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Bag in Box

por Rui Falcão, em 19.07.10

Vivemos, durante décadas, a realidade palpável do vinho comercializado em garrafão, embarcados na cultura do vinho a granel de raiz tão latina, afagados pela solidez e grandeza dos pesados vasilhames de 5 litros, empenhados na compra dos grandes volumes de vinhos relativamente indiferenciados, resgatados do esquecimento nas idas rotineiras à terra ou à adega mais próxima. Durante anos habituámo-nos a acreditar que o único vinho “puro e sem químicos”, como ainda hoje muitos asseveram com convicção, provinha das pequenas explorações familiares, directamente do lavrador, espaço onde muitos se deslocavam em romaria semanal para atestar o garrafão. Com o tempo, acabámos por criar uma associação directa entre o garrafão e um passado sem glória, amarrando o garrafão a tempos de penúria e adversidade, alimentando uma rejeição quase involuntária ao grande volume.

Hoje, o garrafão tradicional, tão deselegante na nossa memória colectiva, não passa de uma recordação já longínqua, uma reminiscência perdida no tempo e nos costumes. Proscrito dos costumes urbanos contemporâneos, o seu préstimo está hoje, ditosamente, confinado a um mercado marginal, condenado a uma morte lenta e há muito profetizada. Como vasilhame, como forma de preservação do vinho, o garrafão sempre se apresentou como um modelo fracassado, incapaz de assegurar qualquer evolução positiva ao vinho, inapto para assegurar os serviços mínimos de conservação. Mas a compra de vinho em volumes consideráveis continua a caucionar os mesmos proveitos que o passado consagrou, nos custos, nos aspectos práticos de serviço, e, numa perspectiva mais recente e ecologicamente consciente, na redução da pegada ecológica. Foi precisamente para assegurar estes predicados que surgiu o formato bag-in-box, frequentemente identificado pelas siglas bib.

De uma simplicidade desconcertante, o bag-in-box, tal como o nome em inglês o faria pressupor, resume-se a um “saco” colocado dentro de uma caixa de cartão, encontrando-se o vinho “engarrafado” em bolsas de polietileno alimentar, por regra PET, revestidos por uma folha de alumínio, filme laminado ou transparente de poliéster flexível ou nylon, numa embalagem em tudo semelhante ao famoso sistema Tetra-Pak, tão usado na conservação e comercialização de leite e sumos. Bolsas de polietileno que permanecem invisíveis no interior de uma caixa de cartão de formato cúbico, com volumes padrão que variam entre os tradicionais 2, 3, 5, 6 e 10 litros de capacidade. Na embalagem, incorporado na bolsa onde o vinho se encontra aprisionado, encontra-se uma pequena e prática torneira de serviço que permite dosear com precisão o volume de vinho a ser servido.

As vantagens para o consumidor são mais que evidentes. Como o vinho é acondicionado em vácuo, com a embalagem a contrair-se à medida que o vinho vai sendo consumido, e porque a torneira de serviço dispõe de uma válvula de segurança que impossibilita a entrada de ar, o vinho mantém-se escorreito e fresco, arredado de qualquer prenúncio de oxidação, por nunca entrar directamente em contacto com o ar. São estas características técnicas que permitem que o vinho se mantenha em perfeito estado de conservação durante pouco mais de um mês depois de aberto, valor impressionante e indubitavelmente superior a qualquer outro formato em circulação. Para quem consome vinho ocasionalmente, o formato bib apresenta benefícios arrasadores, pelo alargar do período de vida útil que autoriza. Para a restauração, o formato apresenta-se perfeito para o serviço a copo, proporcionando ainda maior facilidade no transporte e arrumação, sem o perigo de quebras acidentais.

Não por acaso, nos países menos apegados ao vinho, ou que com ele exibem uma relação afectiva mais recente, nações como a Austrália e os países do norte da Europa, sobretudo na Escandinávia, o formato bib representa hoje um pouco mais de metade do total de vinho transaccionado. Nos países mediterrânicos, contudo, pela memória colectiva induzida pelo passado, a sua aceitação tem sido mais controversa e espinhosa. Arreigados a uma tradição que continua a querer associar volume com vinhos de qualidade inferior, portugueses e restantes povos mediterrânicos continuam a evidenciar uma resistência congénita a este tipo de formato.

Porém, e independentemente da realidade social vigente, a maioria dos produtores não se pode eximir a um profundo sentimento de responsabilidade pelo infortúnio comercial do bib. Porque, por ora, a pluralidade dos produtores, grandes e pequenos, continua a evitar acondicionar os seus vinhos de gama média neste formato, reservando o modelo exclusivamente para os mercados de exportação, preferindo restringir o formato, no mercado nacional, ao papel de escoador de vinhos indiferenciados. São portanto os próprios produtores a persistir em alimentar o vínculo emocional entre bib e garrafão, desbaratando um mercado que se poderia revelar de importância decisiva para a afirmação de muitos produtores. E assim acabámos por criar um problema vulgarizado pela gíria popular como uma “pescadinha de rabo na boca”. Não se aproveita o bib para os vinhos da gama média porque a imagem não é prestigiante… e perde-se um canal privilegiado porque não se investe na sua promoção!

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 26 de Junho de 2010

 

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publicado às 14:47


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