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Uma estrela nas mãos de Aimé Barroyer

por Miguel Pires, em 01.10.11

 

É um dos mais antigos restaurantes de luxo da Península Ibérica (1861). Pelas suas mesas passaram figuras ilustres das mais diversas áreas, da literatura à politica, do cinema às finanças. Em 150 anos de vida o Tavares viveu momentos de glória e de estabilidade, mas também de declínio e de insucesso, de que são exemplos as sucessivas falências que se deram nos anos 40/50. Infelizmente na sua história recente os períodos conturbados voltaram a repetir-se: desde 2004, o restaurante mudou duas vezes de proprietário e cinco vezes de Chefe de Cozinha.  

 

Mas foi também neste período, sobre o comando do Chef José Avillez, que alcançou o seu maior feito gastronómico ao ser galardoado dois anos consecutivos (2009 e 2010) com estrela michelin. Como é sabido José Avillez  sairia em Janeiro deste ano em rotura com a administração. Problemas financeiros, que se traduziram no incumprimento de prazos de pagamentos a fornecedores, como veio a lume na imprensa, terão estado na origem dessa ruptura.

 

Quando muitas pessoas temiam um novo definhar era anunciada a contratação de Aimé Barroyer para tomar as rédeas da cozinha e dar um novo fôlego ao projecto. O estilo de cozinha e o seu currículo, que incluiu passagens pelas cozinhas de Joel Robuchon e Paul Bocuse, parecem apontar nesse sentido.

 

Em Portugal, este Chef francês, casado com uma portuguesa, criou e dirigiu o restaurante Valle Flor, do Hotel Pestana Palace (Lisboa), onde ficou conhecido pela obsessão pelas cozinhas e produtos regionais portuguesas, muitos deles de baixa consideração e até pouco conhecidos fora das suas regiões. Barroyer deu-lhes um estatuto e a sofisticação que poucos imaginaram – é preciso ver que se vivia um período de deslumbramento em que se valorizava muito certos produtos estrangeiros, do (hoje banal) magret de pato, ao foie gras, das vieiras ao pombo d’anjou. A sua cozinha no Valle Flor era de facto fascinante. Contudo, apesar de todo o reconhecimento a sua mente criativa e a insistência em conjugar produtos nobres com outros menos considerados, nem sempre resultava de forma brilhante. Por outro lado a cadência com que novos pratos e menus especiais iam sendo apresentados pecavam, por vezes, por falta de afinação o que fazia com que o resultado nem sempre fosse constante. Essa é a principal razão que várias pessoas apontam para o facto de nunca ter ganho uma estrela michelin.

 

A primeira carta de Barroyer, no Tavares, data do inicio de Março. Apesar dos poucos meses de trabalho o silêncio paira na imprensa e, à data que escrevo estas linhas, pouco mais se conhece do que a apreciação do conhecido critico espanhol Carlos Maribona, do jornal ABC e do blogue Salsa de Chiles.  Maribona, um adepto incondicional do Tavares de Avillez, considerou a cozinha de Barroyer tecnicamente impecável, mas demasiado barroca, chegando a apontar algumas conjugações “verdadeiramente preocupantes”, como foi o caso de um salmonete com foie gras.

Por todas estas razões a estava curioso em conhecer esta nova fase deste mítico restaurante lisboeta e poder partilhar essa apreciação com os leitores Wine.

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publicado às 11:04

Restaurante Velho Macedo

por Miguel Pires, em 11.09.11
O renovado Velho Macedo


Gosto muito dos restaurantes lisboetas antigos com as suas paredes interiores em mármore, como nos talhos, leitarias e tabernas antigas. Um dos lugares que ainda mantinha essas características era o Velho Macedo, na Baixa, que em tempos foi... isso mesmo, uma antiga leitaria. Utilizo o verbo no passado porque em Junho último o local entrou em obras de remodelação e uma das alterações previstas era precisamente a substituição desse revestimento. Temia que o espaço perdesse a sua personalidade, como aconteceu em tantos outros locais que foram alvo de ‘modernização’. Há uns dias soube que o restaurante reabrira e decidi lá ir almoçar.
 
A primeira constatação foi, de facto, que os mármores tinham ido à vida, substituídos por pedra lioz, como no chão.  Continuo a lamentar a amputação desse pedaço de história mas reconheço que, em geral, as alterações foram benéficas e acabaram por conferir maior luminosidade ao espaço, sem o descaracterizar.
A disposição da sala mantém-se, tal como os arcos originais do edifício, bem como a fileira de garrafas de água San Pellegrino, um adereço algo insólito num restaurante de cozinha tradicional portuguesa mas que é uma marca da casa (consta que uma referência num guia turístico italiano tornou o restaurante popular entre os turistas italianos de visita ao nosso país). Já as cadeiras foram substituídas por outras mais confortáveis, tal como o balcão vitrina de inox, à entrada, que agora é de madeira e tampo em pedra.
O mais importante é que não houve alterações nos pratos tradicionais confeccionados pela D. Adília. Apesar dos proprietários serem de origem transmontana, há pratos de várias regiões e até umas mini chamuças (confeccionadas fora) que costumam ser ‘de estalo’, mesmo que desta vez estivessem algo moles. Foi por aqui que o almoço começou, a que se juntaram uns pastéis de bacalhau (também em versão mini) que embora com mais batata do que bacalhau revelavam um recheio de apuro certo. Éramos dois e como pratos principais escolhemos uma carne de porco à alentejana e um polvo à lagareiro. A carne estava tenra qb,  a confecção correcta e o tempero assertivo de horas a marinar. As amêijoas eram de qualidade e as batatas fritas não vieram em cubos, como mandam as normas, mas sim às rodelas, finas (mas não demasiado) e de fritura imaculada - pura gulodice.  O polvo à lagareiro sofreu também uma adaptação e resultou bem. Os tentáculos, macios, vinham cortados na horizontal (como nos filetes de polvo) e revelavam as marcas de uma passagem final pela grelha. Foram servidos com companhia à altura: boa batata a murro e couve galega. De sobremesa comeu-se um saboroso pêssego de época e um agradável e nada pesado pudim francês.
O Velho Macedo tem uma carta de vinhos variada e bastante completa que vai do mais básico até a topos de gama como o Quinta do Crasto - vinha Maria Teresa. Ficámo-nos por um Casa de Santar Reserva branco de 2008, um vinho a bom preço (14€) com a complexidade necessária para acompanhar qualquer um dos pratos descritos.
O serviço é do género familiar o que nem sempre revela o maior profissionalismo. Por exemplo nesta visita o anfitrião perdeu-se à conversa com uma das mesas do lado, de clientes habituais, acabando por negligenciar, em parte, o serviço na nossa (não dando a provar o vinho, por exemplo). Enfim, também não vem grande mal ao mundo. Afinal o Velho Macedo continua a ser um restaurante muito recomendável e seja qual for a juízo que se faça sobre a substituição das paredes revestidas a mármore, há uma opinião que é unânime: a da boa mão da D. Adília para a cozinha.
 
