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Muito se tem falado do boom no imobiliário de luxo que tem trazido uma nova dinâmica a determinadas áreas centrais de Lisboa e Porto. No caso da capital, a Avenida da Liberdade há muito que era o endereço favorito de alguns dos melhores hotéis, lojas de grandes marcas e, mais recentemente, habitação (ou de investimento ligado ao sector). Não é de estranhar, por isso, que quando a Amorim Luxury decidiu abrir o JNcQUOI, o seu primeiro espaço ligado à restauração, tenha escolhido para se instalar esta zona da cidade onde já tinha algumas lojas.

 

 

Na verdade, o JNcQUOI (lê-se Je ne sais quoi) reúne um conjunto de actividades que vão muito para além de um simples restaurante. Em dois andares, numa parte adjacente ao Teatro Tivoli, o grupo criou um espaço que engloba o restaurante, loja de roupa, livraria, loja gourmet, garrafeira, “delibar” e uma área de pastelaria fina da casa francesa Ladurée. Para mais tarde, no terceiro andar, está previsto ainda um hotel, dentro do mesmo conceito.

 

No Delibar, no piso de baixo, a carta é mais simples, já no restaurante, no andar superior, o assunto é mais sério e elaborado. Num e noutro promete-se um luxo acessível (“elitismo para todos”) e hospitalidade (“os turistas são tratados como locais, os locais são tratados como hóspedes”), como se pode ler no site do local.

 

Chegando ao restaurante é impossível ficar indiferente à arquitetura e decoração do interior, da responsabilidade do arquiteto catalão Lázaro Rosa-Violán (autor do mega espaço de restauração El Nacional, em Barcelona), que trouxe a esta antiga sala do teatro Tivoli, o lado cénico clássico e romântico dos seus espaços, mantendo pormenores, como os restaurados frescos que já existiam nas paredes, e acrescentando objectos e detalhes, como a impressionante réplica à escala real de um dinossauro velociraptor, que já se tornou o ícone do espaço. Além do mais, o aproveitamento da luz que entra pelas janelas rasgadas, o desenho da sala, a disposição das mesas e parte da cozinha aberta contribuem - como contrapeso a uma certa opulência - para tornar o espaço num local acolhedor.

 

pormenor da sala.jpg

pormenor da cozinha aberta para a sala 

 

Mas passemos à comida. Num lugar com estas características poderia esperar-se um restaurante de fine dining com uma proposta autoral mais vincada. Porém, o caminho escolhido foi outro, o de uma cozinha intemporal, portuguesa e estrangeira, que convida à partilha. Para materializar o conceito foi contratado António Boia, um chef experiente, que apresenta uma carta dividida em entradas, saladas, clássicos, carnes, peixes & mariscos, massas, e arrozes. Aqui podemos encontrar desde um caviar beluga ou oscietra (30gr) com blinis, até a um piano de entrecosto caramelizado com guisado de favas, passando por um ceviche de robalo ou um linguado ao Meunière. É natural que o leitor torça o nariz a uma cozinha que tenta jogar em vários tabuleiros e que lhe pode lembrar a carta de um restaurante de hotel (de cadeia internacional) onde raramente se come muito bem. Todavia, não nos precipitemos com julgamentos precoces. No JNcQUOI é pouco provável que se depare com algo criativamente muito excitante. Porém, encontrará uma mão cheia de pratos bem elaborados e com produtos de qualidade. Foi isso que aconteceu num Sábado de final de Agosto, ao almoço. Talvez porque o período ainda era de férias e o tempo convidava à praia, a sala, embora longe de lotar estava bem composta, com famílias nacionais e estrangeiras em modo descontraído.

 

De entrada pedimos uma salada de caranguejo do Alasca e um gaspacho com sapateira. No primeiro caso, o vinagrete de trufa causou apreensão e por isso pedimos que viesse à parte. Porém, o molho integrou-se bem com a alface crocante, sem tirar protagonismo ao caranguejo. Já quanto à sopa fria é de registar a sapidez e elegância da base triturada de tomate, pimento e pepino. É verdade que a quantidade de carne de sapateira desfiada que vinha sobre uma torrada de pão poderia ser mais generosa, mas tal como a salada, também a sopa passou com nota positiva – ainda que tanto numa como noutra tenha escapado um pequeno pedaço da casca dos crustáceos, algo que não deveria acontecer.

