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Oito anos de apresentação pública do guia Espanha & Portugal e oito cidades espanholas escolhidas pela Michelin. Já foram a todos os cantos de Espanha, mas Portugal nada. Agora, é a vez de Girona, na Catalunha, que na noite de 23 de Novembro será palco da cerimónia, mais precisamente o Mas Marroch, espaço que os irmãos Roca exploram para banquetes (na foto). A verdade é que a Michelin é uma empresa privada, faz o que quiser, e que nenhuma cidade portuguesa parece querer acompanhar os “esforços” das cidades espanholas para ser palco de um dos anúncios mais aguardados pelos restaurantes ibéricos.

 

Segundo o comunicado da Michelin, “neste ano, a selecção foi mais complicada que nunca devido à solidez das candidaturas apresentadas. Finalmente, a Michelin apostou na importância turística e na riqueza gastronómica da província de Girona como pilares em que se sustenta o conhecido guia”, Tudo muito bem, mas nós em Portugal dispensávamos esta paradoxal afirmação dos responsáveis do guia: “seguindo assim a já consolidada decisão de dar visibilidade e apoio à gastronomia em toda a Península Ibérica”.

 

Apesar de ainda faltar muito tempo, julgo que os inspectores ainda estarão no período de visitas, atrevo-me já a algumas previsões, de entre aquilo que conheço ou de que ouvi falar de gente em cuja opinião confio. Em primeiro lugar, recuso-me a considerar perdas de estrelas, a não ser por motivos óbvios, como encerramentos, mudanças de chefes ou de proprietários, alterações radicais de estilos culinários, etc. Por isso, para já, ninguém perde estrela. Nem mesmo a Fortaleza do Guincho, que no ano passado mudou de chefe, com a saída de Vincent Farges e a entrada de Miguel Rocha Vieira, com a consequente alteração de pratos e estilo, está em perigo. Estive lá num almoço para a Comunicação Social e fiquei muito bem impressionado com a cozinha do chefe português, que não conhecia. Pratos óptimos, cheios de personalidade e sabor, com uma apresentação extremamente imaginativa e bem cuidada. Mais facilmente apostaria numa segunda estrela (este ano ainda será cedo) do que na perda da que já detém.

 

Mas a aposta que eu julgo mais segura para este ano é no Lab, o restaurante gastronómico que Sergi Arola abriu há cerca de dois anos na Quinta da Penha Longa, em Sintra. Também estive lá num jantar para a Comunicação Social e fiquei deslumbrado com a evolução que tiveram num ano. A não ser que algo corra muito mal com a equipa residente, chefiada por Milton Anes, o que não acredito, certamente que a estrela já está a caminho e mesmo a segunda não deverá demorar.

 

Logo a seguir, na minha bolsa de apostas para o Michelin 2017, vem o Alma, de Henrique Sá Pessoa, em Lisboa. O empenho que este chefe português e a equipa que lidera puseram neste novo espaço, o profissionalismo e a competência de Sá Pessoa, a fase madura que atravessa, produziu uma cozinha com um equilíbrio perfeito entre modernidade e tradição, entre sabores portugueses e internacionais (que têm a ver com a sua vivência), tudo com uma segurança que, ou me engano muito (o que acontece com frequência quando tento entender os critérios dos inspectores “ibéricos”) ou se traduzirá numa merecidíssima estrela.

 

Também com boas possibilidades, na minha modesta opinião, o Vista, no Algarve, do chefe João Oliveira, e, em menor grau, o Loco, de Alexandre Silva, em Lisboa. Julgo que este último é demasiado arrojado para o conservadorismo do guia, que normalmente, sobretudo em se tratando de restaurantes portugueses, prefere esperar para ver. Do restaurante da Herdade do Esporão, de Pedro Pena Bastos, no Alentejo, de que tenho ouvido maravilhas mas que ainda não conheço, poderá vir uma surpresa. Tomara que sim, porque o jovem chefe português leva o seu trabalho muito a sério e talento não lhe falta. E ainda a Casa de Chá da Boa Nova, de Rui Paula, no Porto, onde tive um belíssimo jantar como cliente normal.

