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É um dos maiores falatórios do momento no mundo da gastronomia e já com repercussões nos meios de comunicação generalistas. Pete Wells, o critico do influente New York Times (NYT), arrasou na sua última critica o restaurante (steakhouse) Peter Luger, no Brooklyn, atribuindo-lhe zero estrelas, a mais baixa (e rara) classificação dada pelo critico principal do jornal.

(abro este parentisis para contextualizar: a crítica gastronómica do NYT, com classificações de 0 a 4 estrelas, é a mais prestigiada e influente localmente (muito mais do que o Guia Michelin, por exemplo) e é vista como uma referência mundial, entre outras razões, devido à qualidade dos textos, ao conhecimento do crítico, e ao método utilizado - só é publicada depois de várias visitas ao local).

 

Voltando à critica ao Peter Luger, Wells diz que a casa, fundada em 1887, e alvo de peregrinação de muitos amantes de uma peça de carne grelhada em particular, o porterhouse steak, caiu bastante em qualidade mantendo os preços bem altos. Wells fala de inconsistência, quer da qualidade da carne, quer dos pontos de cozedura e vai por aí acima malhando nas batatas fritas, “ainda que crocantes, eram farinhentas e sensaboronas”, no linguado “ressequido”, na Salada César, no hamburger, etc. O serviço também não escapa ao teclado do critico, que refere ser frio e distante, chegando a dizer que uma repartição pública parece um lugar festivo comparado com o restaurante.

 

PeterLuger_Diptic Photos_Ellen_Silverman.jpeg

 

Já no último parágrafo, Pete Welles - que começou a frequentar a casa nos anos 90, porque o bife de Peter Luger o fazia “sentir vivo de uma maneira que poucas outras coisas o faziam” – é duro e antecipa a polémica que o seu texto irá gerar, por estar a “mexer” com a steakhouse mais antiga e emblemática de Nova Iorque.

 

“O restaurante sempre terá seus fiéis. Eles rir-se-ão sem contestar dos altos preços, do tomate fatiado 16,95 dólares com gosto a 1979, do porterhouse steak por 229,80 dólares (para quatro). Eles dirão que ninguém vai a Luger pelo linguado, que ninguém vai pela salada, que ninguém vai pelo serviço. A lista continua e fica cada vez mais difícil de engolir, até você começar a questionar-se sobre quem realmente precisa ir ao Peter Luger e começar a pensar que a resposta é ninguém”.

 

Como Wells adivinhou, mal o texto foi publicado e noticiado um pouco por todo o lado (CNN, Fox, HuffPost, The Independent – Inglaterra, etc), a polémica estalou, sobretudo nas redes sociais, com muitos clientes a saírem em defesa do restaurante, mas também com muitos outros a apoiarem Wells por ter tido coragem de escrever o que muitos pensam ou experienciaram mas não tiveram a voz ou a coragem de o dizer.

 

Também o restaurante respondeu em comunicado dizendo: “O NY Times já publicou críticas sobre o Peter Luger várias vezes ao longo dos anos. Já obtivémos quatro estrelas, outras vezes menos. Enquanto os críticos e seus caprichos têm mudado, o Lugers tem-se focado sempre em fazer algo excepcionalmente bem - servir a carne de mais alta qualidade”.

 

Quem também parece estar a milhas da polémica ou da alegada inconsistência, referida várias vezes, quer pelo crítico, quer por muitos dos leitores, é o Guia Michelin que acaba de atribuir novamente uma estrela ao restaurante na edição nova-iorquina lançada recentemente. Mas também já sabemos de ginjeira que embora os responsáveis do guia continuem a alegar que os critérios são os mesmos em qualquer parte do mundo, sabemos bem que na prática isso não acontece.  

