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Isto de fazer apostas e não arriscar não tem graça nenhuma. Não sou como o escocês da anedota que, quando tinha a certeza, apostava e que, quando não tinha, dava a palavra de honra... Pois bem, eu aposto que Portugal vai ter finalmente um restaurante três estrelas Michelin no guia Espanha e Portugal 2019, a ser lançado nesta quarta-feira no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa. E, se quiser arriscar ainda mais, talvez tenhamos logo dose dupla, com dois restaurantes três estrelas. Também me parece que teremos, pelo menos, um novo restaurante com duas estrelas e três com uma. Tudo isto se se confirmar o que anda por aí nos “mentideros” gastronómicos e, chamem- lhe o que quiserem, pressentimentos, intuições, deduções sem lógica, simples opiniões. As quais, aliás, estão frequentemente erradas. Não tenho nenhuma informação privilegiada por parte dos responsáveis do guia nem conheço ninguém na tipografia onde foi impresso. Para maior incerteza, este ano reformou-se José Benito Lamas, o galego que viveu em Lisboa até aos 11 anos de idade chefiou a equipa dos inspectores ibéricos durante mais de 15 anos, e há um novo director internacional dos guias.

 

Comecemos então por cima. Entre os cinco restaurantes com duas estrelas que actualmente temos, julgo que o Gallo D’Oro e o Yeatman são muito recentes nesta categoria para almejarem passar já à seguinte. O Villa Joya tem mais possibilidades e por vezes a Michelin gosta de premiar a consistência, algo que a cozinha de Dieter Koschina sem dúvida tem. Algo semelhante ao que se passou com o basco Pedro Subijana, do Akelare, aqui há uns anos. Mas, evidentemente, os grandes favoritos são o Belcanto e o Ocean. Acho que tanto José Avillez quanto Hans Neuner merecem a distinção máxima e que não faria sentido um ser tri-estrelado e o outro não. O Ocean tem a seu favor deter duas estrelas há mais tempo do que o Belcanto. Já o restaurante lisboeta apresenta como trunfo José Avillez ser português e claramente o nosso chefe com mais destaque internacional. Isto sou eu a dizer, porque muitas vezes para a Michelin estas coisas não significam nada. O que me parece lógico, repito, era os dois terem três estrelas já este ano.

 

Vamos então para as duas estrelas e aqui a minha aposta é o Alma, de Henrique Sá Pessoa, apesar de ser relativamente recente a conquista da primeira. Mas acho que é o tipo de restaurante e de cozinha que os inspectores apreciam. A seguir, o Feitoria, de João Rodrigues, uma “injustiça” que já deveria ter sido corrigida há alguns anos. Será que estavam à espera da gala ser em Lisboa para o fazerem? Ou será que João Rodrigues vai ser um daqueles eternos injustiçados Michelin ibérica, que ninguém percebe como só têm uma estrela, como Josean Alija (Nerua, Bilbau), Pepe Solla (Casa Solla, Pontevedra) ou Ricard Camarena (Ricard Camarena, Valencia), embora este último pareça ter este ano boas hipóteses de pular para a segunda? Há ainda o Lab, de Sergi Arola, e o São Gabriel, de Leonel Pereira, mas tudo indica que ainda falta algum tempo para tal.

 

Quando chegamos aos prováveis novos “uma estrela” portugueses, a julgar pelas últimas galas, há algo de concreto a que nos podemos agarrar nestas adivinhações. É que sempre que um chefe português sem estrelas é convidado a estar presente é sinal de que a vai ganhar. E, se não for convidado, é porque não ganha. Os responsáveis pela Michelin dizem que por vezes também convidam os chefes dos Bib Gourmand (uma categoria que distingue as boas relações qualidade/preço), mas não me parece o caso de alguns dos que sei que foram convidados para o Pavilhão Carlos Lopes. É claro que não andei a ligar a todos os chefes que conheço, mas sei que Pedro Almeida, do Midori, do hotel da Penha Longa (Sintra) estará e que, a julgar pelo espectacular jantar que tive lá na semana passada, a estrela é mais do que merecida. Seria a primeira cozinha de influência oriental a receber uma estrela em Portugal.

 

Infelizmente, nunca estive nos dois outros favoritos - a G Pousada, em Bragança, de Óscar Geadas, e A Cozinha, em Guimarães, de António Loureiro, ambos convidados – mas tenho ouvido muito boas referências de pessoas em quem confio, sobretudo do G Pousada. Um grande feito, a primeira estrela Michelin transmontana. Quanto ao restaurante vimarenense, tem a seu favor António Loureiro ter sido Chefe Cozinheiro do Ano em 2014 e a conquista da estrela seria também um feito assinalável para a cidade e a região.

