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O Ramiro em livro (e sem sujar as mãos)

por Miguel Pires, em 28.02.19

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Há já uns anos que Paulo Barata, fotógrafo e organizador do Sangue na Guelra, falava em fazer um livro sobre o Ramiro. Creio que essa vontade é anterior ao artigo que fizemos os dois sobre a popular cervejaria / marisqueira para a revista italiana Cook Inc, em 2017, mas o certo é que aquela casa era (e é) há muito a sua favorita - é lá que leva todos os chefes e jornalistas que convida quando vêm a Portugal. As razões das suas preferências não devem ser muito diferentes das de tantos outros clientes regulares: o marisco, o serviço, e o ambiente familiar que conserva ainda hoje, mesmo com toda a horda de turistas. Porém, como bom fotógrafo que é, o Paulo tinha um grande desejo de captar todo esse ambiente e energia através da lente da sua máquina e ter a seu lado alguém com talento para os descrever.

 

 

 

 

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publicado às 16:18

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Dinamizar a mercearia e a zona com um bar de vinhos e restaurante com chefes convidados é a nova proposta de António Galapito para o Prado Mercearia, o espaço vizinho ao restaurante Prado, na Baixa lisboeta. Esta nova fase está prevista para começar a 13 de Março, quando chegar o primeiro chefe convidado e o espaço já tiver sido adaptado com as mesas que irão acolher 24 pessoas no interior mais algumas, em pé, no exterior. O espaço, que foi dotado de uma cozinha mais completa, continuará a funcionar como mercearia ao longo do dia, com uma proposta mais simples e será a partir do fim do dia é que se dará a transformação.

 

“Gosto da ideia como mercearia se vai desenvolver, em termos de oferta para comer”, Diz-nos António Galapito. “De manhã teremos umas sanduíches e ao almoço juntamos umas sopas”. A ideia é pegar em conservas, enchidos, queijos, legumes e outros produtos que vendem na mercearia, mas quem conhece o Prado sabe que “sanduíches” e “umas sopas” nunca serão sanduíches ou sopas banais, ainda que a fasquia não deva ser colocada muito alta dado que a ideia é que o almoço ande na casa dos 10/15 euros. Durante do dia haverá tábuas de queijos e de enchidos que se manterão a partir das 19h até às 23h quando começar a funcionar o bar de vinhos. Porém será nesta altura que entrarão os chefes convidados. O Prado Mercearia irá acolher chefes em residências cuja duração será variável. “Gostaria que fossem três a quatro meses, mas também podem ser de duas ou três noites”. Segundo Galapito, terá sobretudo a ver com a disponibilidade dos convidados. “Tenho amigos que já me pediram para fazer períodos curtos”. 

 

António Galapito trabalhou cerca de 8 anos em Londres e será de um grupo de ex-colegas e amigos que sairão os primeiros nomes. Todavia, os convites serão estendidos a chefes portugueses que estejam numa fase de transição por cá.

 

A inaugurar a série de residências estará, de 13 Março a 30 Março, o australiano Sebastian Myers, que passou pelo Chiltren Firehouse e que já esteve cá durante um Sangue na Guelra.

 

Depois será a vez de Edgar Wallace, de 9 Abril a 30 Abril. Wallace foi colega de Galapito no Corner Room e na Taberna Mercado antes de mergulhar a fundo na cozinha oriental.

 

Todos os chefes que residentes por períodos mais longos farão antecipadamente um almoço de apresentação Prado & Friends, no restaurante principal, no domingo anterior à abertura.

 

Galapito revela ainda que haverá pelo menos uma semana de intervalo entre a ida e a vinda de um novo chefe residente e aí será a equipa do Prado que tomará conta do espaço. Esta será também uma forma de impulsionar a criatividade dentro de portas, dado que todos os meses uma pessoa da cozinha e outra sala outra da sala ficarão na Mercearia – ao cozinheiro caberá a função, junto com Galapito, de delinear a carta para o período diurno e também para os jantares quando não houver chefe residente.