Pela refeição descrita, mais cafés, pagou-se 47€, por duas pessoas.
 
Contactos: Restaurante Velho Macedo, Rua da Madalena 117, Lisboa; Tel: 218873003

Texto e foto de entrada publicados originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 19 de Agosto de 2011
 

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publicado às 17:05

Restaurante Ribamar-Tróia

por Miguel Pires, em 23.08.11

Sabor a mar com vista para o Sado

 

 

Há várias formas de chegar a Tróia. Pondo de parte o helicóptero ou o barco particular, o mais provável é vir de carro, por Alcácer do Sal, ou de ferry, por Setúbal. No entanto se o objectivo é permanecer pela zona da marina, ou dar um salto à praia contigua, sem dúvida que a melhor opção (para quem vier de Norte) é deixar o carro em Setúbal e atravessar, a pé, de barco.

Desde o final do ano passado que os  gastrónomos têm neste destino um atractivo suplementar (na verdade dois, se contarmos com a geladaria Ice Gourmet do Chef Bertílio Gomes): o restaurante Ribamar-Tróia, uma filial do original com o mesmo nome, em Sesimbra. Trata-se de um espaço bem enquadrado na envolvente exterior, decorado num estilo contemporâneo, confortável e informal. No exterior, no deck da marina, existe ainda uma esplanada com vista para o Sado e para a Serra da Arrábida

A oferta gastronómica pareceu-me menos extensa mas dentro do mesmo conceito do restaurante de Sesimbra. Hélder Chagas, proprietário e Chef, aplica os mesmos preceitos da sua cozinha centrada nos peixes e mariscos de origem local, trabalhados e apresentados de formas diferentes, sem subjugações à ditadura da grelha. Na verdade, é nos pratos cozinhados que o Ribamar se distingue dos seus congéneres de beira-mar e evidencia uma vertente mais autoral. Seja nos de confecção mais sofisticada, seja nos elaborados em consonância com a tradição portuguesa. Recordo, por exemplo, em Sesimbra, uma excelente sopa rica de peixes e mariscos com um toque exótico de açafrão, uma versão inspirada na bouillabaisse disponível também, aqui, em Tróia.

 

A carta está bem organizada e divide-se de uma forma simples e directa: entradas e petiscos (duas saladas, vários tipos de mariscos de conchas, choquinhos, etc.) mariscos (ostras, pés-de-burro, gamba branca, navalheiras, sapateiras, lavagante, lagosta...) peixes grelhados no carvão (sargo, linguado, salmonete, robalo, pregado, imperador...), peixes de confecção (bife de espadarte e de atum, lascas de bacalhau com creme de coentros, lombo de pescada com kokotchas e amêijoas, arroz de mariscos, etc.), carnes (três tipos de bifes de vaca, bochechas de porco e um “pato escangalhado com legumes e geleia de ameixas”) e, no capítulo final, “frutas, doces, sobremesas e queijos”.

 

 

 

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publicado às 19:04

Restaurante Pharmacia

por Miguel Pires, em 10.08.11
A Prescrição não convence

foto tirada daqui

Em 2009 Susana Felicidade e Tânia Martins criaram um fenómeno chamado Taberna Ideal (Rua da Esperança, 112, Santos, Lisboa), um espaço descontraído associado um serviço ultra informal e uma cozinha sem grandes complicações. Aqui misturam tradicional e popular com moderno e urbano. Os clientes revêem-se no lugar, as doses são simpáticas, a comida é saborosa e o resultado traduz-se em casa cheia. O sucesso foi tal que no ano passado abriram a Petiscaria Ideal, dois números abaixo, num formato ainda mais simples e mais informal com mesas corridas e sem marcações.
 
Já este ano voltaram a surpreender ao ganharem a concessão do espaço de restauração no majestoso edifício da Associação Nacional de Farmácias onde antes existiu, sem grande sucesso, o restaurante A Ver Navios. Remodelaram o espaço e decoraram-no de acordo com a temática do local. Mergulharam na memória das farmácias antigas, trouxeram mesas de laboratórios, cadeiras usadas e criaram um espaço simpático, original e de proveitosas dimensões. No exterior funciona uma agradável esplanada (que também é bar) onde servem petiscos à carta em regime  non stop. No interior há uma sala principal e ainda outras duas que podem albergar grupos (numa até 12 pessoas, noutra até 26). Aqui durante o dia e até ao jantar funciona como no exterior (à carta). À noite há um menu único surpresa com o prosaico nome, ‘Passa-me a Travessa’. Custa 28€/pessoa e é constituído por duas entradas, dois pratos e uma sobremesa. Se juntarmos bebidas a refeição poderá chegar facilmente aos 35/40€, o que já é um campeonato diferente de uma tasca cool.

Infelizmente o upgrade não corresponde ao que se recebe em troca, a ver  pela experiência tida num destes dias, ao jantar, no interior.
Começo pelo o espaço que é de facto fantástico mas onde não senti a mesma atmosfera de qualquer um dos dois de Santos. Depois há o serviço que, no caso, foi atabalhoado, distraído e demasiado informal, com “meus queridos” para cá, “meus queridos” para lá. Não é que me desagrade particularmente mas parece-me coloquial demais para um lugar que se calhar não é tão intimista quanto as proprietárias gostariam que fosse.
No entanto é na comida e na relação preço qualidade que a desilusão foi maior. O menu que nos apresentaram foi desequilibrado e pesado (sobretudo, tendo em conta que é Verão); as doses são para partilhar mas as quantidades não vieram bem definidas (ex: na caldeirada vinham duas vieiras para três pessoas); e, na maior parte dos pratos, a confecção deixou a desejar.
 
