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É relativamente fácil alguém saber como se comia nas casas e em muitos restaurantes portugueses no século XX e início do século XXI. Basta ler a Cozinha Tradicional Portuguesa, publicado por Maria de Lourdes Modesto em 1981. Porém, talvez não se saiba que esta obra, que estabelece o cânone da nossa cozinha actual, é a selecção de uma gigantesca recolha que a autora fez no início dos anos 60, quando apresentava o seu lendário programa na RTP. Maria de Lourdes Modesto pediu então a todos os seus muitos espectadores que lhe enviassem receitas tradicionais das suas terras e a resposta foi entusiástica, resultando em milhares de cartas que a autora arquivou até hoje em sua casa.

 

“Até hoje” é a expressão correcta porque em breve esse imenso acervo de receituário português, devidamente revisto por Maria de Lourdes Modesto, vai estar acessível a todos através do site da Associação de Cozinheiros Profissionais Portugueses (ver www.acpp.pt), conforme a autora anunciou há duas semanas, durante a inauguração da Biblioteca Gastronómica, que fica localizada na sede da associação, na Rua Sant'Ana à Lapa, nº71 C, em Lisboa.


Apesar de, na ocasião da inauguração, Maria de Lourdes Modesto mais uma vez sublinhar que o seu trabalho sempre se destinou às famílias e não aos profissionais de cozinha (com uma clarividência que deveria servir de exemplo a muito boa gente…), a verdade é que não conheço cozinheiro português digno desse nome que não tenha na estante a Cozinha Tradicional Portuguesa. Agora, seguindo o mesmo critério desta obra de referência, por província portuguesa segundo a divisão administrativa da época, e por tipo de pratos, vão ter mais centenas e centenas de receitas portuguesas à disposição.


A opção de Maria de Lourdes Modesto por deixar este legado à ACPP deu-se ainda no tempo em que Fausto Airoldi, que entretanto rumou a Macau, presidia à direcção, constituída também pelos actuais dirigentes António Bóia, Carlos Madeira e Paulo Pinto. Impressionada com o grande trabalho ali realizado, a autora decidiu que a associação seria o veículo ideal para divulgar o seu precioso acervo. Passou-se então à exaustiva fase de digitalizar e rever as receitas, tarefas que contaram com a colaboração de Ana Vieira, amiga de Maria de Lourdes Modesto, e dos funcionários da ACPP, destacando-se Idalina Saraiva, que passou cada uma das receitas para ficheiros que puderam depois ser revistos por Maria de Lourdes Modesto.


Uma palavra final para a biblioteca em si, que teve no gastrónomo Virgílio Gomes um impulsionador fundamental, doando mais de mil livros da sua colecção particular para que agora estejam à disposição de todos. E ele promete que muitos mais virão a caminho, juntamente com muitas doações particulares que entretanto se efectuaram. Esperemos que esta biblioteca e o acervo de Maria de Lourdes Modesto despertem nos nossos cozinheiros, e em todos que se interessam por cozinha portuguesa em geral, a vontade de ir mais além, de explorar vertentes menos conhecidas do rico e variado receituário que possuímos e que, felizmente, conseguimos preservar.

 

 

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publicado às 11:50


1 comentário

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De Filipe Consciência a 05.05.2015 às 12:59

Excelente notícia.

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