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O imponente claustro do Convento das Bernardas, na Madragoa, recebe neste final de tarde a festa que comemora os 40 anos de A Travessa, um dos restaurantes mais marcantes de Lisboa das últimas décadas. “Na verdade, fundámos o restaurante no dia 4 de Novembro de 1978, mas como queria aproveitar o claustro enquanto o tempo está bom, mudámos a comemoração para agora”, explica ao Mesa Marcada Vivianne Durieu, a belga que há quatro décadas, sem qualquer experiência no sector,  decidiu arriscar num pequeno espaço na Travessa das Inglesinhas, também na Madragoa, que rapidamente se tornou num ponto de encontro de políticos, artistas, intelectuais, jornalistas e muitas outras figuras de destaque na Lisboa de então.

 

 

Foto9.jpg A sala da antiga A Travessa, também na Madragoa

 

Nascida em Tournai, foi lá que Vivianne Durieu conheceu o marido português que nos anos 60 foi estudar Engenharia Têxtil para a cidade belga. Viriam depois para Portugal em 1969, onde ela trabalhou em fotografia e, depois de diversas peripécias típicas desses tempos “revolucionários”, em 1978 lembraram-se de abrir um pequeno espaço onde houvesse “bom pão, bom queijo e bom vinho”. “Hoje talvez desse certo, mas na altura naquele lugar...percebemos logo que tínhamos que fazer outras coisas além de sanduíches”, conta a dona d’ A Travessa. “Eu sabia pouco de cozinha e comecei a pedir receitas à minha mãe. Era steak au poivre, beringelas recheadas, patés – que até hoje faço e são os melhores de Lisboa...- praliné, tarte de maçã e muitas outras receitas simples, mas que na altura não se encontravam facilmente em Lisboa. Quando eu dizia o que servia no restaurante, a minha família na Bélgica fartava-se de rir. Para nós eram pratos caseiros”.

 

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Os políticos sempre foram dos principais clientes. Nesta foto, da esquerda para a direita, Alfredo Barroso, António Barreto e João Soares

 

 Foi imediato o êxito do pequeno e acolhedor espaço (mobiliado inicialmente com móveis da família do marido de Vivianne) com pratos diferentes e atendimento simpático e descontraído, em grande parte justificado pela proximidade ao Parlamento, aos jornalistas da então Emissora Nacional, na vizinha Rua do Quelhas, e dos viajados professores do também vizinho ISEG. “Os jornalistas gostavam de marcar almoços com os políticos”, conta Vivianne Durieu, “e achavam graça aos pratos estarem em francês. Se eu escrevesse no quadro de ardósia ‘couve-flor gratinada’ ninguém ligava, mas se fosse “chou-fleur au gratin’ tinha logo muitos clientes...”, ri-se. À noite, os políticos davam lugar aos actores, músicos, gente da televisão. “Era a boémia noite fora” resume.

 

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Gente conhecida nunca faltava no pequeno restaurante. Nesta foto, Teresa Patrício Gouveia e Vasco Pulido Valente

 

Nesses anos, um nome destacou-se na cozinha, a transmontana Maria do Carmo, que vivia uma portas adiante do restaurante. “Era uma óptima cozinheira, mas só sabia fazer a cozinha dela. Mas quando eu lhe ensinei as receitas belgas, ela aprendeu logo e fazia muito melhor do que eu. Passado pouco tempo, empurrou-me logo para fora da cozinha e dizia-me: ‘vá lá falar com os seus clientes...”, recorda Vivianne Durieu. A “D.Maria”, como era conhecida, acabaria por ficar 25 anos na casa, só se aposentando por razões de saúde.

 

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 Ao jantar, apareciam os artistas e era "a boémia". Nesta foto, Rui Veloso toca para, entre outros, o actor Joaquim de Almeida e o músico Luís Represas

 

Os anos 90 marcariam várias mudanças, a começar pela entrada de um novo sócio, António Moita, que até hoje se mantém. “Eu tinha uma sócia francesa, que decidiu voltar para a França, e conheci o António no Atira-te ao Rio, onde a minha irmã Claudine era então chefe. Ele disse-me que sonhava em ter um restaurante e entendemo-nos logo. Além de tudo mais, o António trouxe o peixe para A Travessa, algo de que eu não sabia nada, porque ele vivia em Cascais e conhecia muitos bons pescadores”. Além de vários pratos de peixe, viriam também os célebres jantares de sábado com as tipicamente belgas “moules et frites” (mexilhões e batatas fritas), único prato que se servia nessas noites. Ainda hoje o prato é servido nas noites de sábado, mas já não em exclusivo. Também nessa década, um chefe francês, Edouard Golos, vindo do El Gordo, restaurante do Bairro Alto especializado em cozinha espanhola, iria introduzir, a jeito de tapas, uma série de pequenas entradas (camembert panado com molho de frutos silvestres, tâmaras com bacon, pimentos Pádron, cogumelos recheados, etc) que fariam furor na Lisboa gastronómica de então, sobretudo quando acompanhadas por cervejas belgas, que, entretanto, tinham começado a ser importadas.

 

Foto1.jpgJá depois da mudança para o Convento das Bernardas, António Moita, Sting e VIvianne Durieu. Sempre que vem a Lisboa, o cantor britânico faz questão de jantar n'A Travessa

 

Depois de uma tentativa de expansão para um Terreiro do Paço que começava a ser recuperado, A Travessa acabaria por mudar em 2001 para mais perto, para o Convento das Bernardas, que a Câmara Municipal de Lisboa tinha acabado de restaurar. “O antigo espaço já era demasiado pequeno, principalmente na cozinha, e quando pedimos à Câmara para fazer obras de ampliação eles propuseram-nos ir para o Convento. Foi um pouco arriscado, porque mais do que dobrámos o número de lugares e nem sempre os clientes mais fiéis gostam destas mudanças, mas acabou por correr tudo bem.  Afinal, quem é que não gosta deste espaço, com este claustro?”, interroga-se Vivianne Durieu, que, juntamente com António Moita, continua diariamente à frente do restaurante. Há seis anos, abriram também a Travessa do Fado, em frente ao Museu do Fado, em Alfama, com uma cozinha mais tipicamente portuguesa.

 

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 A sala do actual restaurante, que hoje também recebe muitos turistas e residentes estrangeiros

 

Actualmente, a “histórica” casa abre só para jantar e continua a receber muitos dos antigos clientes, mas também já os seus descendentes, algo que enche Vivianne Durieu de orgulho, a que se vieram juntar os numerosos turistas e residentes estrangeiros que se fixaram em Lisboa nos últimos anos. “Acho que vai ser uma bela festa, espero ver muitos dos nossos clientes dos primeiros anos, mas também os actuais. Para quem quase não sabia cozinhar e não percebia nada de restaurantes”, acho que não me saí mal”, conclui.

 

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publicado às 15:38



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