O jantar começou com um shot de melão com presunto num tubo de ensaio, diferente na apresentação, banal (e pouco frio) no conteúdo. Depois uma primeira entrada de cogumelos salteados, um prato com sabor mas de mão carregada no sal. Seguiram-se duas entradas de fritos. Primeiro uma patanisca de polvo, ligeiramente esturrada mas aceitável, com molho de iogurte e hortelã que lhe dava algum equilíbrio. Depois uma boa bola de alheira com puré de maçã. De seguida como pratos principais veio primeiro, uma caldeirada com pescada, cherne, vieiras e xerem e, depois, lombinhos de porco preto com migas de tomate. A caldeirada estava bem apaladada, embora fosse discutível a presença de vieiras. Já o xerem (papas de milho) que acompanhava vinha num estado aglutinado, pouco apelativo. Quanto aos lombinhos, de boa qualidade, uns estavam num bom ponto, outros passados demais (provavelmente por não terem o mesmo tamanho) e as migas, embora saborosas enjoavam à terceira garfada - por gordura em demasia, por virem depois de  uma sucessão de pesos pesados (fritos, caldeirada...). Por fim a sobremesa chegou já sem muito espaço para a acolher. Tratava-se de um conjunto de vários doces donde apenas retive como positivo um crumble de frutos vermelhos e, vagamente, uma mousse de chocolate com moscatel e raspas de laranja. 
Nos vinhos a carta é curta mas com boas opções de escolha. Os copos razoáveis, os preços aceitáveis e a temperatura de serviço foi correcta. Mas mais uma vez não foram cumpridas certas regras que a este nível de preços, um restaurante deve ter. A garrafa de Soalheiro branco (2010) com que acompanhámos parte da refeição já nos chegou aberta e, o tinto, a copo, um Dalva Reserva (2008), já servido.
Demasiado amadorismo e displicência para uma refeição que ficou na casa dos 35€/pessoa. Isto porque se esqueceram de facturar uma água e o café - não sei se por cortesia, se por descuido. Valha-nos o local e as pessoas que, apesar de tudo, são genuinamente simpáticas.
Esperamos que com o tempo o serviço afine e as coisas melhorem. No entanto, dentro do género, os espaços de Susana Felicidade e Tânia Martins, em Santos, são uma aposta mais interessante.
 
Contactos: 
Restaurante Pharmacia, Rua Marechal Saldanha, 1, Lisboa; Tel: 213462146

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 29de Julho de 2011

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publicado às 10:36

Restaurante Pedro e o Lobo

por Miguel Pires, em 28.07.11

Inconformismo, elegância e boas vibrações

 

 

É impossível ficar indiferente a este espaço: pé direito alto, linhas depuradas, influências nórdicas, madeira, cimento, aço e mobiliário vintage. É um espaço quente, contemporâneo, com áreas bem definidas, boa iluminação e mesas à distância certa. Não sou muito dado a causas místicas mas a elegância informal e o bom ambiente que se sente na sala do Pedro e o Lobo transmite-nos, logo à partida, boas vibrações.

Esta atmosfera senti-a na primeira vez em que lá jantei, poucos meses após a abertura. A comida não me entusiasmou, não porque fosse má ou mais do mesmo, mas porque criara alguma expectativa em relação à criatividade da dupla de Chefs, Diogo Noronha e Nuno  Bergonse, cujas passagens por restaurantes como o Per Se, de Thomas Keller, em Nova Iorque (Diogo Noronha), o Virgula e o Ritz, em Lisboa (Nuno Bergonse), ou o Moo, a segunda operação dos irmãos Roca, em Barcelona (onde ambos se conheceram) foi amplamente divulgada na imprensa. Na altura notei algumas falhas (técnicas e de produto) e uma ou outra conjugação que não me agradou. Mas também algumas pistas que me deixaram curioso e interessado em acompanhar a evolução.

Passado quase um ano regressei e senti a mesma boa atmosfera. Quando nos sentámos (às 21.00h) a sala estava vazia, no entanto, uma hora depois, não havia um lugar por ocupar (não, não foi em Madrid. Foi em Lisboa e a meio da semana!).

A ementa pareceu-me equilibrada e sugestiva. Ao contrário do que muitas vezes acontece, em que a percorremos várias vezes e não encontramos nada de muito interessante, aqui passou-se o contrário. A dificuldade esteve em escolher perante a variedade de propostas estimulantes, algumas utilizando produtos menos usuais, sobretudo no que diz respeito as peixes (como a veja dos Açores, o cantaril, ou o pata roxa).

Curiosamente a grande parte dos pratos do menu de degustação não constam na carta e, inclusive, pereceram-me menos interessantes. Como éramos três pessoas o ‘a la carte’ permitia experimentar vários pratos, pelo que foi a opção tomada.

 

Não houve amouse bouche, mas perdoa-se, pelo couvert com vários tipos de bom pão (de centeio, focaccia e brioche de azeitona) e azeite. A primeira entrada colocou a refeição logo a um nível elevado: ostras, navalhas e berbigão com puré de wakame, madalena de algas de água doce, pepino e tomate confitado. Uma proposta muito actual que faz lembrar algumas do Noma (e, em parte, mas com menos sofisticação, o “Cascais à beira mar”, de José Avillez). Trata-se de um prato de produto, fresco, leve, colorido e com contrastes subtis: fresco e marítimo dos mariscos e também da salicórnia que faz a ponte para a frescura vegetal e a textura ‘crunchie’ do pepino. O tomate confitado dá um toque de acidez e de doce e, por fim, a original madalena de algas proporciona consistência ao conjunto.

Menos complexa, mas não menos interessante, a segunda entrada: caranguejo de casca mole, quinoa, chips de banana, iogurte grego e azeitonas. Este tipo de caranguejo, que é apanhado quando na mudança da carapaça, é uma gulodice que se come por completo, normalmente frito, como foi o caso. O iogurte corta a fritura com a sua frescura e acidez e a quinoa, escura, provavelmente cozinhada com tinta de choco, dá corpo ao prato. Este grão altamente nutritivo, originário da América do Sul (era conhecido como o ouro dos Incas) parece ser um ingrediente prezado na casa. Já na primeira carta havia um prato que o incluía, junto com abacate e lulinhas salteadas (na altura foi o mais interessante dos que provei). Ainda outro aparte: tanto a quinoa como o bulgur são dois grãos muito utilizados na dieta vegetariana e é muito interessante vê-los bem integrados nas criações do Pedro e o Lobo, pela originalidade, e como alternativa a cereais mais habituais como o arroz ou o trigo comum. A esse facto não deve ser estranho o facto de Diogo Noronha ter sido cozinheiro num restaurante vegetariano, em Nova Iorque.

