctive nutty crust.” tive a certeza.

Era disto que eu e a minha massa azeda precisávamos para testar as nossas capacidades… A diferença senti logo nas mãos quando misturei todos os ingredientes e amassei. E que diferença! Confirmei que estava no bom caminho.

A prova final foi comer o pão. Estava muito bom! Cheio de personalidade, com um sabor ácido que me agrada bastante. O sabor ficava na boca, muito, muito tempo…
Apesar de ter ficado muito orgulhosa do meu pão, ainda há muito espaço para melhorar e experimentar. Pena que não possa, ou não saiba onde, adquirir farinha desta cá. Da próxima trago cinco quilos – a minha qualidade de vida exige-o!

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publicado às 10:10


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