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Realizou-se no passado dia 16, em Barcelona, a etapa regional para a Península Ibérica e países do Mediterrâneo, do San Pelegrino Young Chef, um concurso mundial de cozinha destinado a jovens cozinheiros. Porém, tal como acontece no caso do Guia Michelin, o mercado espanhol é o que parece verdadeiramente contar para a marca. Digo isto porque esta fase do concurso realizou-se sempre em Espanha (alternando entre Barcelona e Madrid) e a larga maioria dos concorrentes tem sido sempre do país vizinho, numa proporção de nove de Espanha para um de Portugal. Este ano foi ligeiramente diferente porque a etapa foi alargada a “países do Mediterrâneo”, o que na verdade significou pouco mais do que a inclusão de dois concorrentes da Grécia e um de Israel, para além de um português, como tem sido hábito. 

 

 

Ao nível dos jurados a presença lusa tem sido um pouco mais equilibrada, com a organização a fazer um esforço por ter sempre um chefe de renome português: no primeiro ano, em 2016, esteve o José Avillez ( Joan Roca foi presidente do júri), em 2017, Leonel Pereira e em 2018 e 2019, Henrique Sá Pessoa, sendo que neste último ano, o Henrique foi mesmo o presidente do júri (como mostramos na foto de abertura).  

 

Estou em crer que uma das razões de não haver mais participantes portugueses deve-se ao facto da divulgação do concurso e da inscrição no mesmo ser quase inexistente. Presente no evento, José Espírito Santo, director-geral da Vinalda, distribuidor da S. Pellegrino em Portugal, confessou-nos que, embora as vendas da marca nosso país estejam a crescer consideravelmente, o volume de vendas é pequeno e por isso não tem havido orçamento para promoção. Contudo, admitiu ser possível fazer melhor sem grandes investimentos para divulgar este concurso em Portugal e com ele termos a hipótese de ter mais participantes.

 

É verdade que concursos há muitos, mas o #SPYoung Chef tem vindo a ganhar a sua importância graças não apenas a alguns dos melhores chefes estarem ou terem estado envolvidos,  mas também porque a marca de águas italiana tem uma máquina e uma ligação muito forte à gastronomia e à restauração, ou não fosse a principal impulsionadora da lista do The World 50 Best Restaurants.

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Alberto Manso à direita a receber o prémio de vencedor da etapa regional do S. Pellegrino Young Chef

 

Claro, quem está a par e tem aproveitado são os jovens cozinheiros de Espanha que ganharam todas as edições regionais e, embora, nunca tenham vencido a final mundial estão sempre entre os favoritos. A sua qualidade é visível e, todos os anos há normalmente dois ou três que se destacam. Só para terem uma ideia do nível, este ano o vencedor foi Albert Manso, do Tickets, de Albert Adrià, em Barcelona.

 

A representar Portugal nesta fase esteve o jovem André Cameirão, do Hotel Azor, em Ponta Delgada, que apresentou um salmonete com todas as suas partes. Com algum nervosismo (não muito diferente dos outros), André soube contar uma história perante o júri, mas optou por deixar dois momentos do empratamento junto ao júri atrapalhando-se um pouco, provavelmente por não contar certamente que o espaço de movimentação era exíguo. Porém, não foi por aí que o gato foi às filhoses. De facto, mesmo sem provar, o prato do vencedor parecia superior a todos os outros a olhos vistos.

 

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André Cameirão com o seu mentor Rodrigo Medeiros a finalizar o seu prato, antes de o apresentar ao júri

 

Durante e após a prova tive a oportunidade de trocar umas impressões com Henrique Sá Pessoa e com André Cameirão que resultaram nas mini-entrevistas que publico abaixo:  

 

Como ouviste falar do concurso? Sabes se houve muitos portugueses a candidatar-se?

André Cameirão (AC): já conheço este concurso desde da sua segunda edição. Sempre disse que ia participar e agora tive a oportunidade de chegar à semi-final (a final regional). Relativamente a candidaturas portuguesas, não tenho conhecimento. Falei com alguns colegas que me disseram não saber do concurso ou, os que sabiam, não iam participar.

 

Como correu a prova? Quais foram as maiores dificuldades?

AC : o balanço é positivo, gostei bastante. Apesar de não ter conseguido alcançar a final, foi uma grande experiência e aventura. Diverti-me muito. É sempre complicado fazer seis pratos em eventos como este. Por exemplo, só havia um forno para os dez concorrentes e não havia a opção de vapor, o que complicava depois nos pontos de cozedura.

