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Nas bocas de um mundo

por Miguel Pires, em 24.05.10

Restaurante Bocca

 

O sucesso ou insucesso de um restaurante pode ser medido de diversas formas. Ter um público relativamente fiel que enche a casa durante uma boa parte da semana, mesmo em períodos mais adversos, como os que agora vivemos, é sem dúvidas uma ddelas. O Bocca parece ser um desses casos. Trata-se de um restaurante com um posicionamento de ‘Top’  e preços a condizer. É um local sofisticado qb, descontraído, com um ambiente urbano, num espaço com boa dimensão. Em cima temos uma sala principal para não fumadores e outra, mais recuada, para fumadores. Em baixo, há cerca de uma ano passou a funcionar um ‘gastro bar’ onde são servidas, em pequenas porções, alguns dos pratos do restaurante, alem de tapas, sushi, sashimi e outros - dispondo ainda uma generosa carta de cocktails. Esta faceta cosmopolita revela-se também na carta do espaço principal embora aqui o assunto seja mais sério, assumindo a prática de uma ‘cozinha de autor’.

Na refeição que fizemos esta semana, a carta de Verão tinha acabado de entrar, pelo que fomos para menu de degustação de 5 pratos (52€) de forma a usufruirmos de uma experiencia mais completa (para além da usual escolha à carta existe ainda um menu de 4 pratos, 43€; e, ao almoço, o menu executivo, 27€).

Depois de um couvert e do amuse bouche, veio o primeiro prato: filete de cavala num escabeche com molho de tomate assado. É de realçar o destaque dado a este peixe tão injustamente desconsiderado. A cavala, um peixe gordo, de sabor assertivo presta-se muito a ser comida em escabeche e sua confecção suave pareceu-me a mais adequada para uma refeição acompanhada de vinho. De seguida, nas ‘vieiras braseadas e algas wakame’,  estas ultimas, ligeiramente picantes, trouxeram algo de original a um produto já demasiado banalizado. Apesar do descuido no sal, o conjunto apresentou-se harmonioso em termos de texturas e sabores. O terceiro prato foi um naco de pescada fresca numa canja de aves. Boa ligação entre mar e terra sendo mais uma vez de enaltecer a utilização de um produto tido erradamente como menos nobre. Antes da passagem ao prato seguinte tivemos aquilo a que chamo ‘divertimento do Chefe’ (e já são vários os que adoram fazer a brincadeira). Trata-se de dar a provar botões de Sichuan, (neste caso em pequenos pedaços misturados com algodão doce), que ao serem mastigados provocam um ligeiro choque na língua, tornando-a dormente e deixando na boca um travo acídulo, floral e prolongado. Apesar da descrição não existe nada de alucinogénico, apenas ficando a sensação que vamos permanecer com a boca assim o resto da refeição. No entanto quando o prato seguinte chegou o palato estava praticamente limpo (desconfio que o truque é utilizado para nos entreterem quando o serviço está mais demorado). E ainda bem, porque a vitela branca era de boa carne, a escolha vegetal acertada (courgete, cenoura baby, aipo bola e cogumelos namekos, pareceram-me) e em boa ligação com um molho de batata e trufa branca.

Como que a lembrar-nos que o Verão chegou, a sobremesa deste menu é uma sopa gelada de ananás com sorbet de coentros e crocante de coco. Fresca, leve – talvez demasiado leve para os mais gulosos – e equilibrada, com o crocante de coco a trazer o apontamento mais doce ao conjunto que apenas foi prejudicado pela consistência do sorbet, com demasiados cristais de gelo.

No que diz respeito a vinhos, o Bocca é um local a ter em conta: possui uma boa carta, serve-os à temperatura adequada, em copos correctos, e com preços razoáveis (em alguns vinhos mais do que noutros). Serviço diligente, de acordo com o conjunto.

Em termos gerais o Bocca é um bom restaurante e o Chefe Alexandre Silva pratica uma cozinha correcta, imaginativa fugindo, na maior parte das vezes, ao óbvio. No entanto, apesar de se constatar uma evolução, falta ainda alguma identidade ao seu trabalho para uma maior afirmação como autor e para uma melhor relação preço/qualidade.

 

 

 

 

filete de cavala num escabeche com molho de tomate assado


 

 

Vieiras braseadas sobre algas wakame ligeiramente picantes

 

 

 

Naco de pescada fresca cozinhada em sous-vide numa cama de legumes e uma canja de aves

 

 

algodão doce com botão de pimenta de Sichuan

 

 

 

Vitela branca assada com legumes e cogumelos salteados, molho de batata e trufa branca


 

 

 

 

Sopa gelada de ananás de São Miguel com sorbet de coentros e crocante de coco

 

 

Preço médio por refeição completa (entrada, prato e  sobremesa), com vinho:45€/50€,pax; Preço da refeição descrita (menu de degustação) com vinho (Barão de B, branco), água e café:70€

 

Contactos: Rua Rodrigo da Fonseca 87D – Lisboa. Telefone: 213808383 (www.bocca.pt)

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 22 Maio 2010

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