Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Como fui enganado pel' A Padaria Portuguesa...

por Miguel Pires, em 10.03.18

conjunto.jpg

 

Lembro-me, em finais 2010, quando fui à primeira loja d’ A Padaria Portuguesa, acabada de abrir, na Av. João XXI, em Lisboa. Entrei com expectativa e sai de lá pouco tempo depois, algo desiludido com o pão e outros produtos. Afinal, ficavam aquém da boa impressão deixada pela imagem retro com um twist contemporâneo agradável dos espaços. Porém, o panorama na cidade, neste campo, não era fantástico e tinha esperança que a qualidade pudesse melhorar, pelo que acabei por incluir a loja, bem como a seguinte, que abriu em Campo de Ourique, na primeira edição do meu guia “Lisboa à Mesa”.

 

Fui acompanhando o crescimento da rede nos anos seguintes, mas o meu desejo de ter uma espécie de A Vida Portuguesa do pão, com produtos de base tradicional de qualidade não tinha correspondência com a realidade, que mais se assemelhava a uma marca aprendiz de Starbucks “tuga” focada no preço baixo e num produto entre o medíocre e o sofrível. 

 

Aqui há umas semanas, recebi uma caixa de pães dentro de umas sacolas de pano com um simpático cartão da Vera Abecassis, da agência O Apartamento (com quem trabalhámos este ano na nossa cerimónia dos Preferidos do Mesa Marcada), que mencionava tratar-se de um produto de um cliente novo deles, cuja identidade revelaria apenas mais tarde. Os pães vinham em sacolas, cada uma com a sua etiqueta: “Mistura – prevalência da farinha de Moleiro de trigo T55 enriquecida com centeio T85”; “100% Trigo”; “Broa de Milho”; “Centeio” e “Espelta com sementes”.  Era final da manhã, a fome apertava e eles mornos, estaladiços e com um aroma irresistível, pelo que não demorei muito tempo a desembainhar a faca, puxar da manteiga e fazer um “test-drive”. Gostei sobretudo do de centeio, do de trigo e do de mistura, com estes dois a mostrarem características que aprecio: bem cozidos, com uma boa crosta caramelizada por fora e miolo um pouco húmido e de sabor ligeiramente ácido.

 

Entretanto, no Instagram, verifiquei que outras pessoas do meio, que também receberam a encomenda, começavam a publicar fotos e especulava-se quem seria o novo padeiro/nova padaria da cidade. Alguém dizia que poderia ser o Mário Rolando e a nova Padaria da Esquina (em parceria com o Vítor Sobral), cuja a abertura já há algum tempo se anuncia), ou que talvez fosse um projecto de algum novo padeiro, como, por exemplo, o Paulo Sebastião (a.k.a Takemybreadaway e blogue Zine do Pão), que curiosamente tinha trabalhado o ano passado na Padaria Portuguesa. 

 

Eu também fui na conversa, criei um stories e um post/foto nesta mesma rede social a elogiar a mercadoria e ainda lancei o barro à parede sugerindo que o misterioso padeiro poderia ser o Mário Rolando, ainda que o pão que tinha à minha frente não mostrasse o seu “adn” português. “E se os gajos da Padaria Portuguesa tivessem resolvido surfar a onda do pão artesanal e das fermentações prolongadas?”, cheguei a especular em off com colegas de profissão. 

  

 

Passada uma semana, chega um email da Vera com um sugestivo título:  “Estás preparado? Aqui vai a grande novidade da cidade...”. Entre um blah blah e o convite lá vinha a revelação: 

 

“Desafiar o paladar, a imaginação sensorial, o gosto e a evolução dos sabores. Estas são algumas das premissas do novo projecto da A Padaria Portuguesa. Em 2018 nasce a loja A Padaria Portuguesa LAB, um laboratório cosmopolita que vive das ideias e da experiência que estão na base da produção de padaria, pastelaria e live cooking”.

 

E não é que era mesmo? 

 

Respondi-lhe de imediato: “Tinha colocado essa hipótese. Caraças e é mesmo. Afinal, é tudo uma vontade de querer fazer bem as coisas. Pena que continuarão a vender um produto fajuto em 99% dos estabelecimentos deles...  :/. Mas este é bom. Parabéns pela acção. Teria gostado na mesma se tivessem revelado a origem, mas provavelmente não teria escrito que o pão era "bom como o caraças". Será que ainda posso apagar o "como o caraças"? :)). Oops, alguém apagou esse post do meu Insta... Devo ter sido denunciado :))))”. 

 

Obviamente que não apaguei o post, mas confesso ter ficado ligeiramente irritado por não me ter resguardado publicamente na apreciação – um sentimento algo mesquinho e preconceituoso, é verdade, mas... próprio da condição humana :). 

