De André a 29.05.2012 às 13:49
Eu gostei do programa. Foca-se naquele que é, para mim, o ingrediente mais nobre que Lisboa tem para oferecer: o marisco. Típico, típico de Lisboa - urbe de confluência de tantos portugueses - só se fosse o Bacalhau à Brás (contestado por Elvas e Badajoz), ou as casquinhas de batata (nem sei onde se possam comer). Sobre a atitude e opções editoriais que os responsáveis pelo programa fizeram, só tenho a dizer que me parecem acertadas. Trata-se de uma interpretação da experiência que visitantes estrangeiros tiveram, e não daquilo que gostaríamos que fosse aos olhos de outrem. Vendo bem as circunstâncias, não conheço nenhum documentário nacional que faça de Lisboa um retrato tão interessante em 40 minutos. Mas cá estamos, para dizer, "não está má essa sapateira...", que é como quem diz "coiso".
Sobre Lobo Antunes, acresce dizer que terá sido o próprio Bourdain a pedir o encontro. E Lobo Antunes diz duas coisas que são obesas mentiras (é descarado, o gajo!): que em Portugal não se fala do Estado Novo, como em Espanha não se fala da Guerra Civil. Ora, eu sou Português e vivi em Espanha alguns anos. Por terras lusas, é quase senha de aceitação obrigatória o dizer-se "fui preso pela PIDE" em grande parte dos círculos políticos. Falar do 25 de Abril, das mudanças vividas, as perseguições sofridas, etc., enche muita e constante bochecha. As guerras coloniais receberam, há pouco tempo, direitos de documentário em horário nobre na RTP. Em Espanha, a Guerra Civil é uma constante, tanto no debate político (ver a polémica lei da memória histórica), como na cultura quotidiana. São milhares os livros publicados em Espanha sobre a Guerra Civil, muitos ainda hoje; as reminiscências no palreio popular são constantes! Mas Lobo Antunes, certamente confiado que a sua opinião dispensará o interlocutor de consulta adicional, rosna que, cá ou lá, nem um pio sobre tais assuntos. Ele gostava que assim fosse , para surgir ainda mais heróico no contexto monotemático da sua obra. É um tipo muito vaidoso. Deplorável, vamos lá...