Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Kiko Martins abre Boteco no Chiado

por Duarte Calvão, em 04.11.19

kiko_boteco.jpg

 

Gosto muito dos restaurantes de Kiko Martins e assim que soube que ele, finalmente, tinha aberto O Boteco, na passada sexta-feira, apressei-me a ir lá ver como era. Tanto mais que era dedicado aos petiscos típicos dos botequins cariocas, chamados “botecos”, e eu vivi a minha adolescência no Rio de Janeiro, voltando lá de tempos a tempos. Foi no domingo ao almoço e não fiquei nada desiludido. Nem com a comida nem com o espaço, situado em pleno Largo Camões, na esquina com a Rua das Gáveas, onde antes existiu um antiquário. A sua transformação em restaurante, que implicou uma remodelação profunda, terá justificado a demora na abertura. “Logo depois de abrir a Cevicheria, há cerca de quatro anos, quis abrir este restaurante, mas as coisas demoraram mais do que pensava”, disse-me Kiko Martins, que estava lá a “meter a mão na massa” e que nasceu no Rio de Janeiro, de família portuguesa, vivendo na cidade até aos sete anos de idade. Aliás, não é preciso puxar muito por ele para começar a falar num “carioquês” perfeito.

 

 

O Boteco conta com 50 lugares à mesa e mais oito ao balcão. Está alegre, acolhedor, com bom gosto e muita luz que entra por uns altos janelões que dão para o largo, um dos locais mais turísticos de Lisboa. Na decoração, sobressai o enorme balcão e prateleiras em madeira, uma peça de Bordalo II que junta Lisboa e o Rio e um grande lustre com garrafas verdes da autoria do irmão de Kiko Martins, António Martins, que é arquitecto e vive em São Francisco, na Califórnia, já responsável por projectos de outros restaurantes do chefe. Enquanto por lá estive, foram inúmeros os turistas que se interessaram em entrar e fazer perguntas. Kiko Martins conta com eles, mas também com os muitos brasileiros que hoje vivem por cá. “E também com os portugueses, claro. Acho que mesmo os que nunca foram ao Brasil vão gostar deste tipo de pratos”, considera.

sala_boteco.jpg

 

Devo admitir que nem sempre a “comida de boteco” no Rio de Janeiro é especialmente bem feita. Mas a verdade é que me sabe bem naqueles ambientes descontraídos, entre muitos chopes (imperiais), caldinhos de feijão (preto, com torresmos, salsa e cebola picada crua...), carne seca, queijo provolone local à milanesa (panado), os pastéis de recheio variado, as empadas de camarão ou de frango com o queijo cremoso Catupiry, as linguiças com farofa e muitos outros petiscos no género. É claro que o Chiado não é o Leblon, mas Kiko Martins colmata a diferença subindo diversos graus culinários em relação ao que é habitual nos botecos cariocas, mesmo tendo que adaptar alguns dos ingredientes ao que se encontra por cá.

 

E assim também me souberam muito bem os pastéis “de vento” com queijo coalho – na realidade, mais os pastéis normais dos botecos cariocas, os “de vento” são maiores e mais típicos de São Paulo, com o queijo de origem nordestina em versão lisboeta; a salsicha toscana com farofa – mais habitual de ver a abrir churrascos de rodízio, aqui a fazer as vezes da linguiça brasileira servida nos botecos; os pãezinhos de queijo e os biscoitos de polvilho – comprados feitos, mas bons. Sensacionais e originais estavam os croquetes de feijoada à brasileira, perfeitamente fritos com o recheio granulado, mas também os dadinhos de tapioca com goiabada picante ou os espetos de coração de galinha, bem melhores do que os dos “galetos” (casa especializadas em frango assado) do Rio de Janeiro.

petiscos_boteco.jpg

Da esquerda para a direita, salsicha de churrasco com farofa, pãezinhos de queijo e biscoitos de polvilho, pastéis com queijo coalho e croquetes de feijoada à brasileira

 

Nos pratos principais, estava interessado na feijoada à brasileira, mas o estômago é que já não estava para isso. Fica para a próxima, assim como os “sandubas”, como os cariocas chamam às sanduíches. Fiquei especialmente tentado pela de pernil, para matar saudades da lendária do boteco Cervantes, em Copacabana, que tantas vezes me consolou, sobretudo a altas horas da madrugada. Infelizmente, na última vez que a comi, em Maio passado, estava bastante fraquinha, com a carne demasiado seca e salgada.  Adivinho que a do Kiko Martins esteja bem melhor, mas se quiser se aproximar da original terá que levar umas rodelas de abacaxi.