 

Voltando à apreciação do jantar. Nos pratos principais o cantaril com puré de favas, ragout de courgete, salsichas frescas e emulsão de rosmaninho

estava correcto. No entanto, a concorrência era grande e os outros dois que se lhe seguiram, relegaram-no para segundo plano. Culpas para a veja dos Açores e, especialmente, para o entrecosto a baixa temperatura com carpaccio de pés de porco. A veja, um peixe saboroso e de textura com alguma firmeza, veio no ponto certo e em boa companhia, com alcachofras salteadas, mousse de pimento vermelho assado e esponja de limão. Um prato muito bem pensado e que resultou a todos os níveis: produto, apresentação, técnica, conjugações e originalidade. O entrecosto com carpaccio de pés de porco foi também um prato muito interessante. E arriscado. A textura algo viscosa e o sabor assertivo dos pés de porco não serão certamente do agrado de muitos. Mas como diz o ditado, quem não arrisca não petisca e, neste caso, quem não o fizer não sabe o que perde. A ligação com os restantes elementos é exemplar. O entrecosto (sem osso, da parte entremeada mais perto da barriga) de carne firme e amaciada pela cozedura a baixa temperatura mostrou-se excelente. O courato bem tostado foi o elemento contrastante necessário à textura dos pezinhos e a salada de mostarda verde e maçã granny smith o contraponto de frescura e acidez. 

O capítulo final, o das sobremesas, serviu para acabar a refeição em beleza, sobretudo do lado do chocolate, com a  ‘Floresta negra, gelado de nata e cerejas amarenas’ a encher as medidas (metaforicamente e literalmente falando). Já o mil folhas de pêras caramelizadas, sabayon de Madeira e gelado de doce de leite pareceu-me um pouco enjoativo, embora confesse que a essa altura do campeonato o palato já pedia tréguas.

 

Veja dos Açores, alcachofras salteadas, mousse de pimento vermelho assado e esponja de limão 

 

Entrecosto a baixa temperatura, carpaccio de pés de porco, salada de mostarda verde e maçã granny smith 

 

O jantar foi acompanhado por um Chablisienne Vieilles Vignes 2004, um branco da Borgonha, mineral, de boa acidez e algum corpo. O suficiente para aguentar, com prazer, toda a refeição (excepto doces). Foi servido em copos correctos, à temperatura certa e por alguém com conhecimento de causa. A carta de vinhos poderia ser mais extensa mas para compensar é ponderada na selecção e sensata nos preços (embora não ficasse mal ter mais dois ou três tintos abaixo dos 20€).  São 43 vinhos nacionais, entre brancos (15), tintos (24), rosés(2), espumantes (2) e generosos (9 portos e 1 moscatel de Setúbal). Há ainda 18 vinhos estrangeiros, dos quais 4 champanhes.  

Em geral o serviço correu bem. Os empregados são atentos, cordiais e discretos e nem o atraso num dos pratos (quando a casa encheu) ou uma certa atrapalhação na resposta a uma pergunta mais técnica foram suficientes para prejudicar uma refeição que a todos os níveis correu a preceito.

 

O Pedro e o Lobo quando abriu apresentava uma carta mais cautelosa de forma a perceberem “os gostos e as existências dos clientes portugueses”, segundo explicou por email a responsável pelo restaurante, Patricia Baptista. É pois com grande contentamento que verifico hoje uma carta inconformista (apenas com um ou outro prato de defesa), execuções seguras, bons produtos, conjugações ousadas e estimulantes e... casa cheia! Afinal parece haver clientes portugueses que apreciam este tipo de cozinha, o que contrasta com o lamento de alguns Chefes e responsáveis por restaurantes que justificam não arriscarem por não haver público para grandes ousadias.

 

Morada:

 

Rua do Salitre, 169, Lisboa; Tel: 211 933 719; www.pedroeolobo.pt

 

Preços:

 

. Preço médio para refeição completa (de entrada, prato e sobremesa) com vinho: 45€, ao jantar - o que correspondeu ao preço pago, por pessoa, pela refeição descrita.

 

. Menu de degustação: 38€, 6 pratos

 

. Ao almoço (com menu executivo): Entre 18 euros (com dois pratos) e 22 euros (com três pratos). Ambos incluem couvert, copo de vinho ou água.

 

 

Classificação:

 

Cozinha:18; sala: 17.5; vinhos:16.5

 

 

Texto publicado originalmente na revista Wine de Junho. (Fotos: Nuno Correia)

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publicado às 13:06

Restaurante Yakuza by Olivier

por Miguel Pires, em 20.07.11

Japa by Agnaldo

  

 

Olivier da Costa, ou apenas Olivier, como é conhecido, é uma das mais controversas figuras da restauração de Lisboa. Idolatrado por uns, desprezado por outros, é mais um criador de conceitos do que propriamente um Chef de cozinha. Goste-se ou não da figura, o certo é que os seus restaurantes estão quase sempre cheios: do Olivier (Rua do Alecrim), ao luxuoso Olivier Avenida (Hotel Tivoli Jardim), passando pelo informal, e mais recente, Guilty (Barata Salgueiro). Curiosamente o Yakuza, o seu projecto mais interessante em termos gastronómicos, começou por não ser bem sucedido no local inicial, no piso inferior do Tivoli Fórum. Felizmente foi-lhe dada uma segunda oportunidade, passou para o outro lado da avenida e ocupa desde há algum tempo um espaço do Hotel Tivoli Jardim, com ligação aberta para o Olivier Avenida, a quem pede emprestado alguns recursos (as cartas de vinhos e de sobremesas, e alguns empregados).

Mas se Olivier é a imagem, o brasileiro Agnaldo Ferreira, antigo Chef do Sushi Lounge, em Santos, é a alma gastronómica deste espaço de cozinha japonesa, clássica e de fusão.

Entra-se pela porta do Olivier Avenida e ao meio há um bar/zona de serviço que serve de fronteira entre os espaços. O Yakuza fica à esquerda. Sala bem composta, com uma ou outra família, casais em traje casual e alguns executivos. Embora um pouco mais sóbria, a decoração segue os mesmos princípios do vistoso e rebuscado decor da casa ao lado. A iluminação é agradável e intimista e destaca o aquário colocado na zona central.  A mesa que nos foi atribuída fica ao lado e embora o cenário seja agradable não deixa de ser algo estranho comer peixe com outros peixes a observar. Mas acredito que sejam mais as vantagens. Além de gracioso deve servir também de distracção a casais sem assunto, ou de pretexto de conversa quando o anfitrião, Olivier, faz a sua volta de reconhecimento pelas mesas.