 

A cada chefe será liberdade para criar respeitando a filosofia do Prado: aproveitamento máximo dos alimentos, utilização de ingredientes locais, sazonais e sempre que possível biológicos. Em alguns casos poderá ser aberta uma outra excepção, nomeadamente ao nível de certos temperos, como acontecerá no caso de Edgar Wallace.

 

Em termos de vinhos, a proposta não está ainda completamente fechada, mas não andará muito longe da oferta de vinho bio, biodinâmicos e naturais do Prado Restaurante.

 

Neste novo registo, o Prado Mercearia funcionará de terça-feira a sábado, sendo que à segunda-feira estará aberto mas apenas no horário normal de loja.

 

Seja para se tomar um copo de vinho e comer um snack enquanto se espera mesa no Prado Restaurante, ou especificamente para jantar, Lisboa e a zona da Sé, passam a ter mais um espaço uma proposta interessante. Ou pelo menos assim se espera. Venha daí o mês de Março.

 

Prado Mercearia, Rua das Pedras Negras, 37, Lisboa

 

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publicado às 15:00

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Os organizadores Joe Warwick e Andrea Petrini tinham repetido várias vezes que o The World Restaurant Awards não seria mais uma lista e que queriam tentar fazer algo diferente que celebrasse o mundo da restauração de uma forma nova, relevante e descontraída. E surpresas não faltaram. De facto, muitos dos presentes no evento que decorreu, ontem, no Palais Brongniart, em Paris, tentavam adivinhar o vencedor a partir da short list que tinha sido divulgada, umas semanas antes, e raramente acertavam, a começar pelo vencedor daquela que pode ser apontada como a principal categoria, a de Melhor Restaurante do Ano, que foi ganha pelo Wolfgat, um espaço situado numa pequena vila piscatória a 2 horas da Cidade do Cabo, na África do Sul. 

 

Estes prémios, fundados por dois dissidentes do World 50 best, e que conta com uma lista publica (da qual faço parte) de mais de 100 jurados de especialistas de vários países, tinham dois candidatos portugueses na "short list" depois de outros quatro terem feito parte da lista mais longa (como relatámos aqui). A Cervejaria Gazela, no Porto, com os seu cachorrinho era candidata na categoria Prato da Casa do Ano, e o The Presidential Train, estava nomeado para Evento do Ano. Nenhum dos dois ganhou, mas os responsáveis de ambos, presentes na cerimónia, estavam visivelmente satisfeitos por terem sido nomeados e poderem estar ali.

 

As categorias nestes prémios estavam divididas em duas áreas: Big Plates (Grandes Pratos ) e Small Plates (Pequenos Pratos). Nos Big Plates, estão as categorias, mais comuns, como a de "restaurante do ano”, “restaurante novo do ano”, “restaurante de lugar longínquo do ano”, “restaurante com melhor ambiente do ano”, “restaurante de prato especial da casa do ano”, “restaurante clássico do ano”, “restaurante com pensamento original do ano”, etc.

 

Já nos Small Plates, aparecem categorias que podem parecer um pouco estapafúrdias, mas que, olhando bem, e conhecendo os curadores, verifica-se que foi a forma humorada que eles arranjaram para premiar algo que vá sentido oposto às tendências (com excepção da “conta de Instagram do ano”). Nesta divisão surgem então prémios como:  “Chefe sem tatuagens do ano”, “restaurante em que os cozinheiros não usam pinças do ano”, “restaurante com trolley/carrinho do ano”, “artigo longo de imprensa do ano”.

 

E os vencedores foram: 

 

. Restaurante novo do ano : Inua, Tóquio, do alemão Thomas Frebel ex-braço direito de René Redzepi 

 

. Restaurante livre de pinças do ano: Bo.lan, Banguecoque, Tailândia

 

. Prato da Casa do Ano : Cacio e pepe "en vecia" (servido numa bexiga de porco) de Ricardo Camanini, Lido 84, na Lombardia, Itália. Era esta a categoria em que concorria o cachorrinho da Gazela, Porto. 