 

Assim, a conselho do dono da casa, enveredei pelo escondidinho de pernil, um prato de origem nordestina que julgo que foi importado há relativamente poucos anos para o Rio e para outros pontos do Brasil e que não aprecio especialmente, sobretudo pelo peso excessivo do puré de mandioca que “esconde” geralmente carne seca. Aqui, neste boteco lisboeta, a cobertura ficou muito mais leve e estaladiço e a carne de pernil estufada estava belíssima, bem apaladada por um tomate que, não seguindo a receita tropical, ajudou ao êxito. E ainda picanha de wagyu com farofa, com um puré de feijão e banana algo doce de mais (não gosto de banana cozinhada) sem grande história, mas que valeu pelo acompanhamento de arroz de alho.

boteco_fachada.jpg

 

Por fim, Kiko Martins quis que eu e a minha mulher carioca provássemos, nada mais nada menos, do que três sobremesas. Todas de criação própria, a remeter para a tipicidade brasileira. Gostei do quindim, mas parece que fica algo longe do original, o que não faz mal nenhum, servido com uma refrescante tapioca de coco com géis de maracujá e de coentros. Depois, o bolo de fubá (milho) bastante razoável, mas com uma mousse de goiabada e de uma versão local de Catupiry, em que não se descortinava o sabor a queijo, sendo que esta combinação (goiabada e queijo) é chamada justamente Romeu e Julieta. Interessante a de brigadeiro com paçoca de avelã, mas já não consegui tirar mais do que uma colher.

 

Comecei por beber uma caipirinha de lima, depois um chope Super Bock e ainda cerveja brasileira Cerpa, só existente à garrafa. Para quem quiser, há diversas opções de vinho. Quanto a preços, as entradas andam por volta dos 5/6 euros, os pratos principais pelos 17 euros (alguns mais caros, como a picanha, que custa 27 euros), as sobremesas pelos 6/7 euros. Tal como disse no início, gostei bastante desta primeira visita e vou voltar com certeza, tanto mais que é casa de funcionamento contínuo, como são os botecos cariocas, entre as 12.30h e a meia-noite, aberta todos dias. Tal como na Cevicheria, não é possível reservar mesa.

 

Fotografias: Cristina Gomes

 

 

Leia ainda:

publicado às 17:33


6 comentários

Sem imagem de perfil

De José a 10.11.2019 às 17:04

“Tal como na Cevicheria, não é possível reservar mesa.”
Até que enfim que começam a pensar nos clientes. Quantas vezes chegámos a casas com a sala totalmente vazia e a pergunta do costume “tem reserva?”, ao responder que não a resposta é que está cheio.
Sem imagem de perfil

De Duartecalf a 13.11.2019 às 11:04

Admitindo que todos os restaurantes podem ter a política que bem entendam, não percebo em que medida é pensar nos clientes quando estes quando lá vão não têm a certeza se podem almoçar ou jantar... desafiaram-me para ir lá jantar esta 6ª e precisamente por não aceitar reservas, não vou arriscar.
Há formas eficazes de combater o "no show", é uma questão de implementar a cultura.
Quanto aos que se dizem cheios quando estão vazios... problema deles.
Sem imagem de perfil

