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Com tanto frenesim à volta da figura do chefe de cozinha, quase nos esquecemos que sempre existiram cozinheiras e cozinheiros autodidactas talentosos, chegados ao mundo da restauração por ligações diversas, casualidade, ou desejo de mudança de vida. Dois bons exemplos recentes (um mais recente do que o outro) marcam pontos no Ribatejo, com poucos quilómetros entre si. Rodrigo Castelo, da Taberna Ó Balcão, em Santarém, é mais conhecido, mas o seu amigo Alexandre Albergaria Diniz, do Cisco, em Almeirim, começa a seguir-lhe os passos.

 

 

Alexandre era ferrador de cavalos e tinha queda para os tachos, pelo que um dia a mulher o inscreveu num concurso de televisão (a Guerra dos Pratos, no 24 Kitchen). Não ganhou (ficou em 3º lugar), mas saiu de lá com o bichinho e a vontade de abrir um restaurante de cozinha tradicional portuguesa, na sua cidade natal, algo que se viria a concretizar, em Maio de 2016.

 

Almeirim é conhecida pela sopa da pedra, porém, neste espaço, situado numa das ruas principais da povoação, Alexandre Diniz vai muito além da cozinha local, assim como o espaço, com decoração sóbria, elegante e mesas bem atoalhadas, foge à ornamentação típica de muitos restaurantes regionais.

 

Em termos de carta, a oferta resume-se a uma única página¸ o que não é mau sinal, pois mais vale fazer bem poucos pratos do que medianamente uma catrefada deles. Por exemplo, nas entradas, num dos domingos de Novembro em que lá estivemos, além do pão, da manteiga caseira, das (óptimas) azeitonas temperadas, do queijo seco e do presunto pata negra, havia apenas um ou outro petisco cozinhado e que apareciam sob a denominação “sugestão do chefe”. Depois, tinham um prato do dia, duas sopas, uma de legumes e outra, claro, “da pedra”. Nos principais, a cozinha de tacho e as frituras impunham-se, numa oferta que incluía seis pratos de peixe e oito de carne, todos com acompanhamento - ainda que estes tenham direito a um capitulo próprio na ementa para que possam ser pedidos à parte, como extra, presume-se. Por fim, meia dúzia de sobremesas complementavam a oferta.

 

Cisco_entradas (1).jpg

 

Aceitámos a “sugestão do chefe”, que na verdade eram duas: uns ovos com farinheira cremosos e bem sápidos, a revelar a qualidade da matéria prima e cuidado na confecção; e duas empadas de lebre de recheio rico, abundante e sabor intenso, que só pecaram por algum excesso de humidade que empapava a base da (boa) massa e um toque de cravinho a mais. 

 

Não é difícil perceber o porquê do prato de filetes de peixe galo ter tanta saída. O aspecto tentador, que nos fez pedi-lo só de o ver passar, é uma boa razão. Todavia, o factor “huuuuum”, de aprovação, cada vez que alguém dava uma dentada, reforçava ainda mais a vontade. E de facto entende-se: a mestria na fritura e a forma como a capa de pão ralado (bem ligada e crocante) protegia o filete, deixando o peixe húmido por dentro, era de letra! - fez-nos até esquecer o azar de nos ter saído na rifa uns grelos (no arroz) mais amargos do que se desejaria.

 

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os famosos filetes de peixe galo 

 

Ainda no lado do mar apreciou-se o polvo guisado que chegou à mesa num bonito tacho de cobre. Aliás,  aproveito para fazer um parêntesis e elogiar o cuidado na apresentação. Como se sabe, as cozinhas tradicionais não são dadas a grandes primores estéticos, porém, os olhos também comem e num lugar com um estilo mais cuidado, aprecia-se o esmero. Mas voltando ao “polvo no tachinho” (assim vem mencionado na carta), digamos que o dito tinha tudo para agradar: o tempero, a qualidade e a confecção, que o deixou no ponto que aprecio – tenro, mas com uma ligeiríssima resistência.