 

Nestes quatro anos de existência, esta etapa regional tem sido vencida por concorrentes espanhóis. Acha que tem a ver com o facto de mais 60% a 90% das inscrições serem dominadas por eles ou será porque são melhores e estão mais bem preparados?

AC: o facto de serem mais espanhóis a candidatarem influência e muito. Se estão mais bem preparados acho que varia muito, porque tenho a certeza de que temos cozinheiros ao mesmo nível e até melhores.

 

Que conselhos darias a futuros participantes portugueses para terem mais hipóteses de chegar esta final regional e disputar a vitória?

AC: a preparação é fundamental. Ir com as ideias todas bem estruturadas, saber extremamente bem o que escrever, ter os passos todos descritos e ter um prato que diga algo e que tenha uma história por trás.

 

André Cameirão tem 24 anos, fez o curso na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, estagiou no Feitoria, tendo passado depois pelo Arola – Penha Longa, Vila Gale Sintra, estando agora no Hotel Azor, em Ponta Delgada, com Cláudio Pontes, onde é cozinheiro de primeira.

 

IMG_9023.jpgAndré Cameirão espera autorização da organização para apresentar o prato ao júri

 

Henrique Sá Pessoa, tinha sido jurado no ano passado e este ano foi presidente do júri.

 

 O que achaste o nível dos participantes este ano, melhorou?

Henrique Sá Pessoa(HSP): O nível foi mais ou menos o mesmo, mas este ano a diferença foi a presença dos mentores e também de mais países na final (Grécia, Israel). Nota-se sempre uma melhor preparação por parte dos espanhóis, principalmente daqueles que já vão na segunda ou na terceira edição a concorrer, como foi o caso do vencedor.

 

E o que achaste do nível do André Cameirão, o participante português?

HSP: Achei que foi uma participação muito digna, com bastante empenho e ideias bem pensadas e criativas. Penso que se voltar a entrar e com a aprendizagem deste ano pode aumentar muito as hipóteses de sair vencedor. No geral gostámos do prato, mas em alguns detalhes não estava no mesmo nível do vencedor.

 

Faço-te a mesma pergunta que fiz ao André: nestes quatro anos de existência, esta etapa regional tem sido vencida por concorrentes espanhóis. Achas que tem de ver com o facto de mais 60% a 90% das inscrições serem dominadas por eles, ou será porque são melhores e estão mais bem preparados?

Acho que o facto de haver muito boa divulgação do concurso em Espanha e de alguns dos melhores restaurantes com chefes bem conhecidos por trás a apoiarem aumenta muito as hipóteses de serem eles os vencedores. O último vencedor das três edições anteriores da Península ibérica foi o mesmo concorrente, que era o chef de cozinha do Abac com 3* Michelin! E este ano foi o subchefe do Albert Adriá, no Tickets, que é um dos restaurantes mais criativos do mundo. É um nível muito alto, não é fácil.

 

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A jaleca reveladora de que o concurso é levado a sério em Espanha (ou pelo menos em Barcelona)

 

Que conselhos darias a futuros participantes portugueses para terem mais hipóteses de chegar esta final regional e disputar a vitória?

Antes de mais prepararem-se, verem bem os pratos e a filosofia dos vencedores das últimas edições. Muitas vezes tende-se a complicar, mas é na falsa simplicidade e nos pequenos detalhes que se ganha! O prato deste ano era genial, mas partia de uma ideia simples que foi executada na perfeição. E acho que os chefes dos grandes restaurantes que temos pelo nosso país, também devem apoiar estas iniciativas e incentivar os bons cozinheiros que têm nas suas brigadas para participar. A nossa gastronomia só ganha com isso!

 

Na gíria futebolística costumava-se dizer que o futebol eram onze contra onze e no fim ganhava a Alemanha. Nos pontapés na bola as coisas têm mudado, mas no fundo, nas nossas cozinhas e na preparação dos nossos cozinheiros, de um modo geral, também. Vamos ver se aparecem mais neste tipo de concursos fora de portas e se começam a morder os tornozelos aos nuestros hermanos.   

 

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“Codorniz e vinho” o prato do vencedor Albert Manso, do Tickets

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Prato de uma das participantes mais bem classificadas, a chinesa Mengxin Zhou, cozinheira do Abac, que tinha como mentor, David Andrés, vencedor de edições anteriores.

 

 

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publicado às 13:52



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