 

. Restaurante num lugar Remoto do Ano: Wolfgat, África do Sul 

 

. Conta de Instagram do ano: Alain Passard 

 

. Restaurante com Melhor Ambiente do Ano: Vespertine, Los Angeles, EUA 

 

. Restaurante Sem Reservas do Ano: Mocotó, São Paulo, Brasil

 

. Chefe Sem Tatuagens do Ano: Alain Ducasse 

 

. Restaurante  “Ethical Thinking” do ano: Reffetorio (várias cidades do mundo)

 

. Original Thinking: Le Clarence, Paris (bateu, entre outros, o Noma, Enigma, Mugaritz) 

 

. Trolley do Ano: Ballymaloe, Irlanda (carrinho de doces) 

 

. Enduring Classic (restaurante aberto há mais de 50 anos): La Mère Brazier, Lyon  

 

. Forward drinking (lista de bebidas do ano): Mugaritz - no ano em que celebram 20 anos, um restaurante “que é uma aberração”, como Andoni Aduriz se referiu em tom jocoso, quando discursou no palco

 

. Restaurante com lista de vinho tinto do ano: Noble Rot, Londres, Inglaterra 

 

. Evento do ano : Refugee Food Festival (vários locais)

 

. Colaboração o ano: Paradiso com Gortnanain, Cork, Irlanda  

 

. Peça jornalistica longa da ano: Lisa Abend “The food circus”, Fool Magazine 

 

. Restaurante do Ano : Wolfgat, África do Sul 

 

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Alex Atala a entregar o prémio "Sem Reservas" do ano ao seu colega Rodrigo Oliveira, chefe do Mocotó, em São Paulo

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Ambiente geral da festa após a cerimónia 

 

O The World Restaurant Awards aparece com a preocupação de ter um júri que reúne uma série de grandes nomes, mas também figuras pouco conhecidas que vêm de lugares recônditos. Ou seja, houve a preocupação que  fosse geograficamente abrangente e igualitário em termos de género. Do grupo de cerca de 103 especialistas provenientes de 37 países fazem parte, por exemplo, chefes como Massimo Bottura, Rene Redzepi, Elena Arzak, Ana Rós, Dominique Crenn, Alex Atala, Dan Barber, Daniel Humm, Virgilio Martinez, Yotam Ottolenghi e Amanda Cohen, ou Nicholas Gill, Robbie Swinnerton, Alexandra Michot ou Alexandra Forbes, entre os jornalistas (ou autores).De Portugal fazem parte a Ana Músico, o Paulo Barata, o João Wengorovius e eu, Miguel Pires.

 

Segundo informou ANdrea Petrini, os candidatos integraram as listas pela sua classificação matemática ainda que tenha havido alguma curadoria, por parte de Petrini e Joe Warwick, nos muitos casos em que houve empates. Já os vencedores de cada categoria foram definidos por pequenos grupos compostos por pelo menos dois membros dos júri. Cada um destes pares ficou responsável por uma categoria tendo visitado todos os restaurantes que faziam parte da shorlist  (no caso em que isso era aplicável). Já o vencedor de restaurante do ano foi eleito após reuniãos entre estes pequenos comités de jurados. 

