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Restaurantes que não me querem como cliente

por Duarte Calvão, em 19.07.12

Há uns tempos, num dia de semana, a minha mulher e eu decidimos, por volta das 21.15h, que nos apetecia jantar fora e saímos sem destino definido nem mesa marcada. Ao passar em São Pedro de Alcântara, achámos que seria interessante tentar o The Decadente. Já tinha tentado ir lá uma vez com uns amigos, mas ao tentar marcar de véspera, disseram-me ao telefone que já estavam cheios. Como foram bem educados e agradáveis, fiquei com boa impressão e vontade de lá ir.
Logo à entrada, havia uma menina simpática, que nos acolheu muito bem e nos convidou a passar à sala de jantar. A parte ao ar livre estava cheia, mas na sala havia muitas mesas vazias, talvez metade. Lá, uma outra menina quis saber se tínhamos reserva. Disse que não e foi aí que as coisas começaram a correr mal. A tal menina tinha que falar com o responsável por aquelas mesas vazias (cujo paradeiro ela desconhecia no momento) para ter autorização, não sabia se estaria tudo marcado, apesar de já serem 21.30h e não haver nada a assinalar reservas. E lá ia olhando para o livro das marcações diante de si, sem tirar nenhuma conclusão...Claro que disse que não era preciso se incomodar mais e despedi-me perante tanta falta de profissionalismo. Não pretendo voltar.
Seguimos na direcção do Chiado e lembrei-me de experimentar o Babete, outra abertura recente, especializado na chamada “comida de boteco” brasileira, de que tanto gosto e de que muitas vezes tenho saudades. Desta vez, o restaurante estava mesmo cheio, com uma mesa de umas dez pessoas que estavam a chegar, mas uma tímida e simpática empregada brasileira conseguiu descobrir-nos uma solitária mesa para dois, ainda que bastante próxima das mesas vizinhas, e ficou nitidamente satisfeita quando viu que aceitávamos a sua sugestão.
Quando já estávamos a ir para a mesa, surgiu uma jovem portuguesa, com ares de gerente, que informou a colega brasileira que iria precisar das cadeiras da nossa mesa para a tal mesa das dez pessoas que estavam a chegar. Fiquei estupefacto (e creio que a empregada brasileira também…) porque havia várias cadeiras vagas em mesas de quatro pessoas, que estavam ocupadas apenas por casais que nelas penduravam casacos e pousavam carteiras e outros acessórios.
Não estava propriamente com grande paciência para discussões com alguém tão pouco profissional e inteligente, mas ainda chamei a atenção para as tais cadeiras vagas nas mesas para quatro. Porém, a gerente não desarmou, dizendo que “as pessoas já tinham posto as coisas ali….” Obviamente que me fui embora com a promessa de não voltar. Acabámos, já passava das 22h, a jantar no Aqui há Peixe, onde, apesar do adiantado da hora, fui logo muito bem acolhido e atendido.
Nada disto que se passou é grave, todos os dias acontecem casos muito piores em restaurantes com mais pretensões do que estes dois, mas porque diabo é que hei-de ir a lugares em que se estão nas tintas para os clientes que os procuram, como o The Decadente, ou em que preferem ter mesas com casacos pendurados em vez de clientes sentados, como o Babete? Felizmente, em Lisboa, opções não faltam, sem termos que aturar meninas tontas (ou meninos tontos), em vez de sermos recebidos por bons profissionais que nos querem como clientes.

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publicado às 21:00


33 comentários

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De joão - flavors and senses a 26.07.2012 às 00:44

Corroboro com o Duarte em tudo o que diz. Não conhecendo os restaurantes em questão, mas conhecendo bem o fenómeno que também se faz sentir pelo Porto. Muitos empresários devem sonhar em ser uma versão portuguesa do David Chang , mal estudada, mal formada e mal localizada. Mas penso que a longo prazo este tipo de acontecimento acaba por beneficiar os bons restaurantes, que bem precisam nesta altura do campeonato.

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De teixeira a 30.07.2012 às 13:32

Duarte. O Teixeira é de um brasileiro que vive entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Tenho o prazer de morar lá e cá. E de gostar de comer bem. Mais aqui do que lá! O Rio de Janeiro, gastronomicamente falando, é regido pela Rede Globo. Ser visto ou ver é o que rege a escolha. Enquanto aqui, no Tavares Rico, mesas eram atribuídas a Eça ou a Pessoa, no Leblon , mesas são de Roberto Carlos, Sangalo , e outros do ramo. Fujo do Antiquarius , o mais famoso restaurante "português" brasileiro. Sou do tempo, aqui, da época da não abertura gastronômica. Da caturrice - certa ou errada - de que em Portugal se praticava a melhor gastronomia do mundo! Com a repetição, minha e da minha mulher" a casas tradicionais fomos nos abrindo aos "modernos". Quase sempre com um "não volto mais". Exemplifico: fomos duas vezes ao Cantinho do Avillez , uma ótima e outra medíocre. Uma ao Alma e ... Fomos ao bistrô 100 Maneiras e o assento de minha poltrona estava roto e a comida perversa. Wraps , ceviches , pizzas não estão no campo das prioridades. Pensava em ir a este The Decadente". Primeiro impliquei com o nome! Agora com tua crítica é que não vou mais. Como Diógenes, procuro não homens honestos (?), porém novas possibilidades para este verão soalheiro. Tenho a certeza de que em Portugal se come o melhor peixe grelhado no mundo. E maravilhosa carne de porco. É desses ingredientes que vivo à cata. Se puder ajudar? Abraços.
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De Duarte Calvão a 03.08.2012 às 15:02

