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Num texto anterior, referi que a restauração do Porto tem vindo a mudar havendo cada vez mais opções e novos interpretes. A afirmação vinha a propósito do Almeja, sobre o qual escrevi nesse número, mas também (ainda que não o revelasse) do Esquina do Avesso, que não sendo propriamente na cidade do Porto, se situa na sua área de influência.

 

 

Este espaço, o primeiro do empresário Ricardo Rodrigues - que abriria posteriormente na região a Sushiaria e o Terminal 4450 -, começou por ser uma casa de petiscos, uma fórmula fácil que costuma ser uma rampa para o sucesso, mas que nem sempre dá certo. Foi o que aconteceu com o projecto inicial, criado em 2012, na altura com o nome Taberna da Esquina, que não resultou, segundo referiu o empresário em entrevista ao site Etaste, pelo facto de a zona “estar inundada de muitos restaurantes iguais”. Porém, em finais de 2015, Ricardo Rodrigues resolveu mudar conceito e oferecer uma cozinha de autor contemporânea, contratando para o efeito o chefe Nuno Castro que se encontrava no BH Foz (e que passara antes no Cafeína, e Buhle). O inicio não terá sido fácil, mas com o passa a palavra e a ajuda das redes sociais, o restaurante agora reconvertido em casual fine dining começaria a dar que falar. E percebe-se porquê: o espaço de decoração vintage é agradável, os empratamentos de cozinha de autor são fotogénicos, a ousadia apreciada e o preço acessível.  

 

Por coincidência, quis o destino que o autor destas linhas acabasse por ir aos dois restaurantes no mesmo dia: ao Almeja, ao almoço, e ao Esquina do Avesso, ao jantar. Os dois locais têm personalidades diferentes, mas em termos gerais diria que se o primeiro é jazz, dentro do tom, com um toque “free”, o segundo é rockn’roll e bola para a frente, com o que isso tem de bom e de menos bom.

 

De bom, porque Nuno Castro tem garra e prefere arriscar com pratos que revelam uma boa dose de ousadia, do que afinar pelo diapasão de apresentar algo que é mais do mesmo. O reverso, é que dá a impressão de ter pressa de mais em resolver as coisas (em criar, em cozinhar, em empratar, em servir), o que acaba por trazer alguma inconsistência à proposta. Também me deu a sensação que se simplificasse os empratamentos (que têm sempre uma certa complexidade, com várias técnicas e diversos elementos no prato), seria mais fácil consolidar a sua cozinha, até porque está num lugar informal e descontraído.

 

O curioso é que o menu até é bem descomplicado. Não há praticamente distinção entre entradas e principais, nem grandes descrições. Os pratos têm nomes telegráficos tipo “pato beterraba e cacau”, “cavala, pepino e maçã”, “codorniz, abóbora e tamarindo”, “garoupa, raviolis e bisque”, só para dar como exemplo, os escolhidos nesse jantar.

 

Mas vamos a ele. Sábado à noite, 20.30h, casa ainda em vias de encher. Indicam-me uma mesa alta da sala de entrada. Mesa alta, hum.... Existe uma outra sala mais interior e um mezanino em cima com mais lugares. Parecem-me mais aconchegantes, mas até que a mesa alta não é desconfortável. A carta tem catorze propostas salgadas (entre os 8,50€ e os 13€) ideais para partilhar, quatro doces (6 – 7 €) e uma introdução, que fala de um lugar de “comida contemporânea”, em que se promovem “fusões de sabores, assentes em produtos frescos e de época (...) numa descoberta constante”, bem como de “uma mutação diária que resulta de uma inquietação permanente e quase insaciável”.

 

Chega “pato, beterraba e cacau”. Prato frio (em noite fria) com o pato a apresentar um agradável toque apimentado por fora, mas com o interior mais para o cru do que para o rosado, logo a oferecer demasiada resistência ao mastigar. Também faltou ligeireza e um elemento contrastante para combater a doçura a triplicar, i.e,  da carne, do puré de beterraba e do gelado de queijo de cabra que acompanhava. Havia o toque amargo do cacau e um bom confronto de texturas a quebrar a monotonia, mas até o avinagrado pickle de beterraba era mais adocicado do que devia.  

 

De seguida veio outro prato frio, que na verdade, devia ter vindo antes, “cavala, pepino e maçã”, uma ligação conhecida que funciona sempre bem, como foi o caso, que incluía ainda uma emulsão de clorofila e um “twist” interessante de pó de azeitonas pretas. Já o terceiro prato trouxe-nos algo aparentemente mais clássico: “garoupa ravioli e bisque”.  O peixe vinha no ponto e os mexilhões que acompanhavam eram bons. Porém, pediam um creme mais delicado, até porque os ravioli (de massa demasiado grossa) recheados, ao que apurei, com salmão, corvina e cavala eram no mínimo controversos. Ainda houve espaço para experimentar um prato de carne, ainda que as doses generosas dos três pratos anteriores fossem mais do que suficientes para um estômago normal. A escolha recaiu na “Codorniz, abóbora e tamarindo”, uma proposta saborosa e de encher as medidas e a pender novamente para o adocicado, mas desta vez de forma equilibrada.

 

Finalizado o capítulo (alegadamente) salgado, a questão que se colocava era se Nuno Castro iria surpreender alinhando na onda das sobremesas pouco gulosas que cada vez mais se vêem nos restaurantes de autor. Ah... esqueçam lá isso. O homem é do doce e neste parágrafo até votaria nele se não se tivesse “esticado” novamente. E assim, quer o supostamente fresco “limão, maracujá e coco”, quer o pesado cheesecake de manteiga de amendoim pareceram-me pouco meigos no palato – ou talvez a intolerância ao (demasiado)doce me tivesse tolhido o discernimento.

 

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No que diz respeito aos vinhos, o Esquina do Avesso está bem servido, com propostas a preços sensatos de casas mais conhecidas e também de pequenos produtores, pouco falados e cujos vinhos merecem ser mais bebidos, como é o caso dos durienses Mapa, de Pedro Garcias (ainda que o que tenhamos bebido - a copo - tenha sido apenas o seu correcto branco de entrada de gama, de 2016) e dos de Luís Seabra (que também se estendem à região dos Vinhos Verdes) de que bebi o seu leve mas cheio de personalidade Xisto Ilimitado tinto de 2015.

 

Uma última nota para falar do serviço, que não foi nem demasiado diligente nem teve grandes faltas. Ou seja, correu dentro do que espero neste tipo de espaços mais descontraídos: com soltura, simpatia e correcção.

 

A ousadia e os preços democráticos têm feito do Esquina do Avesso um caso de sucesso.

Poderia então dizer que em tática que faz ganhar não se mexe? Talvez. Depende das ambições e da Liga em que se quer jogar, dado que potencial para ir mais longe existe. Só falta uma certa dose de discernimento.

 

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O Chefe Nuno Castro

Esquina_do_Avesso_sala.jpg 

 

Preço médio por pessoa: 30/35€ (com bebidas). Pagou-se por esta refeição 68.50€.

 

Contactos: R. Santa Catarina 102, Leça da Palmeira; Tel: 912 286 521; Horário: Terça a domingo, 12:30h - 15h; 19:30h - 23:00h

 

Classificação: Cozinha, 16; Sala:16; Vinhos:16

 

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos de Março 2018. Fotos: equipa, chefe e sala: retiradas do facebook do restaurante; pratos: Miguel Pires

 

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Crítica Gastronómica - Restaurante Almeja (Porto): Sabor, sensibilidade e bom senso

 

 

 

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publicado às 22:56



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