A cozinha rústica contemporânea de Marlene Vieira
(Foto: Best Guide)
Quem passa pelo nº129 da Avenida da Liberdade, em Lisboa, não tem ideia de como é agradável a vista do primeiro andar desse edifício que, aos mais desatentos, se confunde com mais um prédio de escritórios como tantos outros da principal artéria da cidade. Aqui funciona o Avenue, o restaurante de fine dining inaugurado discretamente em Maio de 2012 e que ainda hoje, passado pouco mais de um ano, se mantém à margem dos grandes holofotes. À frente da cozinha está Marlene Vieira, que antes, como chefe residente do Manifesto, fora um garante e uma executante segura das criações de Luís Baena.
A jovem chefe de 32 anos, nascida na Maia, mas em Lisboa há 6 anos, já tinha estado à frente do restaurante do Hotel Westin Campo Real, em Torres Vedras, mas nunca tive a oportunidade de experimentar os seus pratos. Por isso, quando em Abril último assisti à sua prestação no Peixe em Lisboa e a vi, com segurança e determinação, apresentar uma cozinha com raízes e personalidade fiquei curioso e resolvi visitar o seu restaurante com o propósito de escrever esta critica.
Sem marcação dirigi-me ao Avenue para jantar, num dia de semana. A casa estava meio cheia e as mesas junto às janelas ocupadas. Percebia-se porquê. De fora não aparenta mas, de facto, a vista para a Avenida da Liberdade é muito aprazível. Na segunda fila, onde me convidaram a sentar, ainda se vislumbra o panorama e, em volta, a configuração e a decoração discreta, mas requintada, transmite um ambiente harmonioso. Ao todo são 70 lugares já incluindo uma sala mais recatada que permite albergar um grupo pequeno.

Couvert que inclui peixinhos da horta com maionese de coentros
A carta de comidas está dividida nas 4 partes habituais, que aqui ganham nomes sugestivos. Em “À descoberta” (entradas) temos 6 propostas, que vão do crumble de farinheira com ovo escalfado, à cavala de escabeche, dos pezinhos de porco, ao lavagante, passando pelo inevitável bacalhau. Depois, nos pratos de carne, ou melhor, “do campo”, temos 5 pratos (com leitão, borrego, vaca, alheira e pato como actores principais) e de peixes (“heróis do mar”), mais 6: do atum dos Açores ao bacalhau e broa, dos “carabineiros alourados” ao polvo à lagareiro, da “nossa versão da cataplana” ao lombo de cherne corado com “guisadinho de choco”. Para finalizar há sobremesas (5) com ovos em barda, ou não fosse o capítulo dar pelo nome, “dos nossos conventos”. Os preços andam entre os 4€ e os 9,5€ nas entradas (15€ para quem não resistir ao presunto Joselito de 55 meses de cura); entre 14€ e 21€ nos pratos principais (29€ para os carabineiros); e entre os 5€ e os 7€ nas sobremesas (15€ para o prato de queijos nacionais). Para quem quiser conhecer (como eu quis) um pouco de cada há um menu de degustação de 4 pratos por 36€.

Terrina de polvo e croquete de amêijoa
Na verdade são 5, as propostas do menu, dado que a gulodice de uns peixinhos da horta, de polme e fritura exemplares, que se mergulham numa boa ideia chamada “maionese de coentrada”, merece ser considerada como tal, ainda para mais as tostas, o bolo do caco e a manteiga estão acima da média do que abunda por aí em certos restaurantes finos. Há ainda o habitual entretém de boca. Nesse dia era uma interessante terrina de polvo e croquete de amêijoa, ainda que o recheio estivesse mais para rissol do que para croquete e mais para o sabor a bechamel do que ao bivalve. De entrada, de novo uma gulodice salgada: crumble de farinheira com um ovo escalfado na perfeição. Marlene acrescenta-lhe umas folhas verdes e puxa acertadamente do vinagre para transmitir alguma frescura e não deixar que se faça sentir tanto a gordura do enchido. É mais comfort food do que para cozinha de autor, mas não há como não gostar. O prato de peixe foi espadarte rosa com puré e chips de batata doce. No Avenue este tipo de espadarte - mais saboroso e menos comum do que o normal – leva uma ligeira cura, depois é braseado (trata-se da parte do lombo) e servido em fatias com o interior ligeiramente cru (ou curado, neste caso). A acompanhar vem um puré de batata doce com carácter. No entanto, ainda que haja uma cebola acídula no conjunto, a doçura do tubérculo impõe-se em demasia ao sabor mais delicado do peixe.

Crumble de farinheira com um ovo escalfado

Espadarte rosa com puré e chips de batata doce

Depois foi a vez do prato de carne: leitão assado, puré de maçã reineta e caril, molho de cabidela e chips de tubérculos (na foto de cima). Este prato esteve próximo do sublime, quer nos sabores - que sobressaem por sobreposição e por contraste -, quer nas texturas. Na verdade a pele estaladiça ofereceu mais resistência do que devia, mas o interior, senhores, estava de bradar aos céus, tal a qualidade do bicho e a mão certa de quem o temperou. Para rematar, no capítulo doceiro, veio um toucinho do céu perfeito, com tudo o que o seu adn contém: muitos ovos e açúcar. Marlene é fiel à tradição mas compensa o excesso acompanhando-o com um fresco sorbet de mangericão e frutas doce-ácidas, como o ananás e o kumquat. No entanto um toque a mais de doçura no sorbet retirou-lhe algum desse efeito de corte.

Toucinho do céu, sorbet de mangericão e frutas doce-ácidas
Esta refeição foi acompanhada com vinho a copo de uma carta, apresentada em iPad, que conta com cerca de 300 referências. Com as entradas e o leitão bebeu-se um belíssimo e adequado branco da região de Lisboa, o Quinta Pinto Viognier e Chardonnay de 2007 (5.5€/copo) de notas meladas a revelar uma certa evolução, mas ainda com uma acidez invejável. Já com o leitão acolheu-se a sugestão de um Quinta do Serrado, Touriga Nacional 2008 (7€/copo), um Dão tinto com um aroma de fruta compotada e couro, taninos domados, mas com uma certa frescura na boca, que surpreendeu. Apetece dizer: afortunados aqueles que esperam alguns anos para servir e beber estes vinhos, que ainda para mais não doem na carteira.
Para finalizar esta apreciação refira-se que o serviço de sala, sem ser extraordinário, esteve em consonância com o nível do restaurante. Quem nos atendeu fê-lo de forma atenta, profissional e discreta.
O Avenue é, sem dúvidas, um restaurante a ter em conta para a quem quer fazer uma refeição num ambiente requintado e confortável, com uma boa proposta gastronómica (e aqui incluo os vinhos) e preços razoáveis. Aqui, Marlene Vieira apresenta uma cozinha de autor, bem elaborada, rústica de raiz, mas com um toque contemporâneo. Ainda jovem,Marlene Vieira é um dos valores que vale a pena acompanhar para ver como vai evoluir o seu trabalho.
Cozinha: 17 ; Sala: 17; vinhos: 17
Preço médio, refeição completa: 35/40€ (entrada, prato principal, sobremesa e bebidas). Pelo jantar descrito pagou-se 50€, por pessoa.
Contactos: Avenida da Liberdade nº129 B, Lisboa; Tel:21 343 21 15 ; Horário: 2F a 6f: 12.30h-15.30h ; Sab: 19.30h-23.00
Texto publicado originalmente na revista Wine nº81 de Setembro 2013