A refeição iniciou-se com a oferta do Chef, um fresco e ‘coentrado’ ceviche de peixe branco (que não consegui descortinar) e salmão. Para amouse bouche está muito bem. Depois, de entrada, um toro tataki (fatias braseadas da parte gorda da barriga de atum). Matéria-prima de qualidade da espécie blue fin, a mais saborosa (e infelizmente em risco, devido ao excesso de captura com destino ao Japão). Preferia que viesse com o tradicional molho ponzu em vez do de cebola confitada que em nada beneficia o prato. A seguir vieram uns uramakis (rolinhos de arroz com alga nori por dentro) com caranguejo de casca mole frito e salmão. Conjunto saboroso ainda que devesse ser trabalhado de forma a manter a textura estaladiça do caranguejo quando frito. Posteriormente, o conjunto ‘sushi to sozay’: fatias de sashimi de atum, salmão, camarão; niguiri, shake maki e gunka de salmão. Variedade, frescura e de novo matéria-prima de qualidade, com destaque igualmente para o atum. Depois ainda um prato quente: um magnifico lombo de bacalhau negro (black cod) marinado com molho miso, tamarindo e caril, uma versão próxima da celebrizada pelo famoso restaurante Nobu de Nova Iorque. Trata-se de um peixe do Pacífico apesar do nome, não pertence à família dos bacalhaus que conhecemos. O que nos serviram era de textura macia e firme (que permitiu retirar lasca a lasca) e sabor suave, mas com personalidade. A ligação com o molho foi perfeita. Um produto e um prato de antologia que fica na memória.

Para finalizar, de sobremesa, creme brulée com gelado de Ferrero Rocher à parte. Bons, ambos, mesmo que em conjunto os sabores não casem lá muito bem.

Em relação aos vinhos a carta inclui algumas das principais referências portuguesas e outras estrangeiras, entre elas, um Petrus (1000€)  e vários champanhes de topo (Dom Pérignon, Krug e Cristal) que me dizem ser a perdição da clientela angolana abastada. (Nós ficámo-nos por um modesto Poema, um verde alvarinho, que acompanhou muito bem a refeição).

A última nota vai para o serviço de mesa para destacar a forma cordial e com conhecimento de causa do empregado que nos atendeu.

Ainda que com uma ou outra combinação discutible, Yakuza é um restaurante com uma vertente gastronómica interessante e que vale a pena experimentar – mesmo para quem não é adepto da marca Olivier.

Ah… nenhum dos peixes do aquário saltou para ao prato.

 

 (Por esta refeição, com duas águas e dois cafés, pagou-se 106€, 2 pessoas). 

 

Contactos: Hotel Tivoli Jardim, Rua Júlio César Machado, 7/9, Lisboa; Tel.: 21 357 15 02; http://www.restauranteyakuza.com/

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 1 de Julho de 2011

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publicado às 09:37

Restaurante Bica do Sapato

por Miguel Pires, em 30.06.11

A idade fez-lhe bem


Há pouco mais de uma década havia em Portugal um ambiente de grande optimismo. A euforia da Expo 98 ainda se sentia e ganháramos a organização  do Euro2004 aos nossos vizinhos espanhóis. Bruxelas continuava a enviar dinheiro a jorros, a Bolsa criava fortunas e em conjunto com o crédito fácil houve uma sensação de prosperidade na classe média.

Em Santa Apolónia, com a grandeza do Tejo em frente, nascia a Bica do Sapato, um projecto ambicioso com nomes de peso: José Miranda e Fernando Fernandes, do Pap’Açorda; Manuel Reis (que um ano antes inaugurara, ao lado, o Lux); Joaquim Figueiredo, um dos melhores Chefs de cozinha portugueses; e, como cereja no topo do bolo, o actor norte-americano John Malkovich - que só por si ajudou a que o fenómeno tivesse repercussões internacionais.

No entanto muita dessa euforia ajudou a criar um sentimento de deslumbramento fácil mascarado de falsa urbanidade, o que, a par da pobreza de espírito do costume, causou um misto de admiração, desconfiança e inveja em relação ao projecto. Quem se interessava com a vertente mais gastronómica desconfiava do aparato mas tinha curiosidade no trabalho de Figueiredo (e também no de Paulo Morais, no sushi bar do andar de cima). Como seria de esperar, a junção de públicos com gostos e objectivos diferentes e as falhas normais de uma máquina por afinar teriam que fazer ‘tilt’. Nada que tivesse perturbado José Miranda e Fernando Fernandes habituados a lidar com este tipo de situações – ainda que em muito menor escala -  no Pap’Açorda. Joaquim Figueiredo saiu passado pouco tempo e, mais tarde, Fausto Airoldi, que o substituíra. Desde aí a Bica do Sapato teve sempre Chefs de perfil discreto.

 

Dos três espaços, tinha-me dado bem com o sushi bar (até Paulo Morais sair) e razoavelmente com a cafetaria e com o restaurante principal. Daí a curiosidade em saber o que iria encontrar passados vários anos sem lá voltar.

Marcámos para o restaurante, um espaço amplo que no essencial mantém o espírito (assente na decoração com objectos e mobiliário contemporâneos). A ementa pareceu coerente, interessante e equilibrada. Uma mistura de pratos de cozinha portuguesa de matriz tradicional actualizada com outros de influências internacionais.

 

O jantar iniciou-se com um agradável entretém de boca: uma cavalinha panada com um toque de amêndoa. Depois, de entrada, escolhemos o recheio de sapateira no tacho e a codorniz recheada e assada com cepes e foie gras – duas propostas vencedoras. O recheio de sapateira foi uma agradável surpresa. Barrado nas tostas com as fatias de bom pão (de São Brás) levemente torrado e um pouco da manteiga de algas - uma aposta muito bem conseguida que acentuou o sabor a mar – apreciou-se de forma compulsiva. Mais clássica e complexa, mas não menos aprazível, a codorniz recheada e assada com cepes e foie gras, acompanhado de trigo sarraceno e espargos salteados. Nos pratos principais, o naco de garoupa braseada em cama de espinafres, revelou um peixe de qualidade, embora prejudicado por algum excesso de cozedura.  Muito bom, o xerém de amêijoas e coentros, acompanhamento que dá substância ao conjunto e que combina sempre bem, quando bem feito. O último prato foi o cabrito da Beira no forno, arroz de carqueja e cogumelo do cardo. Carne macia bem trabalhada e tempero no ponto. Pena o arroz, demasiado gorduroso, a tornar o conjunto algo enjoativo, facto que nem os espinafres ligeiramente salteados conseguiram contrariar. Depois, de sobremesa, aquilo que mais parecia outro prato principal, pelo tamanho desmesurado e densidade do conjunto: bomba, perdão, bolo de chocolate cubano, merengue e trufa de whisky. Três colheradas a cada um e uma dentada na trufa serviram para atestar a qualidade e (sobre) saciar a gula.

