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Mesa Marcada no Faz Frio

por Duarte Calvão, em 06.11.18

 

FazFrio_letr.jpg

Nos últimos 30 anos, visitei esporadicamente o Faz Frio. Para uma cidade europeia, Lisboa tem pouquíssimos restaurantes antigos e este é dos poucos que restam. Lembro-me, aliás, de ir lá em criança, de como gostava de estar naqueles “gabinetes” decorados com desenhos nas paredes. Vivi entre 1976 e 1985 no Rio de Janeiro e, quando regressei a Lisboa, foi um dos restaurantes a que quis voltar. Tinha um horroroso balcão de alumínio a ocupar quase metade da sala da entrada e um rapaz colocou-me os talheres na mesa (acreditem se quiserem) segurando nas lâminas das facas e nos dentes dos garfos. Pedi para ir buscar outros e que os colocasse na mesa de maneira correcta. Acho que ficou tão espantado por alguém lhe ter dito tal coisa que acedeu sem protestos. Mais tarde, lembro-me de ter almoçado lá com a minha mãe, para recordarmos outros tempos. Hoje, desse almoço, a principal recordação é da sujidade do chão e das toalhas de papel manchadas com vinho tinto, que tresandava. Mais uns anos e nova tentativa, desta vez com a minha mulher. Ficámos num dos gabinetes, mas num ao lado havia um grupo de estudantes a fazer tal algazarra que nem sequer conseguíamos conversar um com o outro. Pedi a um empregado para tentar acalmar os berros e cantorias da rapaziada, mas ele disse-me logo que não havia nada a fazer. Dessa vez, nem terminei a refeição. Há menos anos, levado por alguém que me garantira a excelência da paella ou arroz à valenciana ou lá como chamavam o prato, voltei à Antiga Casa Faz Frio para me desiludir pela última vez.

 

Por isso, quando ouvi recentemente a notícia da possibilidade da Antiga Casa Faz Frio vir a fechar portas, fiquei apenas preocupado com o destino que dariam aos painéis pintados e à estátua em madeira de um marinheiro atribuída a Mário Cesariny. Quanto ao resto, achei que não se perdia grande coisa. Quando a vitalidade se vai, o melhor é mesmo acabar de uma vez. Para restaurantes-museu não contem comigo. Porém, fiquei satisfeito quando soube que afinal ia ser recuperado por novos proprietários, que iriam manter as características únicas da casa, mas mudando o que tinha que ser mudado, incluindo a cozinha, que ficaria entregue a um jovem chefe, Mateus Freire, já com bom currículo, sobretudo ao lado de Vítor Claro.

 

FazFrio_gabinete.jpg

Assim, logo que tive oportunidade, rumei ao novo Faz Frio, prevendo que não iria encontrar nenhum estilo culinário arrojado, mas antes pratos de toda vida bem feitos. Como não aceitam reservas, fui jantar cedo, com receio que o efeito de novidade, juntamente com a muita gente que por ali passa, entre os quais numerosos turistas, esgotasse os lugares rapidamente. Julgo que fiz bem, por ainda não eram 20h e já havia poucas mesas disponíveis. Boa impressão, logo à entrada, não só pelo ambiente, marcado por um novo e decente balcão, mas porque fui muito bem atendido por jovens empregados que me encaminharam para a única mesa para dois que restava num dos gabinetes. Aliás, o bom serviço manter-se-ia ao longo do jantar, simpático, bem educado e bem informado sobre o que servia.

 

Foi, portanto, com algum entusiasmo que me sentei (em bancos de madeira, quem quiser mais conforto procure outras casas) e pedi de entrada peixinhos da horta e pastéis de massa tenra para ficar na tipicidade lisboeta. Depois, peixe assado (que era corvina) e o “bacalhau do dia” (fotos em baixo), já que é uma das apostas da casa ter várias receitas deste fiel amigo. Nesse dia, era à Narcisa, e confirmei com o empregado que se tratava de uma receita próxima do bacalhau à minhota, com posta e batatas fritas e cebola. Fui logo informado que era uma versão da casa, mas não esperava que tão diferente da receita original, tornada célebre por um restaurante de Braga de mesmo nome, segundo o que depois pesquisei. Mas já lá vamos.

 

FazFrio_pratos.jpg

Começando pelo princípio, bom pão e boa manteiga, ambos feitos na casa, com azeitonas verdes e descaroçadas. É, aliás, um dos pontos de honra da nova gerência ter muita coisa “feita em casa”, o que só lhes fica bem. Boa fritura dos peixinhos da horta, a sentir-se o feijão-verde, mas em versão tempura. Quanto aos pastéis, massa demasiado espessa e recheio de carne desfiada e não moída, um pecado que se generalizou desde que os restaurantes portugueses decidiram aposentar os saudosos moinhos de carne. Quanto aos pratos principais, triunfo da Roner e dos saquinhos a baixa temperatura. O peixe de assado não tinha nada (a não ser, segundo me pareceu, uma "maçaricada" na pele...) e o prato estava inundado de um molho à base de cebola que se impunha no conjunto e ainda por cima estava salgado. A posta de bacalhau, em vez de frita, vinha cozida a baixa temperatura e as batatas fritas eram chips crocantes, em vez de rodelas mais grossas. Das inovações, só gostei do aproveitamento da pele, que, estaladiça, salpicava o prato. Na sobremesa, uma (boa) versão de mousse de chocolate e um pastel de nata caseiro pequeno e com massa demasiado fina.

 

Quem ler o parágrafo anterior, julgará que fiquei sem vontade de voltar ao Faz Frio. Mas engana-se, vou dar-lhe mais oportunidades. Porquê? Porque senti que é um restaurante que ainda está muito recente e anda à procura do seu caminho. Em conversa com o jovem proprietário, Jorge Marques, que andava pelos diversos espaços da casa a recolher opiniões dos clientes, perante as minhas observações, a reacção foi muito positiva. Não porque aquilo que eu lhe tenha dito se traduza em alterações – não tenho essa pretensão -, mas porque creio que não está “fechado” nas suas certezas e quer de facto fazer um bom trabalho, não lhe bastando ter apenas  “casa cheia”, algo relativamente fácil nas zonas turísticas da Lisboa de hoje. Acho é que tem que optar ou pelas receitas originais que anuncia ou por uma cozinha própria, necessariamente diferente da tipicidade.

 

Uma palavra final para a carta de vinhos, dominada pela enóloga Sandra Tavares da Silva, com os seus vinhos durienses (em parceria com o marido, também enólogo, Jorge Serôdio Borges), mas sobretudo pela Quinta do Chocapalha, em Alenquer, com quem os proprietários do Faz Frio têm uma relação familiar.  Não que não goste dos vinhos, pelo contrário, soube-me muito bem o Chocapalha Arinto que pedi, mas porque convém ter mais opções. A conta fica pelos 30/35 euros por pessoa, bastante razoável para o nível da casa. Tal como disse, pretendo voltar para ver como evolui a cozinha deste simpático restaurante, em boa hora renovado.

 

Faz Frio

Morada: Rua Dom Pedro V, 96 (Príncipe Real), Lisboa

Tel.: 215 814 296

Horário: Aberto todos os dias para almoços e jantares. À tarde, fica aberto para petiscos. Fecha às segundas-feiras.

 

Nota: Fotografias de Cristina Gomes, salvo a da abertura do post, tirada por este que vos escreve num raríssimo momento de "fotojornalismo"...

 

 

 

 

 

 

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publicado às 19:10


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