 

Não respondi logo se aceitava o convite para conhecer o lugar mas lá acabei por dizer que sim e no dia e hora combinada estava na Avenida da Republica, nº 39 (Lisboa). Quis o acaso que me sentasse ao lado de Nuno Carvalho, sócio gerente e figura que tem dado a cara em algumas polémicas que envolveram a marca. Falámos abertamente de tudo e expressei a opinião que tinha deles e que refiro neste post. No final comprovei duas características do Nuno que já me tinham falado: a simpatia e o poder de encaixe. Defende a sua dama e a sua perspectiva mas aceita bem a critica. 

 

Também nesse dia fiquei a conhecer Paulo Cardoso, o chefe de pastelaria que se tornou padeiro e que está na Padaria Portuguesa desde o inicio. Cardoso estava orgulhoso com os seus novos pães (e tem, de facto, razão para isso) e tem noção do desafio que vai ter quando começar a reproduzi-los em maior escala dado que a ideia é estenderem a sua distribuição às outras lojas. 

 

Para já não está prevista a abertura de mais lojas como o Lab, mas a ideia é que vários produtos aqui desenvolvidos possam chegar às lojas da Padaria Portuguesa, nomeadamente o pão artesanal de fermentação natural, e assim contribuírem para um “upgrade” da cadeia. Nuno Carvalho não foi conclusivo como o irão fazer, mas deu a entender que será de forma progressiva. De facto, se colocarem 10 pães de cada uma das 5 variedades diferentes em cada uma das mais de 58 lojas, dará um total 2900 pães (além dos que são vendidos no Lab), o que é muito pão para algo que se pretende que tenha consistência e uma forte componente artesanal. 

 

Mas o Lab, além de padaria e local de fabrico próprio é uma cafetaria com uma oferta maior do que as congéneres “mainstream” da marca. Alguma oferta é igual, é verdade (aliás, distingue-se logo), mas há toda uma série de saladas, sanduíches e bolos que (pelo menos por enquanto) só estão disponíveis por ali, e ainda que não sejam a última coca-cola no deserto, são, de facto, de qualidade superior às normais.

 

Para rematar posso dizer que não irei percorrer uma grande distância para lá ir mas se tiver nas proximidades equacionarei almoçar uma salada ou uma sanduíche e é muito provável que traga um destes novos pães.

 

LF_LAB-98.jpg

 Fachada da nova A Padaria Portuguesa - LAb, na Av. da Republica (um quarteirão acima da Versailles)

JPEG image-38639F44C02E-2.jpeg

 Quatro perspectivas diferentes do interior de tons brancos e pé direito alto. Em cima, à esquerda, a montra de entrada onde se encontra o pão artesanal. Na imagem do lado, no mostruário ao longo corredor (que inclui o local onde é feito o pão) ficam as sanduiches, saladas e afins. 

 

LF_LAB-168.jpg

Paulo Cardoso e um dos seus pães artesanais de massa-mãe, fermentação lenta

 

LF_LAB-116.jpg

algumas das sanduíches... 

LF_LAB-124.jpg

 ... e três das saladas

LF_LAB-132.jpg

Os bolos, como este naked cake, são outra das apostas do Lab 

 

A Padaria Portuguesa Lab: Av. da República, 39, Lisboa; Horário: todos os dias das 7h30 às 21h 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:29

A selfie de protesto de uma chefe de cozinha

por Miguel Pires, em 05.03.18

Bel_Coelho.jpg

  

A conhecida chefe de cozinha brasileira Bel Coelho, não achou grande piada que um cliente (profissional da sua área) tenha comentado no final de uma refeição, no seu restaurante Clandestino, em São Paulo, que gostara de boa parte do menu, mas não da sua cara de sono.  Ela, que além de proprietária e chefe do lugar é mãe de duas crianças e uma activista da cozinha brasileira, respondeu no Instagram:  

 

 

  

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:27

LjubomirStanisic_foto site.jpg

Quando ligámos a convidá-lo a responder a este questionário, Ljubomir Stanisic estava a caminho da Serra da Estrela onde ia recolher ingredientes aromáticos para um novo destilado que está a desenvolver. Porém, podíamos tê-lo apanhado numa adega, com um pescador na ilha da Armona, numa cozinha improvisada no meio do mato ou mesmo ali ao lado a esfolar um coelho.

