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O comentário da Paulina Mata no post anterior é talvez a melhor reflexão que vi publicada sobre a polémica do pastel de bacalhau com queijo da serra. Assim sendo, e não desmerecendo outras considerações oportunas que aí foram feitas, resolvi 'puxá-lo' para post uma vez que merece não ficar perdido numa caixa de comentários. Escreve então a Paulina:

 

 

"Confesso que estou boquiaberta com a polémica que esta declaração da Maria de Lourdes Modesto (MLM) originou. Mas ainda o estou mais com a polémica que este pastel originou.


Tive oportunidade, antes de terem surgido estas declarações da MLM, de falar com ela sobre isto. Era óbvio que a ideia do pastel de bacalhau com queijo Serra da Estrela não lhe agradava. Mas não era isso que a indignava. Como me disse na altura, quem tem um restaurante faz e vende o que entende. O que a indignava era um produto destes ser usado para promoção do nosso país e da sua gastronomia. Se lerem o texto com cuidado, o que é objecto de maior indignação é precisamente isto.


Comi pela primeira vez este pastel com queijo há cerca de um ano no Museu da Cerveja do Terreiro do Paço. Não era o verdadeiro pastel de bacalhau, ou antes era-o, mas tinha no interior um pedaço de queijo. Tendo o pastel um sabor discreto, achei que o queijo, com um sabor bem mais forte, se sobrepunha. Mas não tendo a expectativa de estar a comer um pastel de bacalhau, mas sim um pastel de bacalhau recheado com queijo Serra da Estrela até que não desgostei da experiência. O pastel é um pouco mais consistente do que muitos outros e o contraste com o queijo, e sobretudo com a sua cremosidade, é agradável.


Ouvi falar da loja que entretanto abrira, mas não a conhecia até há cerca de 10 dias. Passei na R. Augusta, tinha fome, e repeti a experiência. As conclusões foram as mesmas. A loja não vende só os pastéis recheados, vende também pastéis sem recheio. São caros de facto, mas são muito grandes.


Não gostei do brazão, a dar uma ideia de uma história que não têm, mas cada um escolhe o logo que quer e gosta. Gostei menos de nele estar escrito desde 1904. Tal como outras pessoas perguntei porquê, e também me falaram da receita que seguiam para a massa do pastel que tinha sido publicada nesse ano.


A loja tem alguns aspectos um pouco excessivos, não é discreta de todo, mas não tem que ser. E as coisas têm qualidade. Aliás devo dizer que quando lá cheguei estava perfeitamente indignada com a falta de qualidade em termos de oferta de alimentos e aspecto gráfico de tudo (ou quase tudo) o que existe na R. Augusta. Isso sim chocou-me (e não vejo o mesmo tipo de indignação com isso). Quando vi a loja dos pastéis, foi quase um oásis.


Não sei há quanto tempo fazem o pastel e o vendem no Museu da Cerveja, mas certamente fez sucesso. Decidiram abrir uma loja com este produto que, pela quantidade de clientes, faz ainda mais sucesso. Qual é o problema?

 

Compreendo a indignação da MLM, uma pessoa que muito considero e prezo. Nem sempre temos as mesmas opiniões, e aqui não temos (relativamente ao pastel). Relativamente à promoção do país e sua gastronomia é um tema mais complicado, e usar isto não é muito diferente do que muitos chefes fazem nesse contexto.


Desculpem-me André e Miguel, gosto muito de vocês e admiro-vos muito, mas acho que aqui meteram o pé na argola. O André a levantar suspeitas sobre a qualidade de produtos que não provou. Não é correto, deixar coisas destas no ar, não ajuda ninguém. Com os amigos, dizemos o que queremos, quando falamos para um público mais vasto há que ser mais rigoroso (e André, eu sei que o és…).


Quanto ao Miguel, que tanto defende a inovação e o risco, aqui também pede que alguém com poder tome conta disto? Quais são os critérios? Quem decide o que vale? Cuidado, não te vão impedir de usufruir da criatividade e risco de que tanto gostas…

 

Já agora o Pastel de Bacalhau recheado com Ovas de Salmão do Vitor Sobral (no livro “As Minhas Receitas de Bacalhau”) também devia ser proibido? Teria ele o direito de o fazer num jantar integrado nos eventos do Ano de Portugal no Brasil ?


Eu acho que sim, assim como acho que a loja dos pasteis de bacalhau recheados com queijo Serra da Estrela tem todo o direito de fazer o seu produto que tanto agrada.
Há espaço para tudo, e não é a proibir que dignificamos e defendemos a nossa gastronomia.


Ah! Já me esquecia… o bacalhau, que veio de outras paragens, não era lá muito considerado. Não dizemos nós “Para quem é bacalhau basta!”?


Felizmente veio, e tivemos criatividade para o cozinhar de 1001 maneiras, e felizmente essa criatividade continua. "

 

 

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O caso do "obsceno" pastel de bacalhau com queijo da serra 

 

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publicado às 13:45


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