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Restaurante Pharmacia

por Miguel Pires, em 10.08.11
A Prescrição não convence

foto tirada daqui

Em 2009 Susana Felicidade e Tânia Martins criaram um fenómeno chamado Taberna Ideal (Rua da Esperança, 112, Santos, Lisboa), um espaço descontraído associado um serviço ultra informal e uma cozinha sem grandes complicações. Aqui misturam tradicional e popular com moderno e urbano. Os clientes revêem-se no lugar, as doses são simpáticas, a comida é saborosa e o resultado traduz-se em casa cheia. O sucesso foi tal que no ano passado abriram a Petiscaria Ideal, dois números abaixo, num formato ainda mais simples e mais informal com mesas corridas e sem marcações.
 
Já este ano voltaram a surpreender ao ganharem a concessão do espaço de restauração no majestoso edifício da Associação Nacional de Farmácias onde antes existiu, sem grande sucesso, o restaurante A Ver Navios. Remodelaram o espaço e decoraram-no de acordo com a temática do local. Mergulharam na memória das farmácias antigas, trouxeram mesas de laboratórios, cadeiras usadas e criaram um espaço simpático, original e de proveitosas dimensões. No exterior funciona uma agradável esplanada (que também é bar) onde servem petiscos à carta em regime  non stop. No interior há uma sala principal e ainda outras duas que podem albergar grupos (numa até 12 pessoas, noutra até 26). Aqui durante o dia e até ao jantar funciona como no exterior (à carta). À noite há um menu único surpresa com o prosaico nome, ‘Passa-me a Travessa’. Custa 28€/pessoa e é constituído por duas entradas, dois pratos e uma sobremesa. Se juntarmos bebidas a refeição poderá chegar facilmente aos 35/40€, o que já é um campeonato diferente de uma tasca cool.

Infelizmente o upgrade não corresponde ao que se recebe em troca, a ver  pela experiência tida num destes dias, ao jantar, no interior.
Começo pelo o espaço que é de facto fantástico mas onde não senti a mesma atmosfera de qualquer um dos dois de Santos. Depois há o serviço que, no caso, foi atabalhoado, distraído e demasiado informal, com “meus queridos” para cá, “meus queridos” para lá. Não é que me desagrade particularmente mas parece-me coloquial demais para um lugar que se calhar não é tão intimista quanto as proprietárias gostariam que fosse.
No entanto é na comida e na relação preço qualidade que a desilusão foi maior. O menu que nos apresentaram foi desequilibrado e pesado (sobretudo, tendo em conta que é Verão); as doses são para partilhar mas as quantidades não vieram bem definidas (ex: na caldeirada vinham duas vieiras para três pessoas); e, na maior parte dos pratos, a confecção deixou a desejar.
 
O jantar começou com um shot de melão com presunto num tubo de ensaio, diferente na apresentação, banal (e pouco frio) no conteúdo. Depois uma primeira entrada de cogumelos salteados, um prato com sabor mas de mão carregada no sal. Seguiram-se duas entradas de fritos. Primeiro uma patanisca de polvo, ligeiramente esturrada mas aceitável, com molho de iogurte e hortelã que lhe dava algum equilíbrio. Depois uma boa bola de alheira com puré de maçã. De seguida como pratos principais veio primeiro, uma caldeirada com pescada, cherne, vieiras e xerem e, depois, lombinhos de porco preto com migas de tomate. A caldeirada estava bem apaladada, embora fosse discutível a presença de vieiras. Já o xerem (papas de milho) que acompanhava vinha num estado aglutinado, pouco apelativo. Quanto aos lombinhos, de boa qualidade, uns estavam num bom ponto, outros passados demais (provavelmente por não terem o mesmo tamanho) e as migas, embora saborosas enjoavam à terceira garfada - por gordura em demasia, por virem depois de  uma sucessão de pesos pesados (fritos, caldeirada...). Por fim a sobremesa chegou já sem muito espaço para a acolher. Tratava-se de um conjunto de vários doces donde apenas retive como positivo um crumble de frutos vermelhos e, vagamente, uma mousse de chocolate com moscatel e raspas de laranja. 
Nos vinhos a carta é curta mas com boas opções de escolha. Os copos razoáveis, os preços aceitáveis e a temperatura de serviço foi correcta. Mas mais uma vez não foram cumpridas certas regras que a este nível de preços, um restaurante deve ter. A garrafa de Soalheiro branco (2010) com que acompanhámos parte da refeição já nos chegou aberta e, o tinto, a copo, um Dalva Reserva (2008), já servido.
Demasiado amadorismo e displicência para uma refeição que ficou na casa dos 35€/pessoa. Isto porque se esqueceram de facturar uma água e o café - não sei se por cortesia, se por descuido. Valha-nos o local e as pessoas que, apesar de tudo, são genuinamente simpáticas.
Esperamos que com o tempo o serviço afine e as coisas melhorem. No entanto, dentro do género, os espaços de Susana Felicidade e Tânia Martins, em Santos, são uma aposta mais interessante.
 
Contactos: 
Restaurante Pharmacia, Rua Marechal Saldanha, 1, Lisboa; Tel: 213462146

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 29de Julho de 2011

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publicado às 10:36


1 comentário

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De Miguel Pires a 10.08.2011 às 12:02

Gosto de espaços informais e aceito, até certo ponto, a informalidade. Desde que sinta que o adn do espaço é apropriado e os preços de acordo. É por isso que simpatizo com a Taberna Ideal (e com a Petiscaria Ideal ). E foi isso que não senti na Pharmacia .

Há um restaurante muito popular no Meco, o Domingos, onde cada um põe a sua mesa e vai-se servindo à medida que as doses vão saindo. No final diz o que comeu e paga. Não sou frequentador assíduo mas às vezes apetece-me um lugar assim.

Quanto ao Alfredo da Silva... bom aqui o meu lado mais 'gauche' fica feliz por mais pessoas poderem usufruir de um espaço (e de uma vista) que antes apenas era do privilégio de alguns Silvas ou ANF's .

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