 

Por fim, não me atrevo a adivinhar segundas nem terceiras estrelas. O Ocean, de Hans Neuner, no Algarve, parece ser o mais forte candidato a primeiro três estrelas de Portugal, mas não sei se será desta. O Belcanto, de José Avillez, em Lisboa, também estará na “corrida” e a remodelação que fez recentemente poderá ajudar, mas também julgo que ainda é cedo. Quanto ao Vila Joya, de Dieter Koschina (agora com um novo “braço direito” depois da saída de Matteo Ferrantino), é um eterno candidato. São estas as minhas apostas para o guia Michelin Espanha & Portugal 2017, mas aquela que eu sei que vou de certeza ganhar é de que vou ter surpresas quando, em Girona, forem anunciados as novas estrelas. Mais perto de dia 23 de Novembro, será tempo de actualizar estas previsões sempre erradas, mas que a mim muito me divertem.

 

Adenda: Imperdoavelmente, esqueci-me de referir aqueles que me parecem com mais possibilidades de conquistar a segunda estrela. No Yeatman, em Vila Nova de Gaia, estive há uns meses lindamente instalado, com direito a almoço para a Comunicação Social para conhecer a nova carta e, de facto, confirmei que o discreto Ricardo Costa continua um caminho seguro e dos mais interessantes entre os chefes da sua geração. Já ao Feitoria, em Lisboa, não vou há algum tempo, mas vejo e ouço que a cozinha de João Rodrigues, também ele muito discreto, tornou-se numa unanimidade nacional. Outro que creio ter condições a breve prazo de conquistar a segunda estrela é Leonel Pereira, tanto mais que fez recentemente obras do seu São Gabriel, no Algarve, mas talvez tenha que esperar um pouco mais, dado que a primeira estrela foi conquistada há pouco tempo. Talento e competência não faltam a estes três chefes portugueses, oxalá a Michelin esteja atenta.

 

Por fim, seria óptimo que Miguel Laffan recuperasse logo a estrela que perdeu no ano passado no L'And, em Montemor-o-Novo, segundo sei está a fazer um grande esforço para retomar o caminho que tinha suspendido. E que o Willliam, no lendário hotel Reid's, no Funchal (onde estive lindamente instalado, com direito a jantar para a Comunicação Social na noite de abertura), ganhasse a sua estrela, mostrando mais uma vez a capacidade do chefe consultor do restaurante, Joachim Koerper, que tem Luís Pestana como chefe residente, no que toca ao assunto. Portanto, que venham estas e muito mais estrelas, que nos surpreendam e nos alegrem.

 

 

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publicado às 18:06


19 comentários

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De Duartecalf a 13.07.2016 às 12:15

Já agora, Duarte e Miguel, têm verificado alguma relação entre o local da cerimónia e a atribuição de novas estrelas?

Alguém do meio me disse há meses que este ano poderia ser em Portugal - está visto que não! - e que isso poderia significar que finalmente íamos ter um 3*.
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De PR a 13.07.2016 às 18:42

Nos últimos cinco anos assisti a todas as apresentações do Guia Michelin España/Portugal. Relativamente à questão, arrisco a escrever que a relação será proporcionalmente inversa. Seguem as notas (de memória) do que se passou em cada apresentação, relativamente às “considerações locais”:

Guia 2011 apresentado em San Sebastián no Hotel Maria Cristina. Sem novas estrelas para San Sebastián nem para a provincia de Guipzcoa (vem de longe o esquecimento a uma eventual terceira estrela para Mugaritz). O único local a fazer a festa foi Martin Berasategui pela estrela atribuída ao restaurante Santo que na altura geria em…Sevilha, recebendo assim a sua sétima estrela Michelin.

Guia 2012 apresentado em Barcelona no Hotel Palace. Desastre para a Catalunha ainda que parcialmente esperado com menos dois restaurantes com três estrelas: El Bulli (suspiro gigante) que fechou e Can Fabes (muito provavelmente devido à morte de Santi Santamaria, ainda que Xavier Pellicer estivesse a desenvolver um excelente trabalho). Único consolo foi a recuperação da segunda estrela para Abac, na altura e ainda na atualidade com Jordi Cruz como chef.