 

 

P.S. quatro notas à parte:

1.Por falar no Guia Michelin de Nova Iorque, um dos restaurantes que se estreou este ano em termos de uma estrela foi o Estela, que em tempos foi um dos restaurantes norte-americanos mais bem classificados no 50Best. Sou um adepto do restaurante e do chef Ignacio Mattos (que tem, também, na cidade o Flora Bar e o Altro Paradiso), como é notório na critica que aqui publiquei, em 2017. Porém, quando soube da atribuição da estrela, lembrei-me do Prado, em Lisboa. O Estela é muito mais barulhento e apertado do que o Prado (na verdade o restaurante lisboeta não é muito, nem uma coisa, nem outra); em uma ou outra proposta o Estela pode ser superior, mas na generalidade os pratos (para partilhar – que horror Srs. inspectores!) parecem-me ao mesmo nível, tal como o serviço e a informalidade. Então, porque é que um pode ter e o outro não? Porque o Obama tornou o Estela famoso ao jantar lá? Não. Porque os critérios são diferentes, estúpido! (Calma, não só não virá nenhuma estrela lá para os lados da Sé, nem sequer isso é desejado pela gerência, ou mesmo pelos clientes, atrevo-me a dizer)

 

2.Ainda em relação ao Guia Michelin, e voltando ao post anterior do Duarte, sou um pouco mais optimista: além dos restaurantes que ele falou, acho mesmo que o Epur vai ganhar uma estrela e ponho algum dinheiro na hipótese de estrela para o Euskalduna a na segunda e para o Feitoria. Outro restaurante que também não me parecia nada descabido que ganhasse era o novo 100 Maneiras. O velho endereço (entretanto fechado) faz parte das anteriores edições do guia e, no novo, apesar da imagem meio destemperada de Ljubomir Stanisic e de um ou outro momento à chefe da casa (com bastante personalidade, diga-se de passagem), todo o menu de degustação – e mesmo o ambiente - do lugar cheira a estrela Michelin. Se não for agora, será uma questão de tempo – se o conceito se mantiver e haja estabilidade na equipa.

 

3.Quanto ao resto do guia, estrelas à parte, melhorou um pouco mas continua a ser confrangedor abrir a publicação e ver as escolhas, pelo menos nas duas maiores cidades, onde, nos últimos dez anos, tem havido uma enorme dinâmica. A parte dos Bib Gourmand é uma verdadeira anedota (o Porto não tem nenhum e em Lisboa é quase como se não tivesse). Depois, lá disfarçam com uns endereços mais ou menos actuais, mas fazem-me lembrar aquele executivo de fato cinzento de corte antiquado que quando quer ser informal tira a gravata. O mais ridículo é que em Barcelona, Madrid ou São Paulo (onde me encontro neste momento), cidades inspecionadas pelas mesmas pessoas (ao que consta), a postura é totalmente diferente, com bastantes projectos novos e independentes a fazerem parte da publicação. Até iria a Belém a pé (Fátima é muito longe) se na edição de 2020 aparecessem lugares “frescos” como o Arkhe, o Essencial, o Attla, o Senhor Uva, o Sála, a Taberna Albricoque, Taberna do Calhau (todos em Lisboa), o Almeja ou o Elemento (Porto), só para citar alguns onde estive mais ou menos recentemente. Mas para isso era preciso mais do que tirar a gravata. Era preciso que estivessem mais atentos e andassem mais por cá. O que não creio que aconteça. A menos que...

 

4. Parece que saiu ontem um comunicado dos responsáveis do Guia Portugal e Espanha, a dizer que a próxima edição revelará um ano "excepcional para a gastronomia de Portugal e Espanha (...) com um crescimento em todas as categorias".  Vindo da equipa de Madrid e falando dos dois países de uma forma conjunta, nunca se sabe o que é que isso quer dizer. Espero que não seja aquela velha história do Manolo que comeu uma galinha e do Zé que comeu zero galinhas, o que em média deu que cada um comeu meia galinha. Enfim, dia 20 lá ficaremos a saber.

 

Fotos: Ellen Silverman para o New York Times

 

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publicado às 22:53


2 comentários

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De Anónimo a 07.11.2019 às 08:00

Bom dia.
Por norma, quem escreve sobre gastronomia escreve bem. Há no seu texto um pequeno erro numa palavra, que se nota ser de casting. Não é "facto" de corte antiquado, mas sim fato.
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De Miguel Pires a 07.11.2019 às 14:12

ahahah, é de lutar tanto contra o acordo ortográfico :).
Já corrigi, obrigado.

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