 

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publicado às 10:49

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Não é fácil conseguir uma mesa neste espaço informal ali para os lados de Santa Apolónia, em Lisboa. Pode dar-se o caso de várias vezes se telefonar e ninguém atender, de não haver mesa disponível se aparecermos sem reserva, ou de ter de se esperar mais de uma hora por uma vaga. A dificuldade aguça o apetite e, caso não se queira esperar, pode-se sempre marcar mesa presencialmente para uma outra data. Foi o que fizemos e tudo correu bem, mas não sem um pequeno susto. Marcámos para as 20h - quando o restaurante reabre para os jantares - e quando chegámos uns minutos antes a fila prolongava-se pela rua acima. Se nos restaurantes mais finórios a reserva é quase sempre uma garantia, nos mais populares, sobretudo nos mais antigos, nem por isso. Mas aqui deu certo. Afinal, embora seja uma taberna, há organização e gente com calo para o ofício 

 

Joaquim Saraaga Leal não estava, mas este Engenheiro Mecânico que se direcionou para a cozinha - primeiro, como entusiasta, depois como estudante (fez o mestrado em ciências gastronómicas) e simultâneo como proprietário, mentor e cozinheiro do espaço - mostrou ter uma equipa que sabe receber e tomar conta do recado, mesmo quando o caos parece (e por vezes é) ingerível. Destaque para o brasileiro Pedro Monteiro, uma espécie de 3 em 1 de sorriso franco e acolhedor que sabe gerir bem a frustração de quem tem de esperar. Aliás, neste lugar todos fazem um pouco de tudo. Os cozinheiros confecionam e servem, uma vez que não há equipa de sala, e, quando não está o Joaquim, o Pedro, (que também é cozinheiro e cervejeiro), recebe, atende e, desconfio, em caso de aperto, também vai para o fogão. Segundo Joaquim Leal me contou, posteriormente, por email, o conceito do Sal Grosso passa por “eliminar a ponte entre a cozinha e o cliente”. Segundo ele, garante-se assim “que o feedback do cliente é interpretado em primeira mão de forma mais correta”, bem como a opção permite “uma explicação mais exacta e detalhada dos pratos, quando solicitada”.

 

E o que consta do menu?

 

Como é comum em muitos destes lugares, não existe menu em papel , estando as propostas escritas num quadro, bem à vista de todos. São essencialmente de cozinha de base portuguesa com um twist autoral, sendo umas mais substanciais e outras mais petisqueiras. Os pratos mudam consoante a época de determinados ingredientes e também por questões lógicas: no verão há mais saladas e no Inverno mais estufados. Ainda assim, no total são para cima de uma vintena de opções pelo que, se a intenção é comer um pouco de tudo, cuidado: eramos apenas dois e saímos a rebolar. Não que as doses sejam gigantes, mas porque tivemos mais olhos que barriga. Mas... como não ter?!  Como é possível ver passar uns pastéis de bacalhau de aspecto incrível, sem os provar? E o escabeche de perdiz, a raia alhada, o arroz de conchas, os fígados de pato, ou o rabo de boi? Venha tudo! 

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Como pressentimos, os pastéis de bacalhau estavam simplesmente divinais. Tão atraentes à vista como ao palato ou ao toque: saborosos - com proporção correcta entre batata e o fiel amigo - crocantes por fora, fofos e húmidos por dentro. O escabeche de codorniz pecou pelo avinagrado em demasia, todavia marchou bem (boa ideia, a de o acompanhar com torradas grossas azeitadas de bom pão de forma em vez de fritas). Estamos numa taberna de cozinha de base portuguesa, mas nota-se que esta malta passou por escolas de cozinha e recebeu outras influências. Por exemplo, a raia alhada deriva mais para a manteiga do que para o azeite e fica-lhe muito bem. Primeiro, porque a raia (eram dois pedaços da “asa”) ganha outra complexidade com a caramelização em manteiga na frigideira. Depois, porque a partir daí e dos sucos que o peixe larga, vinho branco e alho, cria-se um molho de querer acabar com todo o pão que houver na mesa e até nas redondezas. 

