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A mãe, Maria José Macedo, foi uma pioneira da agricultura biológica em Portugal, criando a Quinta do Poial, em Azeitão. Quando nos deixou, há quase dois anos, havia a dúvida se a sua filha Joana conseguiria manter os altos padrões a que a Quinta do Poial tinha habituado os seus clientes, entre os quais se encontram alguns dos mais renomados chefes portugueses. Afinal, a filha era mais conhecida como actriz, usando o nome de família do pai francês, Sarrazy, ou como gestora do Collector’s Hostel, em Braga, instalado na casa de família onde nasceu.

 

A verdade é que Joana Macedo não só manteve a Quinta do Poial, como não desistiu de nenhuma das suas outras vidas, dividindo-se entre Azeitão e Braga, mas também como Joana Sarrazy, participando, por exemplo, em duas recentes curta-metragens (“Mais Dois Anos” e “Dás Cabo de Mim”, este ainda por estrear) de Leandro Scarpin e Júlio Pereira. Aliás, orgulha-se da nomeação para Melhor Actriz que teve no Festival de Toronto pela sua actuação no primeiro curta-metragem e nas diversas distinções que estes filmes têm obtido em diversos países.

 

Haveria ainda muito mais a contar sobre a mulher que hoje dirige a Quinta do Poial, mas que se formou em Design Industrial no IADE, que estudou dança no Conservatório de Lisboa, que desde a adolescência actuou em peças de teatro e participou em anúncios publicitários, trabalhou em restaurantes e em moda, estudou representação em Paris, viveu na Tasmânia durante alguns anos, casada com um chefe francês... Mas aqui interessa-nos mais a Joana Macedo produtora biológica convicta. A que considera que, dadas as características e dimensão de Portugal, a quase totalidade da nossa agricultura deveria seguir o modo de produção biológica. “Limpávamos os rios e os terrenos, conseguíamos ser auto-suficientes em vários produtos e até exportávamos. Projectos como a Quintal do Poial mostram que se pode praticar uma agricultura biológica rentável em Portugal”, afirma. É mais um Menu de Interrogação que conta com o patrocínio da cervejeira Estrella Damm, no âmbito do seu apoio à gastronomia.

 

 

Qual a importância dos restaurantes de chamada “alta cozinha” para a viabilidade económica da Quinta do Poial?

Poderia dizer que a viabilidade económica de ambos depende das nossas parcerias. O Poial pesquisa, produz, experimenta produzir vegetais diferentes e faz um trabalho à la carte! 

 

Os chefes em Portugal estão sempre em busca de “novidades” para os seus clientes ou estão mais interessados nos produtos de sempre com mais qualidade?

Os chefes em Portugal vêm todos de escolas bem diferentes e países diferentes. Há procura para ambos e procuram novidades com qualidade, dos coentros aos micro rabanetes! 

 

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Qual foi a pergunta de um chefe que revelou mais desconhecimento das práticas agrícolas? Não é preciso revelar o nome...

Perguntar em Janeiro se tenho tomate e, após ter respondido que teria em Julho, continuar todos os meses a perguntar se já tinha. Fazemos uma agricultura diferente, mas milagres ainda não fazemos, deixamos isso aos deuses... 

 

Como reage quando vê os produtos que tanto trabalho lhe deram a cultivar maltratados num restaurante ou em casa de alguém?

No caso do Poial, felizmente não vejo os meus produtos maltratados nos restaurantes. Mas em geral não se dá valor ao trabalho que dá cultivar produtos agrícolas. Acha-se que crescem sozinhos. São os produtos a que menos importância damos. Umas calças de ganga são mais valiosas do que nos alimentarmos como deve ser.  

 

Sente que o clima está de facto a mudar?

E de que maneira... Este ano, três meses de geada em Azeitão, sem chuva... 

 

Qual o foi o maior desafio que encontrou quando passou a liderar e a gerir a quinta? 

Tudo, da rega ao tractor, passando pela gestão comercial. Ter e gerir a quinta do Poial foi um desafio imensurável.

 

Há aquela ideia romântica de que quem vive ou trabalha num lugar como o seu todos os dias colhe da horta uns vegetais incríveis e cozinha-os uns minutos depois. Faz isso com frequência ou isso é como aquele mito infantil de que se trabalhássemos numa fábrica de chocolate comeríamos chocolate o dia inteiro? 

Sim, faço mas não de modo tão frequente como gostaria. Gosto bastante de cozinha e gosto de inventar, por vezes. O meu problema é a falta de tempo, não ter um sous-chef, servir primeiro os clientes. E não podemos esquecer que em casa de ferreiro espeto de pau... 

 

A sua mãe dizia muito que não basta um produto ser biológico para ser bom. Na sua opinião, o que é que distingue a oferta da Quinta Poial em reação a outros produtores? 

Há biológico e há quem faça biológico com convicção. Aqui desenvolvemos um trabalho bem diferente, procuramos produtos diferentes, variedades que não são produzidas em Portugal, variedades antigas caídas em desuso, separamos os vegetais por tamanhos consoante o chefe, é uma agricultura minuciosa. Quanto à qualidade, perguntem aos meus clientes, saberão responder melhor se há ou não diferença.  

 

Não a irrita chegar a um mercado biológico como o do Príncipe Real, que deveria espelhar a sazonalidade, e ver produtos completamente fora de época, como tomate ou morangos, tal como acontece numa grande superfície?  

Irrita bastante. Num país com tanta diversidade ao longo o ano como Portugal acho que não faz sentido nenhum e deseduca os consumidores.

 

E a pergunta da praxe: qual seria a sua última refeição se soubesse que o mundo acabaria amanhã?

Um menu degustação com o chefe que estivesse disponível!!!! 

 

 

Patrocínio:

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 Fotografias: Cristina Gomes

 

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