 

Nos pratos principais a paletinha de cabrito à portuguesa com arroz de forno e grelos estava sublime. A cocção por várias horas, a baixa temperatura, deu à carne a suculência e uma textura de desfiar à colher. Por outro lado, o tempero e a pele tostada trouxeram aquelas nuances de sabor de casa da mãe que tanto aprecio – algo que é extensível ao igualmente bem tostado arroz de forno. Antes da carne houve ainda um promissor arroz de lavagante e garoupa, caldoso, bem aberto e justo nos ingredientes do mar. Poderia ter um sabor mais puxado, todavia, como me disse no final o chefe de serviço quando veio às mesas, o arroz é elaborado com caldos de peixe e de lavagante numa proporção 50/50, de forma a que o sabor do marisco não se sobreponha ao do peixe. A justificação pareceu-me plausível pelo que quem pretenda um sabor mais mariscado, aconselha-se que solicite antes a bisque de lavagante, por exemplo.

 

Mesmo visivelmente satisfeito ainda houve espaço para a sobremesa. Até porque é difícil resistir quando a empregada chega com a bandeja repleta e se sabe que há por ali a mão do chefe pasteleiro Joaquim Sousa. Imaginem, o desfile: oito doces franceses Ladurée, dois da doçaria nacional - um pudim abade de Priscos e um pão de ló molhado - e um internacional cheesecake com alperce. A opção por este último pode parecer estranha. Não era o vencedor em termos de apresentação e mesmo para um individuo guloso um cheesecake raramente é algo que deslumbre. Mas há coisas que o instinto não explica e ainda bem. A textura cremosa, que resulta não apenas do queijo creme mas sim da sua mistura com nata batida; a base arenosa feita na casa com farinha e boa manteiga, bem diferente das bases de bolacha de compra; o coulis de alperce com os seus pedaços de fazer esquecer a compota industrial (e mesmo as caseiras)... tudo bem integrado, sem excessos de doçura e com os sabores bem definidos. Se não isto a perfeição em forma de sobremesa, anda lá perto.

 

Em termos “etílicos”, encontramos na carta cerca de uma dúzia de cocktails e mais de 130 vinhos. Nestes últimos, há algumas referências menos óbvias e algumas escolhas mais ou menos acessível. Porém, acima de tudo, predominam os nomes mais conhecidos e, entre eles, vários rótulos famosos, do Barca Velha ao Romanée Conti, do Vega Sicilia, a vários 1er crus de Bordéus. A copo, encontramos pouco mais de meia dúzia de brancos e outro tanto de tintos, o que é manifestamente pouco, sobretudo em termos variedade. O domínio é do Douro, há um cheirinho a Alentejo e pouco mais. Contudo, tenho de enaltecer a atitude do escanção, o brasileiro Pedro Ramos, que se prontificou a abrir uma garrafa de Soalheiro Primeiras Vinhas 2016 quando lhe perguntei se o poderia servir a copo. Como esperava, este alvarinho mostrou-se fresco e com a estrutura necessária para acompanhar os vários pratos do mar. Para o cabrito, Pedro Ramos sugeriu um D. Maria Amantis 2012, um tinto elegante e de robustez média que harmonizou bem com a carne.

 

Por último, em relação ao serviço, o atendimento foi prestado com simpatia e prontidão, ainda que num ou outro detalhe, se tenha notado alguma falta de treino, algo que os responsáveis do restaurante deverão ter em conta.

De um modo geral, e baseado nesta experiência, não posso deixar de recomendar o JNcQUOI. Não será propriamente um “elitismo para todos”, como vem na brochura, mas vá lá, para quase todos.

 

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arroz de lavagante e garoupa

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paletinha de cabrito à portuguesa com arroz de forno

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oito doces franceses Ladurée, dois da doçaria nacional - um pudim abade de Priscos e um pão de ló molhado -  e um internacional cheesecake com alperce

 

 

Preço médio por pessoa: 50/60 euros (com bebidas). Pagou-se por esta refeição 134€, duas pessoas.

 

Contactos:

 

Av. Liberdade, 182-184 Lisboa. Tel: 219 369 900, bookatable@jncquoi.com

 

Restaurante: segunda a sábado 12h00-24h00. Encerra ao domingo

Delibar: segunda a quarta, 10h00-24h00; quinta-sábado, 10h00-02h00

 

Classificação: Cozinha: 17 ; Sala: 16; vinhos: 16.5

 

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos nº334 (Setembro). Fotos: JNcQuoi (Facebook) e Miguel Pires (pratos)

 
 
 
 

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publicado às 22:53


3 comentários

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De Anónimo a 13.12.2017 às 19:57

Esta é uma boa notícia para esta altura do Natal...
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De Martinho Cruz a 14.12.2017 às 19:49

Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....
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De Miguel Pires a 14.12.2017 às 20:45

Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

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