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Já não se pode conversar à mesa?

por Duarte Calvão, em 02.01.19

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Antigamente, a resposta era “temos ordens da gerência”. Agora, é “o conceito”. Pode fechar/abrir a janela porque está muito frio/calor? “Eu, por mim, até o fazia, mas o conceito do nosso restaurante não permite”, responde o empregado/a a quem nos dirigimos. É possível pôr mais uma cadeira à cabeceira da mesa, porque afinal vem mais uma pessoa? Pode servir-me o whisky num copo baixo? Pôr a garrafa de vinho ao alcance, porque senão tenho sempre que estar a pedir-lhe para encher os copos? A resposta é sempre a mesma, o tal do “conceito” é rígido que se farta e obriga a manter o incómodo ao cliente, por muito que o restaurante goste de se afirmar mediaticamente como “descontraído” e “informal”. Mas nada hoje me afecta tanto nos restaurantes quanto a música excessivamente alta, a ponto de não conseguir conversar à mesa senão aos berros. E não adianta pedir para baixar - ou, em último recurso, optar por música mais calma - porque respondem invariavelmente que “já está programado” e não há nada a fazer.

 

A título de exemplos recentes, n’O Talho, de Kiko Martins, fiquei debaixo de uma coluna de som e não conseguia ouvir o que diziam as pessoas do outro lado da mesa. Como não havia outras mesas livres, pedi para baixarem o volume, mas lá veio o “conceito" e o "está programado assim, não dá para alterar". Já estava a pensar se não era melhor ir embora quando, felizmente, não sei porque artes mágicas, lá conseguiram baixar o volume e pôr uma música menos estridente, o que me permitiu ter um óptimo jantar num restaurante de que muito gosto. No Jamie’s Italian, mesmo pedido, mesma resposta, mas consegui mesa no terraço e lá me safei, com aqui descrevi. No Coyo Taco, recentemente aberto pela Multifood, não houve nada a fazer. Ainda por cima, além da música alta, um janelão escancarado deixava entrar um vento frio. Com grande pena minha, porque estava bastante curioso de experimentar os pratos mexicanos, lá tive que me ir embora, deixando-os inabalavelmente fiéis ao seu “conceito”.

 

A verdade é que julgo que não há nada a fazer, porque nos três casos que citei (e podia citar vários outros em Lisboa) as casas estão sempre a abarrotar e quando olho em volta não vejo mais ninguém incomodado, pelo contrário. Mas há alguma esperança porque um amigo meu bastante viajado garantiu-me que em Nova Iorque (onde o “conceito” da música aos berros terá surgido no final dos anos 90 nos restaurantes de Mario Batali e David Chang) a moda já passou. Mas em Londres ainda não, diz-me o mesmo amigo. Ou seja, sendo optimista, talvez daqui a uns 10/15 anos o conceito de conseguir conversar à mesa fique outra vez na moda em Lisboa.

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publicado às 15:13


16 comentários

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De Artur Hermenegildo a 02.01.2019 às 15:46

Quando um restaurante tem "conceitos" que se sobrepõem aos clientes, claramente, resta aos clientes deixarem de o ser.

Felizmente para esses "amantes de conceitos", as pessoas em Portugal são pouco exigentes.

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De Anónimo a 02.01.2019 às 16:02

Beber num copo em vez de um jarro de compota de framboesas também não era mau, ou umas batatas fritas não doces, sem casca e ervas
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De TB a 02.01.2019 às 20:30

Um artigo interessante sobre este assunto: https://www.theatlantic.com/technology/archive/2018/11/how-restaurants-got-so-loud/576715/
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De Anónimo a 03.01.2019 às 07:05

É a mania de copiar. Os mestres estão no Algarve. Tudo igual. Restaurantes com os mesmos menús e que a partir de determinada hora viram bares dançantes/discotecas.
Não existe um critério de escolha, com personalidade, com crítica.
Apenas se copia o que num determinado sítio teve sucesso.
Preguicite aguda...

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De Adriano a 03.01.2019 às 10:27

Por acaso no meu restaurante, tenho constantemente de dizer para baixar a musica. A minha teoria é que tem a ver com os empregados de mesa, profissão em crise como muitas vezes aqui relatado, que confundem o propósito da música num restaurante. A música deve lá estar baixinha só para aquecer um pouco o ambiente, soltar as pessoas para a conversa. Não serve para fazer companhia ao empregado de mesa enquanto trabalha. Pelo menos não neste contexto.