 

O capítulo das carnes não ficou atrás do anterior. Primeiro veio um rabo de boi à maneira, cozinhado o tempo suficiente (ou seja, muito) para permitir que o colagénio se fundisse e a carne se desfiasse sem oposição à entrada do garfo. Chegou acompanhado de puré de batata com um dispensável óleo trufado - sei que é algo que agrada a muitos, mas parece-me desnecessário a utilização de um tempero de aroma artificial, sobretudo num restaurante que respeita o produto.

 

 

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Costeletas de borrego, rabo de boi estufado, esparregado e puré de batata trufado

 

Não queria abusar da adjectivação, até porque ainda me falta falar do leite creme, mas “maravilhosa” é a palavra que me ocorre para descrever o momento seguinte à primeira dentada numa das costeletas de borrego com alecrim e mel na frigideira, o segundo prato de carne que pedimos e que foi acompanhado por um esparregado a preceito. As costeletas de grande qualidade foram cozinhadas de forma competente, tostadas por fora, com o interior rosado, e servidas com o próprio molho, com todos os elementos bem integrados.  

 

Chegados à sobremesa descobrimos (na verdade já sabíamos) que havia um “hit” ainda mais famoso do que os filetes de peixe galo: o leite creme. O segredo, parece estar na harmonia entre a base, cremosa e equilibrada na doçura, e a capa fina de açúcar queimado no topo, à antiga, com um ferro quente (ver imagem de abertura). Parece redutor dizer isto, até pelo que foi descrito nos parágrafos anteriores, mas só por esta sobremesa já valeria a pena a deslocação. Ah e deixo um conselho: se alguém lhe pedir para partilhar, não aceite.

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Alguém pediu um leite creme bem queimado? 

 

Em termos de vinhos, o Cisco não é um daqueles restaurantes que gostam de mostrar uma garrafeira farta cheia vinhos troféu. É verdade que a sua lista poderia contemplar mais regiões (como o Dão, ou a Bairrada, por exemplo, que vão bem com a mão do chefe com queda para tempero). Porém, acima de tudo, a oferta parece adequada ao conceito do restaurante: privilegia naturalmente os vinhos das redondezas, com cerca de metade das 60 referências a virem da região do Tejo, mas inclui igualmente rótulos de outras paragens, como Alentejo, Douro, Lisboa e Vinhos Verdes. De resto, disponibilizam copos correctos e praticam preços muito interessantes. A refeição foi acompanhada com um Quinta do Mouro 2011, um alentejano de Estremoz com boa estrutura, que conjugou bem com os pratos de carne e com o polvo, mas também dotado de uma elegância que se adequou aos filetes de peixe galo.

 

Quanto ao serviço, em domingo de casa cheia, notou-se alguma lentidão, mais por dificuldades de vazão da parte da cozinha do que falta de atenção da sala. De facto, fomos atendidos com simpatia e eficiência, o que não é nada mau se tivermos em conta que esta é uma área que está a atravessar um momento complicado, devido, entre outras questões, à falta de pessoal e à enorme pressão do turismo.

 

Preço médio por pessoa: 25/30 euros (com bebidas). Pagou-se por esta refeição 142 euros, 4 pessoas.

 

333400.jpg

 

Contactos:

 

 Rua do Coruche, 121 A, Almeirim. Tel. 243 595 063.

 

Aberto de terça a sábado das 12.00h às 15.30h (almoço) e 19.00h às 23.45h (jantar). Domingos: 12.00h às 15.30h  (almoço)

 

Classificação: 17 ; Sala:16.5; Vinhos:15.5

 

 

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos Nº337 (Dezembro 2017); fotos: Miguel Pires excepto a primeira e a última, que foram retiradas do Facebook do restaurante

 

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publicado às 19:00


1 comentário

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De Duartecalf a 17.02.2018 às 11:18

Estive uma vez no Cisco e gostei muito.
Aprecio sobretudo que o Alexandre tenha querido lançar um restaurante de cozinha tradicional sério, resistindo aos pratos e técnicas da moda.
São diferentes no estilo mas ele e o Rodrigo Castelo são bons embaixadores do Ribatejo em especial mas da cozinha portuguesa em geral também.

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