 

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Pastéis de bacalhau

 

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escabeche de codorniz

 

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raia alhada

 

No rabo de boi há igualmente uma intensidade de sabor que só é possível quando se faz um jus de carne, ou, como me foi dito, de uma forma mais rústica se aproveita o caldo e o molho de confecções anteriores. Assim, a carne fica bem apurada e ao ser cozinhada lentamente torna-se macia de se comer à colher. Para acompanhar, além da maçã assada que trouxe alguma acidez ao conjunto, aconselharam-nos as batatas fritas em palito. E fizeram muito bem porque foram das melhores que comi nos últimos tempos. Esqueçam as de dupla fritura à francesa (ou à Heston Blumenthal), estas são aquelas que se faziam em várias casas, antes da praga das congeladas terem invadido os nossos restaurantes do dia-a-dia. São as de palitos finos, bem fritas em óleo novo e à temperatura certa, mais viciantes do que um saco de amendoins. 

 

O arroz de conchas é outro dos pratos vencedores da lista do Sal Grosso: malandrinho, apurado no sabor, e bem composto, com ameijoa, lingueirão, berbigão e mexilhão. Vieram ainda, uma salada de favas descascadas com enchidos (cortesia da casa), algo desgarrados no sabor, e uns fígados de pato, que me pareceram pesados. Porém, aqui, admito que a ordem em que chegaram (no final, antes da sobremesa) e o estado de empanturramento já não me permitiu uma avaliação correcta.  Por fim, e porque dizem que todo o ser humano tem um segundo compartimento para os doces, ainda provámos o pudim de pão, que não estava tão molhado como gostaria, e um interessante pudim de ovos com um toque bem esgalhado de cerveja preta no molho (creio). 

 

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No sentido dos ponteiros do relógio: rabo de boi, batatas fritas, fígados de pato, favinhas com enchidos

 

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arroz de conchas

 

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pudim de pão e pudim de ovos com molho de cerveja preta

 

O Sal Grosso é um restaurante com um espírito de taberna com uma relação preço/qualidade óptima, pelo que não é de esperar que tudo seja perfeito, nomeadamente no serviço. Porém, há pormenores que podem ser melhorados, como o timing e a ordem dos pedidos. No nosso caso, os primeiros pratos chegaram bem, mas os seguintes muito em cima uns dos outros, o que lotou rapidamente a mesa e apressou o ritmo a que tivemos que comer.  Também a ordem de chegada não foi a mais correcta. Por exemplo, o arroz de conchas veio depois do rabo de boi e os fígados, que prefiro mais como uma entrada, foram servidos no final. 

 

No capítulo das bebidas, é de salientar a aposta nas cervejas artesanais (servidas à pressão) desenhadas e desenvolvidas por eles numa pequena fábrica em Setúbal. Esta aposta acaba por deixar os vinhos em segundo plano. Aliás, a proposta neste campo é mínima: apenas quatro brancos e um tinto. Porém, quem quiser trazer de fora, pode fazê-lo, pagando apenas uma taxa de rolha de 7.5€. Acompanhámos a refeição com o leve Soalheiro Allo entremeado com uma deliciosa witbier, uma cerveja de estilo belga de trigo com sementes de coentro e (neste caso) clementinas.

 

Creio que dá para perceber o sucesso deste Sal Grosso, que vive lotado desde que abriu, há cerca de 4 anos. Comida deliciosa (sem ser mais do mesmo), ambiente bem-disposto, simpatia e vontade de servir bem. Um pouco de caos? Faz parte do tempero. 

 

P.S. Uma nota final com uma boa notícia: a poucos metros deste local, na Rua dos Remédios 98, Joaquim Leal abriu recentemente o Salmoura, um outro espaço com características e oferta semelhantes. 

 

 

Preço médio por pessoa ao jantar: 25€ com bebidas. Por esta refeição, par duas pessoas,

 pagou-se 68€ 

 

Contactos: Calçada do Forte, 22, Lisboa (Santa Apolónia). Telefone: 21 5982212

 

Horário: segunda a domingo, 12.30/15.30h e 20h/23h. 

