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O Copenhagen Coffee Lab (CCL), em Lisboa, é um daqueles lugares que gosto de encontrar por esse mundo fora. Tem óptimos cafés e diversas formas de os preparar, bem como uma oferta de snacks doces e salgados acima da média – por isso, o inclui tanto no meu guia Lisboa à Mesa, como na primeira versão do The 38 Essential Lisbon Restaurants que escrevi para a norte-americana Eater. No fundo, ainda que remeta uma ligação a uma cidade cosmopolita como Copenhaga, o CCL tem mais a ver com um conceito de cultura urbana do que propriamente com a identidade de um determinado país. Por isso, acho normal que a equipa de sala contratada saiba inglês, que o nome seja neste idioma e que os menus sejam bilingues. Porém, quando se junta a dificuldade em dominar a língua do país onde se trabalha, com falta de bom senso e de profissionalismo, aí a paciência tem limites.

 

 

A cena que vos vou contar passou-se no Sábado no Copenhagen Coffee Lab original, próximo da Praça das Flores. Poucos minutos das 17.30h, a minha mulher e eu decidimos entrar para beber um café. O cenário era um pouco diferente do habitual. A casa estava com vários lugares desocupados, todos com loiça suja nas mesas por levantar. Dava para perceber que a hora de ponta passara e que se aproximava o fecho. Todavia, ainda faltava quase meia hora. Levantei a loiça de uma mesa e deixei-a no balcão. Depois vi que havia uma outra mesa mais confortável disponível (estávamos com “pequeno selvagem” no carrinho) e mudámo-nos para ela. Mais uma vez levantei a loiça e levei-a ao balcão. Da primeira vez a empregada agradeceu-me, da segunda nem por isso. Talvez não tenha gostado da piada que atirei - “desculpem, juro que não vos quero tirar o emprego” – mas é pouco provável, porque, percebi depois, não deve ter entendido o que eu disse.

 

A Luciana pediu um latte e eu um cappuccino e um bolo de canela. O serviço estava um pouco demorado, mas tudo (mais ou menos) bem, a equipa era reduzida (duas pessoas a atender) e fazer um café como deve ser não é imediato como num estabelecimento comum, além de que havia à nossa frente uma mesa de cinco para ser atendida. Os clientes lá receberam o seu café coado V60 como mandam as regras, com a sua cafeteira/recepiente de vidro e chávenas de loiça. Era agora a nossa vez. Primeiro sai o latte (3.8€) da Luciana, mas estranhamente vem num copo de papel. Olho em direcção ao bar e ao ver que o meu capucinno (3.6€) ia ser servido num recipiente igual apresso-me e digo que não, que queria uma chávena de loiça apropriada.

 

Em inglês e num tom algo agastado a empregada diz-me que “to go” só serviam em copo de papel. Ao que eu respondo que não era para levar, mas sim para beber na casa, como era bem visível, dado que a nossa mesa estava próxima e bem no seu campo de visão. A empregada insiste, ainda com menos paciência e novamente em inglês, que tinha indicação do patrão para servir apenas em copos de papel depois das 17.30h. E eu insisto que ainda faltam cerca de vinte minutos para fechar e que podia estar descansada pois às 18h contava estar fora dali. Como também já me tinha chegado a mostarda ao nariz acrescento que achava inacreditável que num café, em Lisboa, tivesse que me expressar numa língua que não o português. Contrariada, a empregada lá serve a bebida numa chávena de loiça, mas ainda a resmungar com a história da política da casa (“the policy, the policy”). A ouvir a nossa conversa, a colega do lado resolve entrar em acção com um argumento brilhante: “mas nós somos um Danish Cafe!”

 

Devia-lhe ter dito, certo, mas que então só podiam falar em dinamarquês. Porém, respondo que aquele era um café dinamarquês, mas em Lisboa e que dantes, as antigas proprietárias, faziam um esforço para falarem em português ou tinham sempre alguém que falava a língua. Ciente do disparate que tinha acabado de pronunciar (“but this is a Danish Cafe!!”) a empregada lá se desculpa que estavam a aprender português e que se esforçava para falar. Para não agravar o momento lá digo que a falha era mais do patrão do que delas. Do tal patrão que alegadamente impõe a tal “policy” de servir apenas em copos de papel “to go” a partir das 17.30h.