Em matéria de vinhos a carta esteve adequada, com preços razoáveis e serviço correcto. A refeição foi acompanhada com o Herdade de Grous branco 2009 (17€), um vinho escolhido em  função dos primeiros pratos e que naturalmente não aguentou o cabrito, a pedir um tinto com algum músculo.

Por último, o serviço foi fluente e prestado com correcção, simpatia e profissionalismo - uma agradável surpresa, dadas as experiências menos positivas em anos anteriores.

Passados 12 anos a Bica da Sapato mantém-se fiel ao conceito inicial. Com uma maturidade e consistência assinaláveis.

 

 recheio de sapateira no tacho

 

naco de garoupa braseada em cama de espinafres suados, xerem de ameijoas e coentros na caçarola. 


 Cabrito da Beira no forno, arroz de carqueja e cogumelo do cardo

 

Bolo de chocolate cubano com merengue e trufa de whisky Famous Grouse 

 

(Por esta refeição, com duas águas e dois cafés, pagou-se 121€, 2 pessoas). 

 

Contactos: Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Cais da Pedra a Sta Apolónia, 1900; Tel: 218810320 /917615065

 

nota: estas fotos servem apenas como uma referência em relação aos pratos consumidos (e não foram publicadas no jornal). As condições em que foram tiradas não permitem retratar o prato com fidelidade. 

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 17 de Junho de 2011

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publicado às 09:29

Restaurante Mesa

por Miguel Pires, em 20.06.11

Na casa de Luís Américo

 

 

Em Outubro do ano passado tive o privilégio de ser convidado para um almoço na adega de Luís Pato. O conhecido produtor bairradino juntara um grupo de jornalistas e amigos para comemorar os 30 anos do seu primeiro vinho (Luís Pato, 1980, tinto) e convocara três Chefes de cozinha de três países que tiveram um papel importante na sua afirmação enquanto produtor. Do Brasil veio Ivo Faria, do restaurante Vechio Sogno, de Belo Horizonte; do Canadá, Marino Tavares, do Café Ferreira, de Montreal; e, de Portugal, Luís Américo, do restaurante Mesa, do Porto. Dos três Chefs presentes o português foi o que mais impressionou com o seu bacalhau negro com falsa cabidela de cebola caramelizada e paiola de Barrancos e, de sobremesa, com um original fondant de abóbora.

Apenas conhecia Luís Américo da imprensa e de uma ou outra apresentação, pelo que estes dois pratos aguçaram-me o apetite para ir o seu restaurante.

Uns meses mais tarde, no Porto, apanho um táxi e peço que me leve a uma morada em Nevogilde. O taxista anda às voltas até me deixar numa zona habitacional. Estranho, acho que estou enganado, mas não dou parte fraca. Pressinto o engano na morada mas quando estou prestes a abandonar o local reparo na placa do restaurante e na indicação, “4º andar”. Quarto andar de um prédio de habitação com uma clínica fisiátrica num dos pisos (devem ser animadas, as reuniões de condomínio). Entro no elevador e subo. Já passam das 14.00h. O espaço não parece exactamente um restaurante, mas também não se assemelha a propriamente uma casa particular. No hall de entrada há uma mesa com castiçais e um enorme livro antigo de receitas. Há esquerda é a sala de estar, com sofás, poltronas, mesas baixas e um bar de apoio. À direita, a sala de refeições. Mesas bem postas, à distancia correcta, espaço confortável e amplo. Predominam as cores suaves em tons de pastel. Misturam-se peças e adornos rústicos com clássicos criando uma atmosfera distinta e aconchegante. Conduzem-me a uma mesa junto à janela donde vislumbro oParque da Cidade e o mar. Os dias ainda estão frescos e por isso não servem na varanda, mas consigo imaginar o quão agradável deve ser em noites amenas de Verão.

É Sábado e ao almoço funciona a táctica 4x4x18, i.e: menu fixo de entrada, prato, sobremesa e copo de vinho, com quatro opções de cada, por 18€ (ou 15€, caso se prescinda da entrada ou da sobremesa). Há pratos que denotam uma cozinha de matriz regional com um toque contemporâneo, outros mais criativos e ainda um ou outro mais trivial. Os vinhos variam entre o Castelo d’Alba branco, o Esteva (tinto) e o Duque de Viseu, Dão, branco e tinto. Opto pelo ultimo, com um pequeno lamento por não ter uma opção (mesmo pagando um pouco mais) de um patamar acima. Escolho de entrada um creme de  aipo com queijo de S. Jorge. Belíssimo creme aveludado. Perfeito equilíbrio na conjugação de sabores entre o queijo (em lascas), o aipo bola (do creme e em pequenos pedaços) e, aquilo que me parece ser caldo de galinha. O prato principal é um cachaço de porco preto sobre couve lombarda e enchidos, numa espécie de eixo norte/sul. O excesso de forno acaba por prejudicar a carne, que quando cozinhada a preceito desfaz-se na boca. Ainda assim, o conjunto merece aprovação, tal como a sobremesa que encerra o almoço, uma tarte tatin bem consumada e saborosa. Mesmo com o leve incidente do cachaço, fico bem impressionado com o nível da refeição. Qualquer um dos pratos poderia fazer parte de um menu de ‘fine dining’, o que faz do Mesa uma excelente opção de almoço, sobretudo, se tivermos em conta os 18€ que se pagam.

Volto à noite com o intuito de conhecer a oferta ao jantar. Quando chego a sala já está bem composta. Vêm-se vários casais e pequenos grupos de amigos tornando o ambiente mais jovem e menos familiar.

