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Nestes últimos anos temos visto abrir restaurantes a um ritmo vertiginoso em Lisboa, um fenómeno muito associado ao  boom do turismo na cidade. Este facto, aliado a outro boom, o do imobiliário, tem levado a uma subida considerável das rendas, fazendo com que seja cada vez mais difícil abrir um pequeno espaço independente - principalmente nas zonas mais disputadas - que aposte numa cozinha diferente e mais criativa. Sobretudo, se se estiver fora de um grupo, sem o apoio de um parceiro investidor, ou sem ser para apostar numa fórmula mainstream. Por isso, dou muito valor a alguns projectos que se têm mostrado resilientes (como o Boi-Cavalo, por exemplo) e outros, que neste contexto adverso e ultra competitivo têm tido a ousadia de arriscar.

 

Esta terça-feira, tinha combinado jantar fora com um amigo e tinha colocado como hipótese três lugares novos onde ainda não tinha ido e que me têm chamado à atenção, todos eles numa onda mais alternativa de cozinha de autor e acessíveis no preço (não confundir com pechincha). Eram eles: o Attla, um “farm-to-table” de cozinha sazonal, do chefe globetrotter André Fernandes, em Alcântara (abriu em Dezembro); o Arkhe, um vegetariano (talvez o primeiro verdadeiramente de cozinha de autor a existir em Lisboa) do chefe brasileiro João Ricardo Alves, em Santos; e, por último, o Izakaya Tokuri Pop Up, no Bairro Alto, aberto no mês passado, e residência temporária (ou não...) da dupla de chefes Vítor Adão (ex-Bistro 100 Maneiras) e Lucas Azevedo, que conheço muito bem dos tempos do Bonsai.

 

A escolha acabou por recair neste último e posso já adiantar que se os outros dois, que ficaram para outras núpcias, estiverem ao nível da refeição que tive no Tokuri, é caso para dizer que Lisboa está mesmo a atravessar um momento bom ao nível da restauração e não é só em termos de restaurantes de cozinha de topo.

 

Vítor Adão e Lucas Azevedo propõem neste espaço forrado a madeira, com um  longo e concorrido balcão, onde funcionou um japonês informal (que durou apenas 6 meses), cruzar Japão e Portugal à mesa, mas fazendo-o de uma forma mais rock n’roll do que a versão meticulosa e depurada (e luxuosa) de Pedro Almeida, no Midori, por exemplo. Porém, embora o nome izakaya remeta para uma “taberna” japonesa, temos aqui dois cozinheiros com escola e experiência. Adão, numa vertente mais portuguesa e o brasileiro Lucas na sua vertente japonesa.

 

Em termos de processo criativo, com uma ou outra excepção, não há pratos de um e pratos de outro, mas sim propostas pensadas a dois. Um propõe algo e o outro contribui para o todo e vice-versa. Aparentemente, pelo menos na maior parte dos pratos que experimentámos, o lado nipónico está mais presente, sendo a vertente lusa mais ao nível do detalhe, ou de um twist de sabor.

 

O importante é que resulta. Começando pelo espaço, que embora não seja o mais confortável do mundo, é agradável e tem uma boa energia, algo que se estende igualmente à equipa e que acaba por influenciar, estou em crer, o que é servido. E a verdade é que, com a excepção de uma sobremesa demasiado neutra para o meu paladar, quase tudo o que nos foi servido esteve a um nível alto, com os sabores bem definidos, bons ingredientes evidentes, conjugações a preceito, criatividade e ousadia sem destempero.

 

Este texto não pretende ser propriamente uma critica estruturada, mas sim mais uma crónica de uma noite bem passada. Ah! já agora, em termos de bebidas, o Izakaya Tokuri Pop Up tem sakes, algumas cervejas japonesas e uma carta de vinhos curta, com preços bons e bem escolhida, com referências mais clássicas e outras mais ousadas, havendo ainda a possibilidade de escolher uma série de vinhos extra carta a preço de loja (um dos parceiros é dono de uma loja de vinhos) sendo nesses casos aplicada uma taxa.  Os adeptos de vinhos naturais (ou nessa filosofia) não têm propriamente aqui um porto de abrigo  (por enquanto, espero) mas têm algumas escapatórias. Porém, a melhor de todas, é a possibilidade de levarem vinho mediante a cobrança de uma pequena taxa de rolha.

 

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Ementa do dia

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Sashimi de fataça (tainha do do mar)

 

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Lula, kimchi e trigo sarraceno

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Croquetes de edamame e cabeça de xara. Os croquetes de sabor mais neutro contrastavam bem com a fantástica terrina feita com cabeça de porco.

 

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O pato, funcho e raiz de lótus estava tão saboroso que nem deu para tirar foto, ao contrário desta couve com molho de miso e mais algo verde que já não me lembro. O que me recordo, sim, é de termos limpo o prato completamente, tal como aconteceu com os “nuggets” de frango que vieram depois.

 

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Mini sanduiche de arouquesa e massa de pimentão. Aqui só faltou um “kick” matador 

 

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A foto não é a melhor para ilustrar este  porco, amêijoas e espinafres, a lembrar vagamente uma carne à alentejana mas fica a descrição (boa ideia de colocar botarga ralada a evidenciar mais o lado “surf & turf” do prato).

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Uma gulodice chamada rabanada, mais à francesa (“pain perdu”), do que à portuguesa. O gelado de romãs dava uma acidez, embora não estou certo fosse preciso esse contraste.  

 

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O pudim do Bonsai é um dos meus maiores vícios e quando o Lucas me disse que este tinha a mesma base, mas com um twist, temi que tivesse metido a pata na poça. Gerou-se uma pequena tensão entre nós. Como ousava ele mexer naquilo que é perfeito (ao olhar de um agarrado, claro)? Porém, lá dei a mão à palmatória. O pudim estava maravilhoso, tinha mais caramelo do que o normal, um toque ligeiramente exótico de curcuma e um granizado de aipo, tipo “amo-te ou odeio-te”, que a meu ver resultou muito bem.

 

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Após três horas bem passadas saímos com aquela sensação de felicidade e satisfação de quem deu o seu tempo e dinheiro por bem gastos. A conta andou na casa dos 50€, por pessoa, sem vinho. No final só faltou mesmo os Beach Boys no som ambiente. “Good, good, good, good vibrations”.

 

Uma última referência para falar de uma parte que pode ser menos agradável. Gostaria de ver desaparecer o termo “pop up” do nome do restaurante, porém, pelo que me foi dito não está ainda completamente definido se vão permanecer no Bairro Alto. Todavia, pelos menos durante mais um mês, será possível visitá-los neste lugar. Depois disso, logo se verá.

 

Contactos: Travessa dos Fiéis de Deus, 28 (Bairro Alto). 21 342 6372. Ter-Dom 18.00-00.00.

 

 

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publicado às 16:01


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