Guia 2013 apresentado em Madrid no Hotel Ritz. Oscar Velazco e o seu Santcelloni esperavam a terceira estrela. Esta foi atribuída a Quique Dacosta e a Azurmendi, ambos localizados bem longe de Madrid. A única consolação foi a atribuição de 1 estrela a Chirón, restaurante que poucos haviam ouvido falar, em Valdemoro, subúrbio feio do sul do Madrid.

Guia 2014 apresentado em Bilbao no Museu Guggenheim. Todas as atenções estavam concentradas em Josean Alija e o seu Nerua que ambicionava a segunda estrela (continua pendente). Não recebeu nem ele nem nenhum outro restaurante do país basco. A sério que o Mugaritz continua a não merecer a terceira estrela? E que para além do Nerua, o Zuberoa também não merece a segunda? E os jovens do Xarma não a mereciam já na altura a primeira estrela, recuperando a que em tempos tiveram no Rocamador bem perto da fronteira com Elvas?

Guia 2015 apresentado em Marbella no Hotel Los Monteros. Como não poderia deixar de ser a expetativa estava em saber se Dani Garcia e o seu Calima recebia a almejada (e merecida) terceira estrela. Das 19 novas estrelas atribuídas, apenas uma foi para um restaurante situado na Andaluzia (a segunda para o Aponiente de Angel Leon).

Guia 2016 apresentado em Santiago de Compostela no Hostal de los Reyes Católicos. Casa Solla de Pepe Solla era referido em todos os prognósticos como ganhador da segunda estrela. Tremenda deceção apenas compensada pela devolução da estrela a Marcelo Tejedor (Casa Marcelo em Santiago de Compostela), pioneiro da nova cozinha galega.

Guia 2017 apresentado em Girona. Prognóstico: quarta estrela para El Celler de Can Roca. :)

Até 23 de novembro ainda falta muito. Entretanto já no próximo dia 21 de julho será apresentado o primeiro guia Michelin da nova temporada, com a estreia absoluta de Singapura. E atenção que a festa que se está a preparar promete mesmo ser de arromba. E em outubro teremos também o primeiro guia de Washinghton D.C.. Não faltarão novidades.

¡Enhorabuena!
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De Duartecalf a 14.07.2016 às 10:36

Obrigado PR pela longa retrospetiva. Pelos vistos, se queremos mais estrelas em Portugal, é melhor não termos cá a cerimónia! Um abraço
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De Duarte Calvão a 14.07.2016 às 10:09

Caro Duarte,
Respondendo ao que nos perguntou, creio que não existe relação, embora um dos responsáveis do guia já me tenha vindo com essa conversa de que estavam à espera de "boas notícias" para Portugal para então fazer a gala aqui. Julgo que o que determina são legítimas razões económicas imediatas (torno a lembrar que a Michelin é uma empresa privada e não uma instituição pública) e, em segundo plano, uma certa busca de diversidade de locais. Desde que começou a fazer estas cerimónias públicas, em 2009 (relativas a 2010, ano de centenário do guia ibérico), o êxito foi tal, com enorme repercussão, com televisões em directo, presença de grandes chefes, etc, que a Michelin nunca mais quis outra coisa e desistiu da fórmula anterior, em que se divulgavam as estrelas num jantar no restaurante do Casino de Madrid para um pequeno grupo de jornalistas. As cidades e regiões espanholas também gostaram da nova fórmula e, com crise ou sem crise, passaram a disputar entre elas a gala anual, competindo na oferta de "condições" à Michelin para a organizar. As cidades portuguesas têm considerado que é preferível investir noutras coisas, o que também é perfeitamente legítimo. Talvez a crescente importância em termos turísticos de cidades como Lisboa e Porto possa vir a influenciar esta equação.
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De Duartecalf a 14.07.2016 às 10:38

Obrigado pelo esclarecimento Duarte. Faz todo o sentido o que relata.

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