Em Portugal, caro Teixeira. temos de facto muito bom peixe grelhado, mas também muitas outras formas de o preparar bem. Não fique com uma ideia errada da cozinha moderna, também em Portugal, só porque alguns a praticam mal . Sugiro-lhe que tente alguns dos restaurantes sobre os quais vamos escrevendo aqui no Mesa Marcada, muitos dos quais constam da nossa lista anual dos 10 preferidos. Quanto aos tradicionais, creio que não tera dificuldades, porque há muitos e a bons preços. Abraço
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De Artur Hermenegildo a 17.08.2012 às 10:39

Não me parece que seja justo passar do autismo do "em Portugal temos a melhor comida do mundo" para a arrogância do "é tudo uma porcaria e só interessa o peixe grelhado e a carne de porco".

Há, felizmente, alguma escolha de qualidade. Talvez não muita, mas alguma certamente. É só ter a vontade e paciência necessária para ir descobrindo.

Já agora, em relação ao peixe grelhado - talvez tenhamos o melhor peixe, mas em geral grelha-se mal, com pontos de confecção para lá do que seria desejável. Até na Adraga me aconteceu isso, da última vez que lá fui. Isto já para não falar da ridícula moda do "escalado". Reconheço no entanto que a culpa é em geral dos consumidores, pouco tolerantes em relação a peixe "mal passado".
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De Joana a 31.07.2012 às 03:26

Gostei deste post, e de ler os comentarios.
De facto acho que existem alguns exemplos de mau profissionalismo no atendimento em portugal, e e uma pena.
Eu propria tenho alguns na minha lista a nao voltar.
Acho que nem estamos a falar em exigir um servico 5 estrelas (ou de luxo), mas sim de um servico de bom senso.
E muito chato ir a um restaurante, pagar por isso, e ter de nos adaptarnos a personalidade e grau de bom senso de quem nos esta a atender.

Joana
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De André a 31.07.2012 às 10:31

É uma experiência que se repete e propaga por toda a oferta de restauração nacional. Ao contrário do propalado pelo nacionalismo bacoco, sou da opinião que em Portugal se serve mal. Também acho que a esmagadora maioria dos restaurantes portugueses serve produtos de qualidade imperdoável, sobretudo considerada a facilidade de acesso a excelente matéria-prima. Há excesso de "snack-bares" (conceito exclusivo deste país) e consequentes hordas que se meteram no assunto sem saberem ponta do mesmo. Neste sector, tudo foi permitido em Portugal, abrindo portas à devassa pelo nosso proverbial amadorismo e gula pelo lucro fácil. Daí, às pastelarias com pratos do dia, foi um salto de musaranho. E um requiem pelas padarias que vendem pão. Só.

Bem, tergiverso. No fim-de-semana que passou, tive uma experiência-tipo de rejeição à chegada. Num restaurante semi-vazio, esperava de pé na ombreira da porta, com dois empregados olhando-nos - a mim e à consorte - enquanto serviam uma mesa a 2m de distância. Acabada de servir a mesa, debandaram ambos para o Hades da cozinha. Até hoje por lá devem penar. Abalei, sem empacho, nem pesos na consciência, para não mais tornar. Esta prática é bastante comum; o mais das vezes os profissionais alegam não terem visto as pessoas de pé à porta, ainda que tenham estado tão perto que podiam cheirar o perfume aos clientes, sem barreiras físicas entre ambos e tendo estabelecido contacto visual. Tenho para mim, que esta é uma prática fatal, condicionando toda a experiência póstuma, ao ponto de poder afastar de forma definitiva parte da clientela e predispor a restante a um excesso de zelo na apreciação do serviço. Swift diria, no seu impecável cinismo, que o ideal seria um empregado conduzir-se de forma a não ser perceptível o seu desagrado em servir. Pelo contrário, em Portugal somos constantemente lembrados, com pouca subtileza, da maçada imposta pela condição de cliente. Prefiro frequentar quem não me exija contínuos actos de contrição, para mais pagos.
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De Marlene Vieira a 02.08.2012 às 19:54

´
Olá Duarte,
só para lhe dizer que da próxima vez que lhe apetecer jantar sem marcar
pode sempre aparecer no Avenue .

