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Restaurante Largo

por Miguel Pires, em 29.04.10

Ver, ser visto e comer bem

 


 Que não se vá ao engano. Não obstante ter um dos mais prestigiados Chefes portugueses e de se comer bem, o Largo não é um restaurante gastronómico, mas sim um lugar ‘trendy’ com boa comida. Confusos? Passo a explicar. Num restaurante gastronómico a cozinha é o prato principal e tudo o que está à sua volta deverá contribuir para a valorizar. Num restaurante ‘trendy’, ou de tendências, o espaço e o ambiente são tão ou mais importantes do que a comida e estes três vectores trabalham para o todo.

Este aviso é sobretudo para quem esperava que o regresso do Chefe Miguel Castro Silva às lides de um restaurante de topo (depois da sua saída atribulada do Bull&Bear, no Porto) fosse para um espaço gastronómico. No entanto as características da sua cozinha de base tradicional portuguesa, com influências de outras proveniências, apresentadas de forma cuidada mantêm-se neste espaço cosmopolita com a assinatura de outro Miguel, Câncio Martins, responsável pelo design de interiores de espaços como o Buddha bar, ou o Bar Fly, ambos em Paris.

Mal se entra no Largo apercebemo-nos que estamos num ambiente cosmopolita, sofisticado, mas informal. O espaço está bem dividido e parece menor do que na realidade é (mais de 100 lugares). A decoração arrojada não será certamente consensual. No entanto há um pormenor (neste caso, um ‘pormaior’) que é já uma marca deste sitio:os enormes aquários, embutidos na parede central, habitados por dezenas de medusas que ao movimentarem-se geram um efeito harmonioso.

As mesas, bem compostas, são espaçosas e asseguram uma distancia confortável entre comensais. Já as cadeiras são demasiado fundas, incómodas na zona lombar e pesadas, o que torna um suplício a movimentação (o facto de rodarem apenas atenua o esse desconforto).

O menu não sendo extenso tem muito de interessante para escolher. No couvert (3€), tostas (algumas, moles), broa de mistura, pão de cereais (banal, daquele que se encontra num vulgar supermercado), manteiga e, valha-nos, um boa pasta de tomate e azeitonas. Nas entradas, o creme de coentros (9€) veio cremoso e o sabor desta erva aromática, domado, o que acabou por contrastar bem com o sabor forte dos cubos de queijo de cabra. O trio de peixes (15€) era composto por um bem apaladado tártaro de salmão com pepino; fatias de robalo, como num ‘crudo’ à italiana, com flor de sal e azeite; e por atum braseado que deixou algo a desejar devido à sua textura demasiado mole. Nos pratos principais, tivemos Miguel Castro Silva no seu melhor. O bacalhau de cura portuguesa a 80º (21€) foi um prato notável: produto de óptima qualidade, bem trabalhado (ao pressionar o lombo as lascas de carne firme soltavam-se facilmente) e de sabor intenso a revelar boa cura. A ajudar à festa, umas migas de poejos e hortelã da ribeira muito bem feitas, com o sabor amentolado destas aromáticas a aportar frescura ao conjunto. Como se não bastasse, o prato seguinte, o carré de borrego (22.5€), ainda esteve melhor. Na versão apresentada, mais rústica, a peça praticamente não foi aparada, ao contrário do que fazem os franceses, e parece ter sido assada sem a habitual crosta de ervas. Ao separar as costeletas o rosado da carne denunciava o bom ponto de cocção. A acompanhar, legumes salteados onde, entre pimentos, cebola e courgete, se realçava o sabor do bolbo de funcho. E a valorizar o conjunto, um molho feito a partir de um fundo de carne e de uma redução de vinhos, tinto e Porto. De 1 a20:19,5 valores.

Com as sobremesas o entusiasmo desceu uns furos, proporcional ao ritmo e aos decibéis da música ambiente que iam aumentando. Não é que o pudim de mel, o requeijão batido e o doce de abóbora, ou a tarte de mascarpone e a geleia de frutos vermelhos, fossem maus, apenas se mostraram demasiado sóbrios para um palato adepto de doces mais intensos (que os havia).

Em relação aos vinhos a carta é demasiado curta para o restaurante em questão. No entanto os preços são razoáveis e há algumas opções a copo - embora aqui deva ser dada maior atenção à temperatura dos tintos (o que nos foi servido vinha uns bons graus acima do ideal). Bebeu-se um branco e um tinto, ambos CARM, lote Miguel Castro Silva, uma boa opção em termos de preço/qualidade (19.5€, a garrafa ; 5.5€, a copo).

Uma nota final para o serviço que foi afável, discreto e competente.

Não sei se foi da boa disposição que a refeição nos proporcionou, mas fomos ficando à conversa, afundados na cadeira, rodopiando discretamente ao som da música, enquanto o pé ia marcando o ritmo. Vantagens de um restaurante ‘trendy’.

 

creme de coentros com queijo de cabra e tomate assado


Trio de Peixes - Atum à Japonesa, Tártaro de Salmão e Robalo marinado

 

Bacalhau 80º de cura Portuguesa com migas de poejo e hortelã da ribeira

 

Carré de Borrego com legumes salteados 

 

Pudim de mel com requeijão batido e compota de abóbora


Tarte de Mascarpone com framboesa


Preço da refeição descrita com uma água e dois cafés:123€ (2 pessoas).

 

Contactos: Rua Serpa Pinto, Nº10, Chiado – Lisboa; Tel.: 21 347 72 25; www.largo.pt 

 

Reserve mesa através do site de reservas online, BestTables 

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 24 Abril 2010 (as fotos dos pratos são minhas, a da sala foi retirada do site do restaurante).

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publicado às 18:22


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