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O Arkhe esteve cá em casa

por Miguel Pires, em 30.05.20

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Nestas últimas semanas, têm-me perguntado quais os restaurantes que na minha opinião vão conseguir dar a volta por cima e sobreviver neste período de pós-confinamento, com todos os constrangimentos que já conhecemos (restaurantes a mais, ausência de turistas, redução obrigatória de lugares, crise económica, etc). Gostaria de ter uma varinha de condão para poder dizer que vai tudo correr bem e que a totalidade dos projectos de que gosto, ou que são relevantes, irão perdurar, mas não estou certo de que isso irá acontecer. Porém, a minha convicção é que aqueles que têm mais personalidade e que souberam criar uma comunidade (e a alimentaram durante a pandemia) têm maiores probabilidades de o conseguir, ainda que à custa de muitos sacrifícios e algum jogo de cintura.

 

 

Um dos projectos independentes que irá superar a conjuntura adversa que se adivinha, é o Arkhe, o restaurante que escolhi para encerrar esta rúbrica do “em casa”. O restaurante que João Ricardo Alves abriu em 2017 vinha em crescendo tendo conquistado uma clientela fidedigna. Segundo o chefe brasileiro (filho de pai português), “70% dos nossos clientes são portugueses”, sendo que os outros 30% se dividem (ou dividiam), entre turistas e estrangeiros a morar em Lisboa. O facto de ter tido um início difícil, em que até o pai lhe vaticinou vida curta (“neste local”, uma rua com pouco movimento, em Santos, “e sem carne ou peixe, não vais durar muito”), fê-lo desenvolver um certo sentido de resiliência. Por isso, agora diz estar pronto de novo para a luta e já tomou algumas medidas para tentar manter-se à tona da água. Para já, conta abrir o restaurante a partir do próximo dia 2 de Junho, de Terça a Sábado, apenas ao jantar, como fazia habitualmente. Porém, depois, também vai passar a abrir ao almoço (de terça a sexta), algo que não fazia antes da pandemia. João Ricardo diz estar pronto, também, para vir fazer trabalhos de chefe ao domicílio com parte da equipa.

 

De igual modo, o Arkhe vai manter o sistema de entrega em casa que iniciou durante o período de confinamento e ainda bem que conta fazê-lo, uma vez que a sua cozinha contemporânea de base vegetal, ou “plant based”, é saborosa, inventiva, reconfortante e regenera-se bem em casa. Aliás, com base na refeição que pedimos esta semana, um dos elogios que posso fazer é que nem parecia ter sido reaquecida em casa.

 

O Arkhe adoptou um sistema de take away / delivery semelhante, por exemplo, ao Epur e ao Essencial, os restaurantes sobre os quais escrevi anteriormente nesta rúbrica. A ementa é publicada no início da semana nas redes sociais e o pedido deve ser feito até ao dia anterior - o serviço só está disponível de quinta a sábado. Por fim, a encomenda pode ser levantada no próprio restaurante ou entregue em casa, entre as 18h e as 21h.

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No nosso caso chegou pelas 18.30h, tudo bem embalado em recipientes biodegradáveis, prontos para ir ao forno e com instruções descomplicadas e precisas.

 

O tempo quente pedia uma salada e a do Arkhe, com espargos, folhas verdes, ervilhas e favinhas era simples, mas com um belo twist. A panissa de grão de bico, uma especialidade da Ligúria que lembra os nossos milhos da Madeira, é uma das minhas entradas preferidas do restaurante. Tinha dúvida se resistiria bem ao forno, mas sim. Não é exactamente o mesmo que acabada de fritar, mas com deliciosa maionese de miso e os pickles a acompanhar quase nem se notou a diferença.

 

A “terrine” de batata com shitake e couve flor em várias texturas (corada e em puré), é um daqueles pratos que mostra as bases de cozinha clássica do chefe - João Ricardo formou-se em cozinha no Brasil e trabalhou em vários restaurantes pelo mundo, incluindo em França e Itália, onde foi cozinheiro no Joia, em Milão, o único restaurante vegetariano no país com uma estrela Michelin. No caso, a terrine era um troço rectangular de finas camadas de batata com queijo de caju fermentado (caju, miso, mostarda Dijon) pelo meio e funcionou lindamente com os cogumelos e a couve-flor. Pareceu-me tudo bem como estava, ainda que que deu para perceber que o molho “bordalaise” (redução de vinho tinto e sumo de maçã misturado com caldo de cogumelos), que vinha numa outra embalagem - e que me esqueci de colocar mas que provei no fim ­-, lhe daria um boost  que elevaria o prato para um nível ainda mais acima.

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Gostei bastante, também, dos gnocchi, espargos e favas, creme de tupinambo e pão crocante. Os gnocchi, numa mistura muito equilibrada de batata e farinha, estavam num ponto perfeito e casaram muito bem com o creme de topinambo e com os vegetais al dente. Belo prato de conforto com um twist de valor acrescentado.

 

As sobremesas do Arkhe, são sempre muito saborosas e a de abacaxi, que já conhecia do restaurante, continua um must. O fruto é assado e bem caramelizado, envolvido com creme de coco e rum, praliné de amêndoa e um crumble com pó de lúcia lima é de facto uma combinação vencedora (e, tal como na terrine de batata, é uma proposta vegana. Ou seja, não há por ali nem uma pontinha de manteiga... como é possível?!!). Muito bem, também, a tartelete de morango e framboesas (frescas e em puré), creme de ameixa umeboshi e merengue.

 

De cortesia enviaram-nos ainda uma óptima lasanha de cogumelos, creme de alho francês, queijo curado de ovelha e farofa de nozes e uma focaccia bem levedada (talvez das melhores que já comi por cá), mas teve de ficar para o dia seguinte, porque os pratos descritos acima foram mais do que o suficiente. O total desta refeição ficou em 50€/duas pessoas (as entradas custam à volta de 7 euros, os principais entre 12 e 13 euros e as sobremesas na casa dos 6 euros).

 

 
 
 
 
 
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• Focaccia de fermentação natural com farinha 100% biológica, criada pelo nosso sous chef @gmollering Disponível a partir desta semana para delivery & take away #arkherestaurante #arkhemcasa #plantbased #lisboa

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Não é que tivesse dúvidas, mas posso desde já afirmar e confirmar: em casa ou em Santos, o Arkhe virá regularmente à minha mesa.

 

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O Arkhe em sua casa:

Delivery & take away: quinta, sexta e sábado. Encomendas: reservas@arkhe.pt ou 211 395 258

Entregas em casa:

Encomendas: segunda a sexta entre as 09:00 e 17:00

Entregas: quinta a sábado – entre as 18:00 e 21:00

As encomendas devem ser feitas com pelo menos um dia de antecedência. O pagamento para o delivery via transferência bancária. Pedido mínimo: 35,00

Lisboa: raio de 5 km (sem taxa de entrega)

Outras localidades: consultem disponibilidade (com taxa de entrega)

Take away:

Levantamento no restaurante de quinta a Sábado, entre as 18:00 e 21:00

Os pedidos podem ser feitos até às 14:00 no mesmo dia. Pagamento através de Multibanco ou transferência bancaria.

 

Fotos: Miguel Pires 

 

 

Patrocínio:

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