Cumprimentos

Marlene Vieira
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De Duarte Calvão a 03.08.2012 às 14:56

Pois é, Marlene, bem lembrado. Tenho que ir ao Avenue, mas são tantos restaurantes novos que às vezes esqueço-me. Mas fica prometida uma visita.
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De Michele Marques a 16.08.2012 às 17:56

Eu, infelizmente, ou felizmente, não conheço nenhum dos restaurantes/tascas mencionados, mas lendo este post, lembrei me de uma situação, que nada tem a ver com a restauração, mas sim com a arte de bem receber.. Vivo em Estremoz, e certa vez, recebi uns amigos e almoçamos aqui num sítio típico, a seguir fomos até ao castelo, para que eles pudessem desfrutar da magnifica vista que se tem lá de cima, para minha surpresa, a igreja estava aberta, não hesitamos e entramos, assim como outros turistas que ali se encontraram. E não é que lá estava uma senhora muito da carrancuda e mal educada, que "tomava conta" da igreja, e estava nada mais nada menos, que ao telefone (leia-se: dentro da igreja) ao mesmo tempo que dá um enorme grito com uma arrogância sem tamanho: "tenham respeito, vocês não estão a ver que não se pode passar para este lado, pois o chão está a ser lavado"...
Minha reação foi sair da igreja, pois se lá ficasse teria que lhe explicar que primeiro quem estava a faltar com o respeito era ela, e segundo, que nada dava a entender que o chão estava a ser limpo..
Bem, saí com um enorme nó na garganta com vontade de a mandar passear.. pois uma pessoa destas não pode estar num ponto turístico, pois esta senhora (como estas duas que mencionou no seu post) estragaram a "experiência" de uma dia/jantar bem passado.. E assim vai se dando cabo do turismo em Portugal...
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De coisasdaquiedali a 29.08.2012 às 17:13

Acho que existe aqui uma grande falta de compreensão...
Concordo que se deve valorizar o Património Culinário nacional (Gastronomia é outra coisa, envolve mais coisas, como diz o Sr. Calvão uma critica gastronómica tem de levar em conta vários aspectos, mas estes aspectos são muito subjectivos pois a noção de Gastronomia "é uma parte importante da cultura, implica apreciar comida e bom vinho, dois dos grandes prazeres da vida que quando apoiados num bom serviço e numa excelente companhia, ajudam a tornar a refeição num momento único e memorável"(Ckraknell e Nobis), existem outras várias definições umas mais românticas que outras mas no fundo todas mostram que a experiência gastronómica é muito subjectiva, parte muito de quem a vivência e como a vivência, sendo que o acolhimento e o serviço partes sempre importantes, claro). Ora a confusão para mim reside exactamente neste ponto, restaurantes como o The Decadente não se pretendem afirmar como grandes ícones gastronómicos nacionais, querem sim, e isto na minha mais humilde opinião, facturar. Por isso acho que não se pode esperar uma experiência em que o ponto alto seja a comida em si, mas não se pode dizer que não se faça um bom trabalho, porque se come bem e barato (ou não assim tão caro). O que o The Decadente faz e bem é vender o seu produto, a experiência aqui é outra, é o espaço é o ambiente são as pessoas etc. Agora o que resta saber é onde quero ir, o que gosto mais, como quero estar.
Acabo este comentário dizendo que o modelo de negócio é fantástico, é inovador e principalmente funciona e muito bem e por isso somos obrigados a dar os parabéns.
Cumprimentos.
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De Artur Hermenegildo a 30.08.2012 às 17:06

Eh pá! E eu que pensava que num estabelecimento comercial que se apresenta ao mercado como "restaurante" a comida, as bebidas e o serviço deviam ser sempre os factores principais de qualidade da oferta. Afinal estava enganado! Estamos sempre a aprender...
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De coisasdaquiedali a 30.08.2012 às 18:31

Como é óbvio claro que não é só isso... Por alguma razão este restaurante está sempre cheio (The Decadente)... Um exemplo perfeito, jantares de malta estudante, acha que se importam com o serviço e com a comida? Importam-se muito mais com o preço ou se o restaurante tem bebidas à discrição ou até se fazem marcações para grupos. E este tipo de restaurantes faz negócio e tem clientes, o mesmo se passa com os outros, ir a um restaurante NÃO É SÓ para comer, nem para não ter o trabalho de lavar os pratos lá por casa é muito mais, é um conjunto muito maior de experiências. Outra coisa a noção de qualidade é extremamente subjectiva, o que para uns é essencial para outros pode não ser assim tão importante ou pelo menos tolerável.
Fico extremamente lisonjeado por ter ensinado alguma coisa.
Cumprimentos
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De André Miguel a 30.08.2012 às 21:17

Infelizmente acontece até nos melhores.
No passado mês de Julho em Évora (cidade que se gaba de ser Património Mundial e importante pólo turístico) entrei na Tasquinha D' Oliveira às 22.20h e fui literalmente mandado às favas: "já estamos fechados". Na sala apenas um casal a tomar café. Repito: em Julho!
Também em Évora, num mês de Agosto aqui há um par de anos, marquei mesa no Fialho para as 13h. Por força de um compromisso anterior vi que me iria atrasar uns 15 min, pelo que telefonei antes da hora marcada a alertar, cheguei exactamente às 13.15h, resultado: já não tinha mesa e sou recebido com toda a antipatia possível mesmo avisando e sendo pontual de acordo com o alerta.
Há locais no país onde, incrivelmente, servir um prato, mesmo cobrando por ele, parece favor.

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