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O Avesso esteve cá em casa 

por Mesa Marcada, em 08.05.20

Texto de Rafael Tonon (autor convidado)* 

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Não demorou para a saudade apertar. Na onda dos encerramentos temporários dos restaurantes diante da pandemia do novo coronavírus, o Grupo do Avesso, que mantém quatro casas em Leça da Palmeira, também fechou as portas de todas elas antes da imposição do estado de emergência. 

Mas, há três semanas, os restaurantes reconhecidos pela crítica Esquina do Avesso e Fava Tonka, e os adorados pelos locais Sushiaria e Terminal 4450, passaram a concentrar as operações na cozinha deste último para seguir a fazer o que os restaurantes foram criados para fazer: preparar e servir-nos comida. Ainda que, em tempos excepcionais, agora o façam para nos alimentar dentro de nossas casas. Está tudo do avesso! 

 

“Estou farto de estar parado, preciso retomar”, escreveu-me em mensagem Ricardo Rodrigues, um dos sócios do grupo, a perguntar-me o que me parecia a ideia que tinham de então arrancar com delivery e take awaypara os restaurantes. E deixo clara a minha opinião desde já para quem possa interessar: eu sempre apoiarei as ofertas gastronómicas que podem me livrar — pelo menos, por alguns dias — de ter que comer minha própria comida. “Força!”, respondi, no meu tom mais incentivador.

 

Para matar as saudades — é disso também que se trata: estamos todos a rebentar de saudades dos sítios que adoramos, como bem escreveu o Miguel Esteves Cardoso — o Grupo do Avesso optou por priorizar no menu enxuto os pratos que eram queridos ou de memória para os clientes ou até criações mais recentes que se tornaram muito queridos. Como em um concerto especial, em que as bandas apostam nos hits, as tais músicas que tocam directo nos nossos corações. 

 

Estão lá a revigorante sopa de cebola com brioche e queijo da Ilha do Fava Tonka, o bacalhau negro com puréde batata e tinta de choco da Esquina do Avesso, a bola de Berlim do Terminal 4450 e os famosos combinados de sushi da Sushiaria. “Mas ao mesmo tempo são pratos práticos de regenerar em casa, caso haja necessidade, e que facilitam não só o transporte, mas que também mantêm a qualidade o máximo tempo depois de sairem da cozinha”, explica Nuno Castro, o chef executivo do grupo.

 

Provei os pratos do menu especial (pandémico?) em duas oportunidades: uma em takeaway, quando aproveitei a desculpa de ir buscar comida para sair de casa e poder admirar o (baixo) movimento do Porto de Leixões e, na segunda, pedi em sistema de entrega em domicílio. O valor total gasto nas duas foi de 51 euros para duas pessoas. 

 

Ambas foram assertivas em saciar conforto e memória. A aposta do Avesso, afinal, é no afeto. (“Na retoma, vamos precisar ainda mais de afeto do que afetação”, disse-me dia desses um chef amigo com o qual tendo a concordar mais a cada dia que passo em casa). 

 

Há algumas boas ideias nas criações, como a bôla de rosbife com maionese de trufa e compota de cebola para comer como canapés — embora a combinação de sabores pungentes acabou por deixar a carne delicada em segundo plano. O naan (pão indiano achatado) faz boa base para os espargos, ovos e avelãs, num substituído perfeito para as pizzas tão comuns dos deliveries, já que aqui, na ausência de queijo, ele se mantém bem com a perda de calor da entrega. (Há também uma opção de salmão fumado com crème fraîche). 

 

Eu já sabia, por exemplo, que a sopa de cebola, um dos meus preferidos do Fava Tonka, funcionava bem com o queijo de São Jorge a dar um contraponto ao dulçor do prato. A dúvida era se chegava bem a casa. Para minha sorte, chegou: o brioche já bem amolecido pelo caldo, mas ainda firme, e uma acidez precisa para não tornar as colheradas enjoativas.

 

Nossos preferidos foram mesmo os sanduíches, que se muito me contentaram, também me causaram, confesso, alguma confusão semântica. Na primeira vez, segundo o menu, era um “sande” de língua panada (crocante e com a carne a desmanchar), coleslaw e um saboroso molho XO (feito à base de mariscos) do Esquina do Avesso (imagem de cima da foto de abertura). Da segunda, o menu dizia uma “tosta” de cogumelo pleuroto, ovo estrelado, alga nori e um óptimo coleslaw com óleo de sésamo, malagueta, gengibre e wasabi (imagem de baixo da foto de abertura)

 

Na forma, pareciam irmãos, paridos na mesma família dos katsu sando, os tais sanduíches clássicos japoneses feitos com pão de forma fofinho a abraçar um panado e outros ingredientes. Será que eu tinha me perdido na adaptação linguística? Na dúvida, recorri ao Oxford Dictionary of Food and Nutrition e preferi, então, encará-los mesmo como “sanduíches”, que é o apelido comum a ambos. 

 

Para finalizar as refeições, as sobremesas do menu foram puro conforto. O cheesecake de manteiga de amendoim, resgatado de uma carta antiga, tem textura sedosa e é para os que gostam de doces mais doces. Já a bola de Berlim, de óptima massa leve e recheada de creme pasteleiro, chega sobre uma base de leite condensado cozido e nos antecipa o verão que, neste ano, não sabemos bem ao que saberá. (Mas que esperamos que seja doce). 

 

Em uma espécie de prenúncio, o saco pardo onde a comida é entregue traz um postal com fotos de pratos dos quatro restaurantes do grupo sendo explorados por mãos ávidas por ocuparem novamente as mesas assim que tudo isso passar, esperamos. No verso, a mensagem: “Obrigado por nos deixar matar as saudades”. Nós é que agradecemos, Grupo do Avesso.

 

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bôla de rosbife com maionese de trufa e compota de cebola

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naan (como uma pizza)

 

 

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cheesecake de manteiga de amendoim

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bola de Berlim

 

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Grupo Avesso:

Os serviços de delivery é takeaway estão disponíveis de quarta a sexta-feira, das 19.00 às 22.00, e aos sábados e domingos, das 12.30 às 22.00.  As encomendas devem ser feitas para os números 912 115 365 ou 919 851 933. Também atendem pelo Uber Eats

 

 

 

* Sobre o autor convidado:

Nascido em Campinas, estado de São Paulo, Brasil, em 1982, Rafael Tonon é jornalista especializado em gastronomia. Trabalhou como editor na Abril já colaborou para veículos como GQ, Vogue, Elle, entre outros.  É correspondente do Eater (maior portal de gastronomia dos EUA), para onde acaba de escrever um guia sobre o Porto, cidade onde reside actualmente. Em Portugal, é colaborador do Expresso e do Público.

 

Fotos: Rafael Tonon

 

 

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publicado às 18:25



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Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

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