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“Campo de Ourique é um bairro do caraças!” referiu-me uma vez Vítor Sobral, com um brilho nos olhos, quando há uns anos abriu o seu primeiro restaurante na zona e teve de imediato a adesão dos residentes. Mas hoje não é da Tasca, nem da Peixaria da Esquina que escrevo. Mas sim de um daqueles restaurantes familiares de bairro, de que esta parte da cidade é pródiga. Podia ter sido o Solar dos Duques, o Verde Gaio, ou o Magano, mas a escolha acabou por incidir no Coelho da Rocha, um clássico de Campo de Ourique, reaberto em 2015, pelas mãos dos irmãos Marco e Bruno Luís (os mesmos do Magano). A razão, ou a preferência (que não é absoluta) explica-se facilmente. As obras de reabilitação tornaram o espaço mais elegante, confortável e acolhedor, face à concorrência (aplauso para a iluminação, um campo sempre tão difícil de acertar nos nossos restaurantes), e a comida bate-se aos pontos, ou supera-a, no caso do que sai da grelha. Mas esmiucemos um pouco mais o assunto.

 

 

O Coelho da Rocha consegue oferecer de forma feliz num único espaço (na verdade em três, duas salas e um confortável balcão com uma dezena de lugares): petiscos, pratos de marisqueira e grelhados. Nos primeiros, há muito por onde escolher. Ou melhor, em parte nem é preciso, dado que quando nos sentamos logo nos colocam uma série deles à frente. Neste caso: uns saborosos cogumelos gratinados com maionese (sim, vão a gratinar com maionese. Sabe melhor do que soa); umas empadinhas de galinha - com um ligeiro gosto a desilusão, porque o recheio é maçudo, quando deveria ser mais leve e de carne desfiada; uma salada de polvo bem temperada e com o dito cozinhado no ponto (i.e. a oferecer uma ligeira resistência); um prato de viciantes torradas (finíssimas) alhadas e outro, de presunto ibérico, de bom aspecto, mas que se recusou e foi retirado, obviamente, sem qualquer contragosto. A política de colocar várias entradas na mesa sem serem pedidas é uma prática que não é pacífica, que continua a ser comum em muitos restaurantes. De facto é uma estratégia que faz vender e uma linha ténue entre o "empurrar" algo e o de prestar um serviço rápido a quem chega faminto.

 

Ainda nos petiscos, entre as três dezenas de propostas (que incluem os tais pratos que refiro serem de marisqueira), pedimos para completar o capítulo, uns ovos com espargos selvagens (cof, cof... de cultivo), bem feitos mas algo desenxabidos (este é um dos cozinhados em que pedir o sal disfarça mas não resolve), uns peixinhos da horta de polme perfeita, umas amêijoas à Bulhão Pato, grandes, deliciosas e confecionadas a preceito e, por último, uma das melhores gambas “à Guilho” (sic) de que tenho memória. Eram apenas meia dúzia e a receita até me pareceu fugir um pouco ao original (no molho). Porém, a qualidade da matéria prima e, de novo, a elaboração primorosa elevou-o a prato da noite, no que diz respeito aos petiscos. Éramos quatro e podíamos ter ficado por ali, que todos sairiam satisfeitos. Porém, era difícil resistir a experimentar algo da grelha. Pedimos o costeletão maturado no churrasco, que vem indicado para ara duas pessoas. Pode parecer caro (50€) mas dá tranquilamente para três (no caso até deu para quatro e ainda para trazer um pedaço para casa). E vale mesmo muito a pena. A peça suculenta, bem grelhada (mal passada, mas com uma capa protectora bem caramelizada) e raiada de gordura deliciosa é de comer e chorar por mais. Vale cada cêntimo. Não consegui obter grandes pormenores quanto à origem, mas pareceu-me de um animal bovino já com alguma idade e em que a maturação leve serviu para amaciar a carne e aportar complexidade de sabor, sem chegar às notas terciárias, nem sempre agradáveis para alguns, típicas de um dry aged mais prolongado.

 

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Salada de polvo, ovos mexidos com espargos, peixinhos da horta a à gambas “à Guilho”

 

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Amêijoas à Bulhão Pato

 

Como nem todos à mesa partilham da teoria dos dois compartimentos (a da gaveta própria para os doces, independentemente do que se ingeriu antes), apenas pedimos de sobremesa uma peça de fruta e um doce, sendo que a sorte não esteve do nosso lado. A manga não era grande coisa (nem de textura, nem de sabor) e o fidalgo ainda menos, dado que a “pele” de ovo, que reveste e entremeia este doce, estava demasiado espessa e dura, o que acabou por prejudicar bastante o conjunto. O que é estranho porque os doces conventuais (ou de tipo conventual) costumam ser bons por estas bandas.

 

Quanto aos vinhos, o Coelho da Rocha possui uma lista com boas escolhas, ainda que divididos de forma algo sui generis. Se nos brancos a distribuição até é razoavelmente equilibrada - Vinhos Verdes (16 referências), Douro/Trás-os-Montes (20), Dão (10), Bairrada (2), Lisboa/Tejo/Setúbal (7), Alentejo (12) - já nos tintos vão directo ao assunto, como quem parece querer dizer: “Ah a malta quer é vinhos do Douro e do Alentejo? Então são essas regiões que vamos colocar na carta. Ah e 2011 foi um grande ano? Então criamos uma secção só para vinhos dessas colheitas. E não colocamos tintos de outras regiões (sem ser os de 2011)? Ok, mete-se lá meia dúzia do Dão, mas chega. E tal como todos os outros nada de datas, que é para não ofuscar os 2011”. Valha-nos que há por ali algumas preciosidades, tudo (ou quase tudo) está guardado em garrafeiras climatizadas e os copos são apropriados. Até parece estarem a par das novas tendências dado que o empregado perguntou se queríamos flutes, ou os copos de branco que já se encontravam na mesa, para o espumante que pedimos, o agradável e descomprometido 3B de Filipa Pato. Também pode ter sido uma pergunta comodista, para evitar trabalho acrescido, mas quero crer que não, até porque o serviço é bom, por estas bandas. Correcto, eficiente e caloroso, à imagem do que é habitual nos melhores restaurantes do género.

 

O Coelho da Rocha é um daqueles lugares onde queremos ir quando queremos estar num ambiente familiar, com uma comida mais petisqueira, ou de conforto, confeccionada com bons ingredientes. Campo de Ourique é de facto um belo bairro.

 

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 Costeletão de boi maturado

 

Preço médio: 35€ (pax, com bebidas).

 

Contactos: Coelho da Rocha 104, Lisboa | Tel: 21 390 0855 | Horário: 12:00 a 15:30, 19:00 a 23:00 (encerra ao domingo)

 

 

Classificação:

 

Cozinha: 17 ; Sala:17; Vinhos:16

 

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos de Maio. Fotos: E-konomista (entrada) e Miguel Pires

 

 

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publicado às 09:00


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