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A despedida de Açucena Veloso

por Mesa Marcada, em 12.02.18

 

 

O velório de Açucena Veloso realiza-se hoje, a partir das 18.30h, na Basílica da Estrela, em Lisboa. O enterro é amanhã, às 17.30h, no cemitério do Alto de São João, também em Lisboa. Entretanto, decidimos tornar a publicar na íntegra a entrevista da série Menu de Interrogação que lhe fizemos aqui no Mesa Marcada há exactamente um ano. Uma maneira de recordar uma pessoa extraordinária.

 

 

 

 Menu de Interrogação - 10 Perguntas a Açucena Veloso

 

Quem a vê num sábado, às 14h, a receber uma qualquer cliente com um “O que vai ser, querida?” e um permanente sorriso, pode julgar que Açucena Veloso estará quase dependente de vender um último peixe para arredondar as contas da semana que termina. Na verdade, cerca de 90% do seu negócio é feito longe do Mercado 31 de Janeiro, nas Picoas, onde ela detém 25 “lugares” (fora lojas de congelados, de mariscos frescos e de outros produtos do mar), empregando 20 pessoas. É que, desde as 7h da manhã, seis carrinhas fazem a distribuição do seu peixe pelos melhores restaurantes de Lisboa. “Adoro o que faço, é duro, tenho um horário terrível, mas não sei viver de outra maneira”, disse ao Mesa Marcada, em mais um Menu de Interrogação patrocinado pela cerveja Estrella Damm, no âmbito do seu apoio à gastronomia.

 

De facto, esta minhota de Cabanelas (Vila Verde, Braga), que veio aos nove anos para Lisboa, está no mercado há 55 anos, primeiro vendendo os limões com que a mãe fornecia sobretudo casas de gelados, passando logo depois para o peixe, a sua paixão, com Laurinda Lisboa, de quem herdou o lugar na “praça”. Hoje, é uma verdadeira figura pública, com presença assídua em tudo quanto são jornais e televisões, fornecendo, entre outros, chefes tão conhecidos como Aimé Barroyer, Alexandre Silva, Ana Moura, António Alexandre, Eddy Melo, Henrique Mouro, Henrique Sá Pessoa, João Alves, José Avillez, Justa Nobre, Kiko Martins, Leopoldo Calhau, Marlene Vieira, Miguel Castro e Silva, Milton Anes, Pedro Almeida, Pedro Mendes, Tiago Feio, Vasco Lello ou Vítor Sobral. Ou restaurantes como o Colina, Gambrinus, Solar dos Presuntos ou hotéis Tivoli. Mas nada disso lhe sobe à cabeça, basta ver o brio que põe quando arranja pessoalmente um qualquer peixe a um qualquer cliente que procura o seu “lugar”. Talvez seja essa a razão de tanto êxito.

  

Peixe cru, frito, assado, grelhado ou caldeirada?

De toda a maneira, desde que seja bom, como o que eu vendo.

 

Quando vai a um restaurante e vê o seu rico peixe maltratado o que tem vontade de fazer?

Se conheço a pessoa, digo. “Tirem lá isso da montra, que é uma vergonha!” Outras vezes não estou para me chatear e não digo nada, porque há muita gente que não gosta de ouvir as verdades.

 

Quando vem alguém comprar salmão, que existe em tudo que é supermercado, não lhe sugere peixe português?

Os clientes levam o que querem. Se me perguntam, já é outra coisa. Eu pergunto para o que é, como o vão fazer, e aí até dou a receita. Mas o meu peixe é todo bom.

 

Os chefes mais chatos são os que percebem mais de peixe?

Não são chatos nada, só tenho qualidade e eles não têm o que reclamar. Mas há gente... No outro dia, uma cliente perguntou-me se o peixe que estava a vender era congelado. Eu só lhe respondi: “Olhe para o Céu e peça desculpa a Deus pelo que me disse!”.

 

Qual é a sua carne preferida?

Não tenho. Não é por eu vender peixe, mas a verdade é que como muito pouca carne. Olhe, gosto de feijoada, como aquelas que a Justa Nobre faz.

 

Qual foi a maior encomenda que já teve? Foi na que ganhou mais dinheiro?

Tenho clientes que me pedem muitas vezes uns 300 quilos de peixe. Mais do que isso, não me lembro. Mas não é quando ganho mais, porque eu aconselho sempre os peixes que estão mais em conta

 

Nas férias, quantas horas seguidas consegue dormir?

Já não consigo dormir muito, umas cinco horas no máximo aos fins de semana e nas férias. Mas às vezes nem isso.

 

Há mais gente a vir agora ao mercado ou havia mais há cinco anos?

Como eu trabalho muito à base de entregas a restaurantes, clientes nunca me faltaram, mas desde que se fizeram obras aqui no mercado, há uns dois anos, está muito melhor. Ainda bem, porque ninguém quer vir a um mercado vazio.

 

As mulheres compram peixe melhor do que os homens?

É igual. A mim, tanto compram uns como outros. Como agora vêm muitos casais, já nem sei quem é que decide.

 

Um grande chefe espanhol, Ferran Adrià, diz que mais vale uma boa sardinha do que uma má lagosta. Concorda?

Mas quem é que o manda comprar uma má lagosta? Se está má, não compre. Comigo não comprava más lagostas. Isso não é pergunta que se faça.

 

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publicado às 15:05


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 17.02.2018 às 18:11

Grande Açucena. Uma perda enorme...

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