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Há já alguns dias, tanto em Portugal como em outros países, diversos restaurantes têm vindo a anunciar a reabertura.  Uma reabertura cautelosa, respeitando as regras das autoridades de saúde, de modo a que o regresso seje feito com confiança e em que todos, clientes e funcionários, se possam sentir num ambiente seguro. As notícias têm sido, sobretudo, de restaurantes mais informais, havendo uma grande incógnita em relação aos de fine dining. Por cá, a este nível, o silêncio tem sido total (ou quase total), mas lá de fora começam a vir novidades que espelham bem os sinais dos novos tempos.

 

Ontem, a Eater London anunciava em letras gordas que o restaurante londrino Leroy, que ganhara uma estrela Michelin logo no seu primeiro ano de funcionamento, iria abrir temporariamente, com outro nome (Royale), apenas para vender frango assado para fora.

 

Hoje, foi a vez de Rene Redzepi anunciar que o famoso restaurante Noma, várias vezes considerado o melhor restaurante do mundo (W50Best), antes de reabrir como tal, abrirá como bar de vinhos e hambúrgueres. A notícia é dada pelo próprio na sua conta do instagram:

 

“Que tempos loucos e incertos. Copenhaga está prestes a reabrir os seus restaurantes. E o Noma também. No entanto, antes de reabrirmos o Noma como o conhecemos, vamo-nos transformar em bar bar de vinhos e hambúrgueres sem reservas – para passantes. Sentimos que, na primeira fase da reabertura, queremos estar abertos a todos. Precisamos de nos restabelecer, então, embora tomar um copo e um hambúrguer, estão todos convidados”.

 

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Vivemos mesmo tempos estranhos e incertos, em que cada um tenta definir a estratégia que melhor se lhe adequa. Porém,  por vezes, parece mesmo que está tudo ao contrário. Por cá, temos a informal Taberna da Rua das Flores a anunciar, compreensivelmente (devida à reduzida dimensão), que irá abrir já no próximo dia 18 de Maio, com reservas e por slots (12h, 13h, 14h e 15h, ao almoço; 18.30h, 20h e 21.30h, ao jantar), algo impensável ainda há seis meses atrás. Por outro lado, temos um dos mais exclusivos restaurantes do mundo a anunciar o oposto, numa primeira fase, e no sentido inverso ao que sempre fez.

 

Na verdade, Rene Redzepi andou sempre um passo à frente de todos os outros, inclusive na redefinição do que é um fine dining. E, por isso, se alguém poderia tomar uma decisão aparentemente tão louca era ele, ainda para mais numa cidade e num país onde a informalidade é regra. 

 

E o Guia Michelin, no meio disto tudo?

Para quem tem receios dos inspectores do Guia Michelin, parece que, a este nível, pode dormir descansado. Tudo indica que irão ser flexíveis enquanto toda esta confusão durar. Pelo menos é essa a leitura que se pode fazer do comunicado de “apoio sector gastronómico”, enviado há dias à imprensa (e que passou praticamente despercebido nos media), onde Gwendal Poullennec, director dos Guias Michelin, afirmava:

 

“A seleção internacional do Guia MICHELIN compreende 32 países, e, através dos nossos inspetores locais, avaliamos a diversidade e a dimensão da crise que estamos a atravessar. Em cada país afetado pela pandemia, as nossas equipas estão totalmente comprometidas para manter a comunicação essencial com o sector. Graças às nossas equipas, em cada região, estaremos na disposição de tomar as decisões apropriadas de acordo com o ambiente local, à medida que a recuperação vá tomando forma.

Porém, o que hoje gostaria de transmitir é que, onde quer que estejam, e independentemente do tipo de restaurante, trabalharemos em conjunto com as nossas equipas locais de inspetores de modo a que possamos assegurar-nos de que a situação regressa à normalidade da forma mais rápida e segura possível. Sabemos que o caminho de regresso à recuperação será gradual. Mas, por favor, podem estar seguros de que estaremos aqui para ajudar-vos a avançar a cada passo.

A razão de ser do Guia MICHELIN é recomendar restaurantes, não somos críticos. Sempre quisemos encontrar restaurantes que sirvam boa comida, descobrir novos talentos e aproximar estes restaurantes dos comensais que desfrutam da gastronomia. É o que sempre temos feito, e o que continuaremos a fazer, tendo em conta a excecional situação que atravessamos: durante o tempo que dure a recuperação, seremos flexíveis, sensatos, respeitadores e realistas; estaremos aqui para apoiar-vos, promover-nos, dar-vos a conhecer e motivar-vos." 

 

Com esta flexibilidade aparente, iremos ver uma casa de croque monsieur no Plaza Athénée, de Alain Ducasse? E, por cá, como vai ser?  

 

 

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publicado às 10:47



Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

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