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De Anónimo a 03.01.2019 às 11:14

E a ditadura do "conceito' traduz-se, igualmente, na dificuldade de adaptar um prato ou alterar um acompanhamento para corresponder a uma qualquer preferência do cliente. Um destes dias, o pedido de uma salada extra no Palácio Chiado quase levou à loucura os pobre empregados que servíam a mesa.
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De Anónimo a 03.01.2019 às 16:30

Tem toda a razão D. Galvão.Mas acrescento que alguns portugueses a viver no estrangeiro sentem a falta do "nosso barulho". Ahahah.
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De Manuel a 03.01.2019 às 18:06

Por acaso, no mês passado, estive num restaurante em Bragança, por sinal muito agradável, mas cheio desses conceitos, em que a empregada ficou muito embaraçada quando lhe pedi para deixar a garrafa de água na mesa, o que me foi recusado. Levantei-me e fui buscá-la. E mais, disse-lhe que se o encarregado/responsável não gostasse, bastava que me viesse dizer. Não veio e a garrafa ficou na mesa.
No restaurante de Tapas do El Corte Inglés em Lisboam, há uns bons anos, escolhi um prato mas pedi para vir com legumes em vez de batatas. Foi recusado. O melhor é que se podia encomendar os legumes como dose à parte.
Chamei o encarregado que voltou a recusar. Retorqui que queria encomendar a dose de legumes. Veio o prato com as batatas e o extra de legumes. Solicitei um prato extra que ficou no esquecimento. Levantei-me, fui a uma mesa sem ninguém retirei um prato, despejei as batatas no dito. Chamei o empregado e pedi para o levar.
O conceito é o cliente e, desde que não seja malcriado, não afecte o funcionamento do restaurante é quem manda.
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De Anónimo a 03.01.2019 às 18:17

Caro Duarte, como eu gostei deste seu post! Já escrevi que não como "conceitos" e num restaurante procuro boa comida mas, não chega. Há um conjunto de elementos que nos criam o conforto e infelizmente muitos desconfortos. Ontem mesmo, entrei num restaurante e cinco minutos depois saí quando percebi que a música ao vivo nos impedia de conversar. Continuo a considerar uma refeição como uma ato convivial.
Um abraço
Virgílio Nogueiro Gomes
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De Anónimo a 04.01.2019 às 15:37

Já agora porque não fazermos todos os restaurantes iguais? Com os pratos e com os vinhos que gostam? Com a música que gostam? Com o preço que acham justo? Com a decoração que mais se identificam?

Seria com toda a certeza muito interessante, era como ter o Kamasutra apenas com a missionário.

Os restauradores fazem o que querem fazer com o restaurante/conceito e o cliente pode escolher se vai ou não vai, simples. Ainda por cima com a informação que existe hoje, só vai ao enganado no "conceito" quem quer.

Vivemos na era da máquina fotográfica digital, onde todos podem ser fotógrafos, restauradores, jornalistas, críticos de arte e de moda, para não falar de gastronomia.

Qualquer dia entramos num museu para ver uma exposição e só porque não gostamos do/a artista decidimos mudar as peças de sitio, ou então, se uma instalação qualquer tiver um som que não gostamos, achamos que podemos mudar as coisas.

Eu acho que por vezes falamos demais, dizemos coisas (dizemos não! Escrevemos, porque todos se escondem atrás de um monitor e na realidade poucos são os que têm coragem de falar e quase sempre armam-se em politicamente corretos.) só para não estarmos calados e termos o nosso direito de antena em espaços cor de rosa.

Fossem vocês restauradores, para vermos se não abriam algum restaurante com um conceito para a frentex.
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De Duarte Calvão a 04.01.2019 às 15:51

Gostei especialmente, caro Anónimo, da parte em que refere que "todos se escondem atrás de um monitor".
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De belitaarainhadoscouratos a 07.01.2019 às 10:34

AHAHAHAHAH, foi também o que achei, cheio de moral
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De Artur Hermenegildo a 07.01.2019 às 16:59

Há muito que acho que comentários de "anónimos" não deviam ser aceites.

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