Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




 

Gosto muito de ler o Jay Rayner. Frequentemente concordo com as suas posições, outras nem tanto… mas o estilo de escrita, o sentido de humor e a forma provocatória com que escreve fazem com que seja sempre uma boa leitura. Gosto da enorme paixão pela comida do Jay Rayner, associada a um profundo conhecimento. Gosto da seriedade com que, de forma bem irreverente, aborda cada tema.

Há uns meses a minha filha mais velha telefonou e disse-me “Vim ao teatro e vai haver aqui uma sessão com o Jay Rayner daqui a uns dias. Quando chegas a Londres?”. Por (feliz) coincidência tinha uma viagem programada e chegava a Londres no dia do evento, que era anunciado da seguinte forma:"A doutrina da comida local está morta. Os mercados de produtores são simplesmente um escolha de estilo de vida para uma classe média abastada. E "orgânico" tornou-se pouco mais do que uma etiqueta de marketing que há muito passou o prazo de validade."

Mais polémico era difícil! Jay Rayner, sozinho em palco, falou durante cerca de 1 hora. Assuntos complexos, mas um discurso bem estruturado e fundamentado. O tema era aliás o do seu último livro “A Greedy Man in a Hungry World – Why almost everything you thought you knew about food is wrong”. Um título também polémico para 289 páginas que nos prendem. Comprei logo ali o livro, que li nas semanas seguintes.

Apesar da capa, este é um livro profundamente sério e (o que nem sempre acontece com assuntos desta natureza) de leitura muito leve e fácil. Contudo (o que nem sempre aparece associado a livros de leitura fácil), pode ser bem difícil digerir a informação. Talvez por isso, ainda não tinha acabado de o ler, e já tinha a certeza que muito em breve o irei ler de novo. Com atenção redobrada.

O conteúdo é parte livro de memórias, em que Jay Rayner fala das suas experiências e da sua família, de um forma bem intimista, que quase nos dá a sensação de espreitar pela janela da sua vida. Parte é investigação jornalística. Investigação profunda e muito séria. Também estes dois aspectos raramente aparecem associados no mesmo livro. Não há uma polarização de posições, há argumentos, lógica, bases sólidas, que permitirão a cada um decidir mais conscientemente o que comer e onde comprar, assuntos que cada vez mais têm um carácter político e de cidadania.

Resultado… um livro que é divertido, desconfortável por vezes, que dá que pensar e que pode alterar completamente a visão que temos do que comemos. De facto, alguns comentários que encontrei de pessoas que leram o livro diziam coisas como: “Este livro desafiou quase todas as minhas crenças de foodie e forneceu evidência suficiente para me convencer de que tenho que pensar sobre as coisas mais profundamente.” ou  “Até ler este livro, eu também pertencia à "brigada não-às-milhas-alimentares/orgânico/sustentável/criado-ao-ar-livre”, mas de facto nunca pensei  muito sobre isso. Leia este livro e acorde para a realidade de um mundo cada vez mais demasiado populoso para se sustentar.”

O que se aprende ao ler este livro? Não o conseguiria dizer melhor do que o que próprio Jay Rayner disse nas conclusões, por isso “roubo-lhe” as palavras:

1 . Os supermercados NÃO são perversos.
2 . Contudo, claro, eles SÃO MESMO MUITO PERVERSOS.
3 . Importar-se com o sabor das coisas, ser obsessivo relativamente à sazonalidade, viver obcecado por ingredientes de alta qualidade, esfregar -se contra as páginas brilhantes de um livro de receitas de Nigella Lawson : tudo isso é completamente correcto . Mas ...
4 . ... não é o mesmo que apoiar a agricultura sustentável.
5 . A comida local não é o máximo. Excepto ...
6 . ... quando acontece ser.
7 . E se o localismo é bem menos importante e as milhas alimentares uma medida demasiado simplista, então comer ingredientes importados fora de época já não é necessariamente uma grande questão moral. Na verdade ...
8 . ... nem todos os alimentos importados são obras do diabo. Alguns deles são a solução.
9 . Mercados de produtores são locais magníficos. Como o são os showrooms  da Ferrari, e as lojas que vendem brilhantes carteiras Chanel. Se tiver dinheiro, vá em frente. Divirta-se. ( Eu sei que o faço. )
10 . Alimentos orgânicos constituem um argumento muito fraco por si só.
11 . A grande agricultura não é completamente sórdida, má e perigosa e terrível e indizível. Na verdade ...
12 . ... alguma grande agricultura é necessária.
13 . Virar as costas à biotecnologia porque é, sabe, estranha e envolve ciência e pessoas com bata branca, e nada de bom pode alguma vez vir de qualquer uma destas coisas, é muito, muito burro. Porque muita gente no mundo não tem acesso a comida suficiente.
14 . Precisamos comer menos carne.
15 . Natural ou artificial não querem dizer muito, por isso precisamos de encontrar novas palavras.
16 . Os biocombustíveis são uma verdadeira treta.
17 . Todos estes assuntos são terrivelmente complicados.

 

Eu, como já várias vezes tive oportunidade de dizer, não vivo particularmente entusiasmada com as tendências actuais da cultura gastronómica. Estou cansada das posições de alguns chefes e outros activistas na área da alimentação em que opções estéticas e de estilo de vida são apresentadas como as únicas opções éticas moralmente inquestionáveis. Considero profundamente utópicas, pouco fundamentadas e repostas fáceis e simplistas, muitas das propostas relativamente ao que comemos, à sua proveniência e ao seu impacto na saúde e no ambiente. O que não quer dizer que não concorde com algumas das posições (tal como o Jay Rayner diz várias vezes durante o livro “eu não sou idiota”). Mas, até a mim, determinadas partes deste livro me deixaram bem angustiada com a complexidade dos problemas. Mais do que isso, algumas deixaram-me mesmo assustada.

É importante valorizar o conhecimento, profundo, que dá trabalho a adquirir. É importante ir além do óbvio, do intuitivo, do que é moda. É importante questionar aquilo que tomamos por garantido. Todas as opções são válidas, os argumentos é que nem sempre são, e mais conhecimento permite optar de forma mais consciente. Este livro pode ser uma boa contribuição para isso.

 

O “A Greedy Man in a Hungry World” de  Jay Rayner foi seguramente um dos melhores e mais importantes livros que li nos últimos anos (e gostava tanto de o ter escrito... que inveja!).

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:35


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Veja as listas completas aqui



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Maio 2014

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Comentários recentes

  • Artur Hermenegildo

    Já fui comer o menu de almoço e é de muito boa qua...

  • Paulo Guerra

    E como é óbvio não se vende Lisboa com metade do f...

  • Paulo Guerra

    Apesar de chegar tarde gostava de comentar a temát...

  • Artur Hermenegildo

    Pois, isto tudo concentrado num mês é o diabo para...

  • Anónimo

    Um bom restaurante a carta é curta, quando a carta...