De José a 13.11.2019 às 12:17

Na realidade cada pessoa interpreta um texto à sua maneira.
É natural que cada restaurante tenha a sua política e nada tenho contra isso.
Como exemplo do que considero mais correcto para com todos os clientes temos o restaurante butchers no parque das nações, onde fomos informados pelo que penso ser o gerente de que fazem reserva de uma grande parte das mesas, deixando uma parte livre para quem chega para uma refeição sem ter podido fazer reserva (não me recordo bem nas será 70% ou 80% de lugares reservados). E apesar de não termos reserva tivemos uma refeição memorável.
Será mais correcto quando não conseguimos saber a hora a que chegamos a um restaurante fazer uma reserva e depois não aparecer ou não avisar do atraso ou ir ao restaurante e se for necessário esperar por mesa disponível?
Quanto a restaurantes que estão vazios e que dizem que está tudo reservado normalmente as pessoas vão chegando às pingas ...
Há restaurantes que deixam marca nos clientes quando se vê que fazem tudo para o atender bem, exemplos,
A Cozinha da Maria em Leça, chegámos cedo a casa bem composta e disseram-nos que jantássemos até às 21h (hora da marcação da mesa) nos atendiam.
Bifes Mota, Alvarenga, ao chegarmos em viagem quase às 15h, foi-nos dito que se esperássemos que a equipa terminasse a sua refeição poderiam servir-nos o bife à Alvarenga, e só esse, e estava óptimo.
Casa azcona, Badajoz, duas vezes ao almoço e a casa cheia, o responsável numa disse para esperarmos um pouco que punha uma mesa para dois, da outra vez propôs ficarmos na esplanada da entrada, em ambas a comida excelente.
Claro que estou a falar de situações raras mas o que é certo é que ainda me lembro das mesmas.
Espero ter clarificado a minha posição para não ser incorrectamente interpretado.
Muito mais teria a dizer mas não pretendo alargar-me em exemplos.
Sem imagem de perfil

De Duartecalf a 13.11.2019 às 18:28

Obrigado pela longa e interessante resposta.
Afinal parece que estamos de acordo.
Dá ótimos exemplos do que é uma abordagem hospitaleira aos clientes, e gostava que fossem mais frequentes claro.
Acho que para um restaurante é mais fácil não ter de lidar com um sistema de reservas; se tem muita procura, consegue com certeza rodar mais mesas e poupa recursos humanos e logísticos com isso.
Para mim, como cliente, é que não vejo grande vantagem porque ao ir até lá nunca sei com o que me vou deparar.
A Cevicheria ou o Ramiro são restaurantes a que iria mais vezes mas por terem sempre tanta gente e não admitirem reservas, nunca vou. Para eles é claramente uma vantagem gerirem assim, para nós nem tanto.
Acho que um restaurante que equilibra reservas com possibilidade de clientes espontâneos é o mais equilibrado.
Quanto ao atraso ou não aparecer, acho que no mínimo as pessoas têm de avisar. Não me passa pela cabeça ter uma reserva e não a cancelar ou avisar de um atrraso significativo.
Acho que se se instituir uma penalização pelo no show ficamos todos a ganhar. custará ao princípio, mas é uma forma justa de equilibrar interesses de uns e outros.
Sem imagem de perfil

De Adriano a 14.11.2019 às 10:31

A única maneira de responsabilizar pelo no show é pedir o número do cartão de crédito como se fazia no Kanazawa. Para restaurantes mais baratos não faz sentido nenhum. Se é verdade que os portugueses até respeitam as reservas e raramente dão problemas quando são turistas a coisa já muda. O Tomo disse-me a mim que era um problema muito grande no Kanazawa.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 14.11.2019 às 15:58

Muito obrigado pela conversa bem interessante.
Sei que muitas vezes, refeição de negócios, refeição de festejo, refeição de grupo de amigos, é necessário haver reserva de mesa. Claro que já me aconteceu mais do que uma vez ter marcado mesa para uma hora e depois ter de ligar a informar que vamos chegar mais tarde, e saber se é possível, pois houve um imponderável que levou a isso.
No entanto, há situações em que a reserva de mesa não é possível, estamos em viagem e não controlamos todos os imponderáveis ou algo acontece que nos obriga a mudar os planos à última hora.
Há restaurantes que para além da sala de refeições têm lugares num balcão diversificando as possíveis propostas aos clientes.
Assim e pelo nosso mútuo acordo "Acho que um restaurante que equilibra reservas com possibilidade de clientes espontâneos é o mais equilibrado." é a melhor opção para um restaurante preocupado com os clientes.
Caso os referidos A Cevicheria, O Ramiro e O Boteco, após lerem esta conversa, passem a ter 10% a 20% de lugares com reserva certamente já dará com útil esta nossa conversa.
Cumprimentos

Comentar post



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Os Preferidos 2018



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Novembro 2019

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Comentários recentes