Opto menu de degustação, afinal esta é a forma ideal que um cozinheiro dispõe para mostrar a sua cozinha. A carta de vinhos não é muito extensa e predominam as referências nacionais e estrangeiras da Sogrape. Está organizada por tipos de vinhos (Espumantes e champanhes; brancos, verdes e roses; tintos; e generosos) mas, depois, segue uma tendência de os separar por estilos e não por regiões (ex: “Vinhos brancos directos leves e frutados sem ou com pouca madeira”; “Vinhos frescos, vegetais, florais e frutados. Encorpados. Perfeita harmonia com a madeira”). Cada vinho tem a indicação do produtor e das castas, mas não o ano de colheita. A copo há mais possibilidades de escolha do que ao almoço, mas todas dentro do segmento baixo, médio.

O jantar inicia-se com salmão. O peixe é curado e não fresco ou fumado. O método, a que os nórdicos chamam gravadlax, consiste, geralmente, em fazer uma cura durante três dias em açúcar, sal, ervas e especiarias. Nesta versão de Luís Américo os sabores são suaves, mas presentes, e a textura, sedosa. Ao serem combinados com laranja, sésamo e uma maionese ligeira de chalota e funcho, formam um conjunto harmonioso e fresco.

Os dois pratos seguintes parecem-me demasiado banais para pertencerem a um menu de degustação num restaurante de cozinha de autor: carpaccio de novilho com trufa, rúcola selvagem e lascas de parmesão e folhado de queijo de cabra em cama de  maçã. Ainda assim Luís Américo fá-los bem e procura dar um toque diferente (no primeiro caso, ao temperar o carpaccio com óleo/azeite de trufas – não é propriamente uma novidade, mas resulta; e, no segundo caso, ao saltear a maçã em azeite e juntando-lhe um toque de baunilha no fim.

Com os três pratos seguintes voltamos às criações com base na cozinha regional. São pratos consistentes, com elementos sempre bem conjugados e com alguma criatividade. Primeiro, as lulas recheadas com alheira sobre puré de cenoura. Bem vista a ideia dos cornichos crocantes das lulas, a quebrar o monopólio de texturas macias dos restantes elementos. Depois um lombo de bacalhau, bem confeccionado, daqueles que os capítulos se soltam ao pressionar levemente. É servido com um aveludado do seu caldo, confit de abóbora e boletos. Por ultimo, a “vitela de comer à colher sobre farrapo-velho de alheira”. Nome curioso para uma bochecha de vitela (por vezes, os restaurantes fantasiam na designação de certos pratos para evitarem que sejam devolvidos apenas porque o nome não agrada). Não é publicidade enganosa. De facto a peça tinha sido confitada o que lhe conferiu maciez suficiente para se poder prescindir da faca.

Ao longo da refeição reparo que uma em cada duas pessoas pede o mesmo prato. O empregado explica-me que é o best seller da casa, lombo de bacalhau em pão de azeitona, com o qual Luís Américo venceu o concurso Chefe Cozinheiro do Ano de 2004. Fico curioso mas já não há espaço. É tempo de abrir o compartimento doceiro. Primeiro, doce de abóbora e requeijão em mousse. A conjugação clássica que resulta sempre bem, sobretudo, quando a matéria prima é boa e bem trabalhada, como é o caso. Depois, diferentes texturas de chocolate e sorvete de cenoura e baunilha, uma conjugação invulgar para terminar em beleza.

No final peço para me servirem o café na sala de estar que funciona também como sala de vício. Solicito a conta e despeço-me da equipa que me tratou com eficiência, simpatia e profissionalismo. Para desmoer caminho em direcção ao mar, antes de pedir a um taxista que me devolva ao hotel.

Esperava que a cozinha de Luís Américo, no Mesa, fosse um pouco mais arrojada, sobretudo, no menu de degustação. Contudo foram duas boas refeições que demonstraram que Luís Américo é um Chef seguro, imaginativo e com as bases certas. Talvez o facto de ser proprietário do seu próprio espaço lhe roube tempo para assumir mais riscos. É pena porque talento e conhecimento perece que não lhe faltam.

 

Cozinha: 17 ; Sala: 17; vinhos: 16

 

Preço médio para refeição completa (entrada, prato e sobremesa) com vinho: 18€ , ao almoço; 40€, ao jantar. (Pela refeição descrita pagou-se 18€, ao almoço e 55€ ao jantar)

 

Contactos: Rua D. Domingos de Pinho Brandão 75 4º andar, Porto; Tel:226169255; www.amesa.pt 

 

Texto publicado originalmente na revista Wine de Maio

 

 

 

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publicado às 02:05

Darwin's Café

por Miguel Pires, em 07.06.11

Espaço incrível, comida razoável 

 


A primeira surpresa foi logo ao telefone: "mesa para duas pessoas? Penso que já não tenho, mas deixe-me ver. Só um momento." Deve ser estratégia para tornar o local mais apetecível, pensei. Instantes depois: "Disse para as 14h? Sim, afinal consigo".

A segunda surpresa: não era número, era verdade. Apesar dos poucos meses de vida e de ter aberto de forma discreta (no final de Fevereiro) este restaurante da Fundação Champalimaud, com mais de 150 lugares, estava cheio num dia de semana ao almoço.

A terceira surpresa: o espaço impressiona. Pela dimensão, pela altura do pé direito e, sobretudo, pela solução de arquitectura e decoração. As alusões a Darwin, à sua época e às suas obras são evidentes e integram-se na matriz contemporânea do edifício. Após o hall de entrada, predominam formas circulares, nas mesas grandes onde se sentam 6 a 8 pessoas, e no magnífico bar de apoio. Depois, num plano inferior, uma área maior com mesas normais e cadeiras confortáveis. No exterior, há ainda uma esplanada que não estava a funcionar.

A quarta surpresa: independentemente do local há a vista deslumbrante sobre o Tejo e as colinas da Trafaria, na margem sul.

Em tão boa e surpreendente atmosfera restava esperar que a comida estivesse à altura destes argumentos. O menu é bastante completo, entre propostas mais simples e outra mais elaboradas de "cozinha internacional de autor", segundo a definição do responsável pela cozinha, António Runa, antigo Chef do LA Caffé Avenida, cujos proprietários gerem também este Darwin’s Café. Na actual carta de almoço constam 32 pratos, sem distinções entre entradas e principais. Cremes, saladas, gnoccis, folhados, risottos, massas, pratos de carne (6) e de peixe (4). Ao jantar os preços são ligeiramente mais elevados e há mais pratos elaborados (ainda que se mantenham alguns do almoço).

Começámos pelos cremes: simples e agradável o de bacalhau com lascas de parmesão; menos interessante, pelo excesso de acidez, o de tomate com pasta de azeitonas pretas e anchovas (esta aposta pode ser interessante nos próximos tempos quando o tomate de época, bem maduro, for abundante).