 

Classificação: Cozinha: 17; Sala:16; Vinhos:13

 

Nota: A Taberna Sal Grosso foi o vencedor do  Prémio Especial Bom Sucesso Mesa Diária, atribuido em Janeiro deste ano, no âmbito dos prémios do Mesa Marcada 2018.

 

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos 346, de Setembro 2018. 

 

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publicado às 13:00

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Nestes últimos anos temos visto abrir restaurantes a um ritmo vertiginoso em Lisboa, um fenómeno muito associado ao  boom do turismo na cidade. Este facto, aliado a outro boom, o do imobiliário, tem levado a uma subida considerável das rendas, fazendo com que seja cada vez mais difícil abrir um pequeno espaço independente - principalmente nas zonas mais disputadas - que aposte numa cozinha diferente e mais criativa. Sobretudo, se se estiver fora de um grupo, sem o apoio de um parceiro investidor, ou sem ser para apostar numa fórmula mainstream. Por isso, dou muito valor a alguns projectos que se têm mostrado resilientes (como o Boi-Cavalo, por exemplo) e outros, que neste contexto adverso e ultra competitivo têm tido a ousadia de arriscar.

 

Esta terça-feira, tinha combinado jantar fora com um amigo e tinha colocado como hipótese três lugares novos onde ainda não tinha ido e que me têm chamado à atenção, todos eles numa onda mais alternativa de cozinha de autor e acessíveis no preço (não confundir com pechincha). Eram eles: o Attla, um “farm-to-table” de cozinha sazonal, do chefe globetrotter André Fernandes, em Alcântara (abriu em Dezembro); o Arkhe, um vegetariano (talvez o primeiro verdadeiramente de cozinha de autor a existir em Lisboa) do chefe brasileiro João Ricardo Alves, em Santos; e, por último, o Izakaya Tokuri Pop Up, no Bairro Alto, aberto no mês passado, e residência temporária (ou não...) da dupla de chefes Vítor Adão (ex-Bistro 100 Maneiras) e Lucas Azevedo, que conheço muito bem dos tempos do Bonsai.

 

A escolha acabou por recair neste último e posso já adiantar que se os outros dois, que ficaram para outras núpcias, estiverem ao nível da refeição que tive no Tokuri, é caso para dizer que Lisboa está mesmo a atravessar um momento bom ao nível da restauração e não é só em termos de restaurantes de cozinha de topo.

 

Vítor Adão e Lucas Azevedo propõem neste espaço forrado a madeira, com um  longo e concorrido balcão, onde funcionou um japonês informal (que durou apenas 6 meses), cruzar Japão e Portugal à mesa, mas fazendo-o de uma forma mais rock n’roll do que a versão meticulosa e depurada (e luxuosa) de Pedro Almeida, no Midori, por exemplo. Porém, embora o nome izakaya remeta para uma “taberna” japonesa, temos aqui dois cozinheiros com escola e experiência. Adão, numa vertente mais portuguesa e o brasileiro Lucas na sua vertente japonesa.

 

Em termos de processo criativo, com uma ou outra excepção, não há pratos de um e pratos de outro, mas sim propostas pensadas a dois. Um propõe algo e o outro contribui para o todo e vice-versa. Aparentemente, pelo menos na maior parte dos pratos que experimentámos, o lado nipónico está mais presente, sendo a vertente lusa mais ao nível do detalhe, ou de um twist de sabor.

 

O importante é que resulta. Começando pelo espaço, que embora não seja o mais confortável do mundo, é agradável e tem uma boa energia, algo que se estende igualmente à equipa e que acaba por influenciar, estou em crer, o que é servido. E a verdade é que, com a excepção de uma sobremesa demasiado neutra para o meu paladar, quase tudo o que nos foi servido esteve a um nível alto, com os sabores bem definidos, bons ingredientes evidentes, conjugações a preceito, criatividade e ousadia sem destempero.