 

Patrocínio:

ED - BANNER MESA MARCADA_520x90px.jpg 

 Fotos: retiradas do site e Instagram do 100 Maneiras

 

Posts Relacionados: 

 

 . Menu de Interrogação - 10 Perguntas a Kiko Martins

Menu de Interrogação - 10 Perguntas a Vítor Claro

Menu de Interrogação - 10 Perguntas a José Nobre

. Menu de Interrogação - 10 Perguntas a Rodrigo Castelo

. Menu de Interrogação - 10 Perguntas a Paulo Amado

. Menu de Interrogação - 10 Perguntas a Vasco Coelho Santos

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:43

Imensamente vinho

por Miguel Pires, em 24.02.18

IMG_1085.jpg

Se me dessem um euro por cada vez que alguém levou um copo de vinho à boca, ontem, na zona da Ribeira, no Porto, teria certamente a situação financeira resolvida até ao resto dos meus dias. É que, por estes dias, com pouco mais de mil metros de distância entre eles, realizam-se dois grandes eventos vínicos na cidade - a Essência do Vinho (de 22 a 25) e o Simplesmente Vinho (de 23 e 24) - que trouxeram/trazem ao Porto milhares de apreciadores.

 

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:50

Comida_Indep_colagem JWeng.jpeg 

Rita Santos fez carreira em várias multinacionais e, como acontece com muito gente, chegou um momento em que decidiu mudar de vida. Na sequência desta mudança começou a ponderar a hipótese de abrir uma loja que, como refere, “não fosse de produtos de luxo, mas sim de expressão do território”.

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:45

thumbnail-6.jpeg

 

"Foi efectuada uma reserva em seu nome para o Ritz Secret Room by Sangue na Guelra", dizia o convite, que prometia uma experiência "secreta" com "intimidade", "provocação" e "mistério", na suite presidencial do hotel mais emblemático de Lisboa. Eh lá... Sábado ao fim da tarde, já com o check-in efectuado subo ao ao último andar do belo hotel desenhado pelo arquitecto Pardal Monteiro com a curiosidade aguçada. Será que a Madonna está metida ao barulho?
 
 
 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:13

IMG_0924.jpg

 

Não me recordo de haver, uma expectativa tão grande no meio gastronómico em volta da abertura de um restaurante como a revelada em relação ao Noma 2.0., o espaço de Copenhaga que abriu no passado dia 16 e que sucede, num outro local da capital dinamarquesa, o famoso Noma, votado como o melhor restaurante do mundo da lista do W50Best, por quatro vezes (2010, 2011, 2012 e 2014).

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:11

Cisco_AlexandreDiniz.jpg

 

Com tanto frenesim à volta da figura do chefe de cozinha, quase nos esquecemos que sempre existiram cozinheiras e cozinheiros autodidactas talentosos, chegados ao mundo da restauração por ligações diversas, casualidade, ou desejo de mudança de vida. Dois bons exemplos recentes (um mais recente do que o outro) marcam pontos no Ribatejo, com poucos quilómetros entre si. Rodrigo Castelo, da Taberna Ó Balcão, em Santarém, é mais conhecido, mas o seu amigo Alexandre Albergaria Diniz, do Cisco, em Almeirim, começa a seguir-lhe os passos.

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:00

A despedida de Açucena Veloso

por Mesa Marcada, em 12.02.18

 

 

O velório de Açucena Veloso realiza-se hoje, a partir das 18.30h, na Basílica da Estrela, em Lisboa. O enterro é amanhã, às 17.30h, no cemitério do Alto de São João, também em Lisboa. Entretanto, decidimos tornar a publicar na íntegra a entrevista da série Menu de Interrogação que lhe fizemos aqui no Mesa Marcada há exactamente um ano. Uma maneira de recordar uma pessoa extraordinária.

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:05

Morreu Açucena Veloso

por Duarte Calvão, em 11.02.18

Acucena.jpg

Acabo de ter uma das notícias mais tristes dos últimos tempos. Vítima de um desastre de automóvel, morreu hoje Açucena Veloso, uma das melhores pessoas que eu conhecia. Ainda ontem estive com ela no Mercado 31 de Janeiro, nas Picoas, onde trabalhava desde os nove anos. Nem sei o que dizer, de tão atordoado que estou. Os meus pêsames à sua família e aos muitos amigos que deixa, certamente partilhados pelo Miguel Pires e por muitos dos nossos leitores. Açucena Veloso, com a sua incomparável alegria e força de viver, deixa um enorme exemplo para todos.

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:35


Patrocínio


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira as listas completas



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Abril 2018

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Comentários recentes

  • João Faria

    Descobri-a há uns bons anos, lá fora. Desde então,...

  • Ana Paula

    OláEncontrei essa couve no Pingo Doce este fim de ...

  • Artur Hermenegildo

    Fomos ao Local há dias, já com a nova equipa de Ma...

  • Anónimo

    Apesar dos problemas pessoais''cuidar das crianças...

  • Duartecalf

    ??"Por último, Joaquim Figueiredo, porventura o no...


subscrever feeds