Nos pratos principais os escalopes de tamboril panados sobre legumes salteados não convenceram. Embora de polme razoável e ponto correcto, não me parece que o tamboril seja a melhor solução para este tipo de fritura, dada a textura demasiado firme. Os legumes, em juliana, pareciam mais cozidos do que salteados, ainda assim melhores de sabor do que dava a entender a sua cor desmaiada.

O segundo prato principal, o risotto preto com pato confitado e mozzarella, era agradável no palato, apesar da apresentação de susto (apenas se vislumbrava um volume de arroz preto cremoso e uma haste de endro). O pato está lá, desfiado, ainda que não se veja e a ligação do arroz com o queijo mozzarella e manteiga (presumo) acaba por ser mais leve do que aparenta. O que não entendo é a razão deste prato. Se o arroz preto, devido à tinta de choco, não resulta em termos de apresentação e se o seu sabor quase não se sente (e ainda bem pois não parece que choco e pato resultem em conjunto) então porquê esta solução? Para ser diferente?

A sobremesa acabou por ser o melhor momento da refeição: um leve e equilibrado pudim de pão, com molho de goji e molho de café.

No que se refere a vinhos a carta não sendo extensa tem por onde escolher. Os preços são os habituais em Portugal (a tender para o carote), os copos, adequados e o vinho escolhido, o Quinta do Cidrô Sauvignon blanc, 2009, foi servido na temperatura correcta.

No serviço, notou-se alguma descoordenação, o que se aceita, dado estarem ainda em fase inicial e, também porque os empregados são correctos no atendimento.

A juntar aos quatro factores que surpreenderam gostaria de poder ter enunciado um quinto, a comida. Infelizmente neste campo, pela experiência, os argumentos são apenas razoáveis. No entanto vale a pena a visita. O espaço é fantástico e ainda assim a relação preço qualidade (pelo menos ao almoço) acaba por não ser excessiva.

 

 escalopes de tamboril panados sobre legumes salteados

 

 risotto preto com pato confitado e mozzarella

 

pudim de pão, com molho de goji e molho de café
 

(preço médio para refeição completa de entrada prato e sobremesa e bebida: 20/25€, almoço; 30/40€, ao jantar. Pela refeição descrita, com mais uma água e dois cafés pagou-se: 63€, 2 pessoas)

 

Contactos: Avenida de Brasília, ala B - Fundação Champalimaud, Lisboa; Tel: 21 048 02 22; www.darwincafe.com 

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 3 de Junho de 2011

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:04

Restaurante D’Oliva Lisboa

por Miguel Pires, em 19.05.11

Cozinha italo-portuguesa por afinar


 

Consta que no ano passado, em Lisboa, abriram cerca de 40 restaurantes dignos de registo e que, apesar da tão falada crise, alguns conseguiram impor-se com relativa facilidade. Entre eles há um que abriu discretamente, em Novembro, e que em pouco tempo se tornou um sucesso. Trata-se do D’Oliva do Grupo Al Forno, que chega a Lisboa depois de se ter imposto na área do Porto (e em Braga) onde têm actualmente, oito unidades com conceitos semelhantes. Não é o único dos novos restaurantes a encher a casa diariamente, mas é o único de grande dimensão a alcançar essa proeza ao almoço e ao jantar. É certo que o verdadeiro teste verificar-se-á após os primeiros seis meses, quando os holofotes e o factor novidade se dissiparem. Se a politica do buffet a 12€ se mantiver acredito que continuarão a ser bem sucedidos ao almoço, já que se trata de um óptimo ‘good value for money’ e sem grande concorrência à altura. Já quanto ao jantar, onde o preço médio sobe para o dobro, ou para o triplo, e a qualidade nem por isso, a história será certamente outra.

 

Infelizmente (ou felizmente, depende da perspectiva de quem observa) o sucesso de um local como este não se traduz necessariamente pela qualidade da oferta gastronómica que oferece, mas sim por um conjunto de factores em que esta não é necessariamente a mais relevante. O D’Oliva é um desses casos. É um local agradável, elegante, sem grandes formalismos e onde o ver e ser visto é tolerável. O problema é que actualmente, ao jantar, a qualidade da comida e do serviço estão longe de valer os 40€ de preço médio por refeição (com vinho).

 

O italiano Giorgio Damasio, conhecido pelo seu bom trabalho no Hotel da Lapa, é o Chefe de serviço. No entanto a percepção é que não se dá muito conta da sua intervenção no menu, dado que  muitas das propostas são as mesmos que existem em outras casas do grupo - uma mistura entre pratos de cozinha popular italiana (carpaccios, massas, risotos, pizzas), com outros de base portuguesa.

Trata-se de uma comida confortável, com um leque de opções de agrado geral,  para uma escolha fácil e rápida (é a primeira vez, em Lisboa, que se vê um restaurante, a este nível, servir pizzas). O pior é quando a eficácia se traduz num serviço apressado e desordenado. Numa casa com estas características o serviço é um ponto sempre sensível. Mas quanto falamos de um restaurante com um preço mais elevado, a exigência é maior e por isso o investimento neste campo é fundamental. Das duas refeições que fiz recentemente (a um Sábado, ao jantar e, num dia de semana, ao almoço) houve um conjunto de falhas que embora não tenham sido graves, quando somadas, acabaram por ser irritantes. No Sábado, no turno das 20.30h (há outro às 22.30h), poucos minutos depois de confirmada a reserva à entrada (em nome da pessoa que me acompanhava) encaminharam-nos para uma mesa junto a uma área de serviço, na parte de não fumadores, apesar da reserva ter sido para zona de fumadores. Uns minutos após, a mesma pessoa que nos recebeu liga-nos a perguntar se confirmamos a reserva. Insólito, mas até que teve graça. Depois, até ao final da refeição, foi demasiado evidente a luta contra o tempo em que os empregados andavam: constantemente apressados, de um lado para o outro, servindo-nos, com correcção, mas sempre com o ar de quem já estava a pensar na próxima tarefa. Que raios é Sábado à noite, um cliente quer ser servido num bom ritmo, mas ninguém está propriamente atrasado para uma reunião (nós pelo menos não estávamos). É verdade que nunca nos disseram que às 22.30h teríamos que sair para dar a vez ao próximo – como é recorrente em outros lugares que adoptam o mesmo sistema de dois turnos – mas todo aquele stress, irrita.

 

 

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publicado às 01:45


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