 

Este texto não pretende ser propriamente uma critica estruturada, mas sim mais uma crónica de uma noite bem passada. Ah! já agora, em termos de bebidas, o Izakaya Tokuri Pop Up tem sakes, algumas cervejas japonesas e uma carta de vinhos curta, com preços bons e bem escolhida, com referências mais clássicas e outras mais ousadas, havendo ainda a possibilidade de escolher uma série de vinhos extra carta a preço de loja (um dos parceiros é dono de uma loja de vinhos) sendo nesses casos aplicada uma taxa.  Os adeptos de vinhos naturais (ou nessa filosofia) não têm propriamente aqui um porto de abrigo  (por enquanto, espero) mas têm algumas escapatórias. Porém, a melhor de todas, é a possibilidade de levarem vinho mediante a cobrança de uma pequena taxa de rolha.

 

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Ementa do dia

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Sashimi de fataça (tainha do do mar)

 

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Lula, kimchi e trigo sarraceno

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Croquetes de edamame e cabeça de xara. Os croquetes de sabor mais neutro contrastavam bem com a fantástica terrina feita com cabeça de porco.

 

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O pato, funcho e raiz de lótus estava tão saboroso que nem deu para tirar foto, ao contrário desta couve com molho de miso e mais algo verde que já não me lembro. O que me recordo, sim, é de termos limpo o prato completamente, tal como aconteceu com os “nuggets” de frango que vieram depois.

 

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Mini sanduiche de arouquesa e massa de pimentão. Aqui só faltou um “kick” matador 

 

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A foto não é a melhor para ilustrar este  porco, amêijoas e espinafres, a lembrar vagamente uma carne à alentejana mas fica a descrição (boa ideia de colocar botarga ralada a evidenciar mais o lado “surf & turf” do prato).

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Uma gulodice chamada rabanada, mais à francesa (“pain perdu”), do que à portuguesa. O gelado de romãs dava uma acidez, embora não estou certo fosse preciso esse contraste.  

 

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O pudim do Bonsai é um dos meus maiores vícios e quando o Lucas me disse que este tinha a mesma base, mas com um twist, temi que tivesse metido a pata na poça. Gerou-se uma pequena tensão entre nós. Como ousava ele mexer naquilo que é perfeito (ao olhar de um agarrado, claro)? Porém, lá dei a mão à palmatória. O pudim estava maravilhoso, tinha mais caramelo do que o normal, um toque ligeiramente exótico de curcuma e um granizado de aipo, tipo “amo-te ou odeio-te”, que a meu ver resultou muito bem.

 

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Após três horas bem passadas saímos com aquela sensação de felicidade e satisfação de quem deu o seu tempo e dinheiro por bem gastos. A conta andou na casa dos 50€, por pessoa, sem vinho. No final só faltou mesmo os Beach Boys no som ambiente. “Good, good, good, good vibrations”.

 

Uma última referência para falar de uma parte que pode ser menos agradável. Gostaria de ver desaparecer o termo “pop up” do nome do restaurante, porém, pelo que me foi dito não está ainda completamente definido se vão permanecer no Bairro Alto. Todavia, pelos menos durante mais um mês, será possível visitá-los neste lugar. Depois disso, logo se verá.

 

Contactos: Travessa dos Fiéis de Deus, 28 (Bairro Alto). 21 342 6372. Ter-Dom 18.00-00.00.

 

 

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publicado às 16:01

E assim aconteceu mais uma vez...

por Miguel Pires, em 04.02.19

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Quando os convites para a cerimónia dos 10 anos dos prémios do Mesa Marcada foram enviados, umas duas semanas antes do evento, as confirmações começaram a cair de imediato. Nas vésperas de 21 de Janeiro, tínhamos mais de 350 convidados confirmados, um número já no limite da lotação que tínhamos previsto. No final, acabariam por ser cerca de 400 os presentes, mesmo tendo nós recusado uma série de pedidos.

 

 

 

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publicado às 22:51


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