 

Onde já estive – e gostei muito – foi no Euskalduna, no Porto, de Vasco Coelho Santos. Porém, sussurra-se que os inspectores não terão apreciado a disposição do restaurante, dominado por um balcão e apenas com duas mesas. É um disparate, a meu ver, porque noutros países é comum encontrar este tipo de restaurantes com estrelas, mas quem manda é a Michelin. Há um outro favorito (onde também ainda não estive), que é o Epur, em Lisboa, de Vincent Farges, que durante vários anos teve uma estrela na Fortaleza do Guincho. Não sei se ele foi convidado ou não, mas parece que a abertura recente poderá ter impedido a necessária visita dos inspectores. De qualquer modo, pelo que tenho ouvido, no próximo ano é muitíssimo provável que a venha a conquistar.

 

Desde que, há uns anos, em Portugal se despertou para a importância das classificações do guia Michelin há sempre muitas especulações nesta altura, o que para mim é saudável e divertido, sinal de uma sociedade que convive bem com avaliações externas. Assim, há o eterno candidato Ferrugem, em Famalicão, de Renato Cunha, e o Mesa de Lemos, em Viseu, de Diogo Rocha, onde recentemente encontrei uma cozinha digna de uma estrela, mas que tem a seu desfavor uma carta de vinhos em que só entram as marcas do produtor Quinta de Lemos, proprietário do restaurante. Ninguém me disse que era provável, mas um óptimo almoço no JNcQuoi, em Lisboa, de António Bóia, sugeriu-me uma estrela. Parece, porém, que a Michelin ibérica não dá grande valor à cozinha mais clássica. É pena.

 

Por fim, alguém irá perder estrela? Como sempre, recuso-me a acreditar. Há, no entanto, a mudança de chefe no Bon Bon, no Algarve, de onde saiu Rui Silvestre e entrou Louis Anjos, e a recentíssima saída de Miguel Rocha Vieira da Fortaleza do Guincho, sem se saber ao certo o que a motivou. Tomara que, tanto num caso como noutro, as estrelas se mantenham.

 

Se se confirmarem estas apostas, mesmo que só haja um primeiro restaurante com três estrelas, será um ano muito bom para Portugal. Há quem ache que, dada que é a primeira vez que a gala se realiza entre nós, a Michelin irá obrigatoriamente nos favorecer mais do que costuma fazer. No entanto, como assisti a todas as galas desde a primeira, em 2009 (referente ao guia para 2010), no Mercado de San Miguel, em Madrid, já vi como muitas vezes os chefes mais conhecidos dos locais onde se realizam ficam decepcionados por tal não significar a atribuição de estrelas. Mas também já vi o contrário.

 

 

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publicado às 12:54


5 comentários

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De Anónimo a 19.11.2018 às 20:08

Casa da Calçada também mudou de chefe. E sim, não surpreenderia ninguém caso perdesse a estrela.
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De Duartecalf a 20.11.2018 às 09:26

A Casa da Calçada já mudou de chefe há mais de um ano (foi anunciado em abril de 2017, se não me engano), pelo que o eventual impacto da mudança na estrela já se colocou no ano passado.
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De RCV a 19.11.2018 às 21:32

Por que é que o Paparico nunca entra nestas contas? Não me refiro apenas às do guia, mas também (ou sobretudo) às dos críticos/comentadores portugueses
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De Miguel Veiga Miranda a 21.11.2018 às 07:30

Estrelas no Midori e no Euskalduna sétima mais que merecidas. Estive no Midori há duas semanas e foi das melhores refeições dos últimos tempos. Sabores fantásticos, enorme coerência de menu e harmonia incrível entre a cozinha oriental e a influência Portuguesa.

Pessoalmente, afastei-me do projeto Avillez por todas as asneiras e mau serviço q tem espalhado por Lx. N conheço ainda o Belcanto, q acredito mereça a terceira estrela, mas um Chef deve ter consistência e coerência em todos os restaurantes a q da o nome. Ficaria feliz msm q só tivéssemos um 3 estrelas. Nd desagradado se fosse o Ocean.
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De Lisboa Best Restaurants a 21.11.2018 às 11:16

Concordo com a sua análise em termos gerais. O caminho é de clara melhoria no panorama nacional e felizmente não só Lisboa, Porto e Algarve.
Deixo alguns apontamentos de boas experiências recentes que deviam estar no caminho da recuperação das estrelas..
Tágide e Casa da Comida. Ambos a grande nível e com muita consistência. A acompanhar.

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