 

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Podia ter-lhes dito, também, que apesar disso e da hora (a uns 20 minutos de fecharem) a atitude delas não tinha sido a melhor e que as mesas por levantar ou o banco virado ao contrário em cima do balcão - como é visivel na primeira imagem - não era um bom cartão de visita. Contudo, achei melhor vir para mesa, beber o cappuccino, comer o bolo de canela (ambos bons) e ouvir o meu filho chamar-me tótó. Às 17.47h levantámo-nos tranquilamente e saímos, não sem antes repararmos noutro belo cenário: dois sacos de lixo à porta com a casa ainda em funcionamento. Lamentável. Tudo muito lamentável. E evitável.

 

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publicado às 18:27


15 comentários

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De Paulo Beli a 03.03.2020 às 16:48

O serviço, sempre o serviço. É uma pena como bons projetos penalizam por causa de mau serviço. Ainda esta sexta feira tive um jantar na Taberna Albricoque onde tudo o que comemos estava maravilhoso mas o serviço desastroso fez com que nenhum dos presentes alguma vez lá queira voltar...
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De Eduardo a 03.03.2020 às 17:34

Boa tarde.
Podendo haver semelhanças com Albufeira, Reino dos Algarves no geral e outros locais de veraneio e turismo, parece-me um fenómeno diferente.
Certa vez, a Monocle apresentava este exemplo, não sei se com a localização que refere, como um dos melhores cafés de Lisboa.
Há uns meses, na feira da Ladra, entrei num desses exemplares e senti-me numa espécie de sala de chuto com gente de ar duvidoso - alguns deles prováveis gipsetitos - e animais de quatro patas esparramados pelo solo.
Não acredito nem confio neste tipo de conceitos com preços exacerbados e tiques de pós-modernos.
Obviamente que o melhor café não é o da Brasileira nem de longe nem de perto, embore aprecie aquele look boémio e até um pouco javardo. Por outro lado, gosto do mercantilismo que acompanha o avanço do progresso sem obrigar o cliente a esbardalhar-se ao comprido como um espantalho. Aquilo que muitos estabelecimentos carecem, independentemente do patamar finaceiro em que pretendem enquadrar-se é bons produtos aliados a bom serviço. É tão simples! Tudo o resto não passa de engodos malfazejos. Cumprimentos. Eduardo
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De Anónimo a 03.03.2020 às 19:43

A falta de tolerância, é o que leva a este ódio generalizado, as pessoas que teem a responsabilidade de serem moderadas porque são ouvidas ou lidas por outros, não teem, e usam expressões como: nunca mais, ou, não falavam bem a minha língua, ou não foram simpáticas, Não tendo em conta, que, estão a ter influência na vida dessas pessoas, neste caso negativa.
Há mil e uma maneiras de melhorar as situações uma delas é falar com as pessoas em outra altura, ou indo lá uma segunda vez.
Já percebemos que a paciência e a tolerância, está em declínio, como a vontade de melhorar, só há vontade de destruir.
Isto é um blogue, está certo que só lê quem quer, pois trata-se da opinião do mesmo.
Peço que está falta de tolerância acabe, como a ignorância de perceber que se falava mal português, ainda tentou.
Pois é certo se tivesse a tentar a sua vida “lá fora” também gostava de ter essa oportunidade.
E quando vai “ lá fora” onde não há português nem inglês como língua paterna e tentam falar
Inglês por pior que seja não se importa, agradecia que fosse mais compreensivo é que usa-se este blogue não como uma arma de poder mas sim de mudança. Pois nunca vai ter o “ poder” para saber se um dia no futuro isso não acontecerá com, ( desculpe estar a parafrasear) “ com o seu pequeno selvagem” e aí sim vai agradecer a compreensão, a tolerância
Bom trabalho
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De Anónimo a 04.03.2020 às 08:25

Caro Senhor:
Sigo o vosso blog com assiduidade, mas só agora senti necessidade de comentar o seu escrito, porque me reconforta, como cliente de vários restaurantes ou similares, onde relembro ou descubro sabores. Gosto de associar esse prazer à delicadeza, ao profissionalismo e à disponibilidade de quem me recebe. E gosto de retribuir da mesma forma. Desagrada-me quando isso não acontece, mesmo em restaurantes por este blog distinguidos positivamente. É bom saber, não que os críticos também são tratados com desdém e arrogância, mas que alguns deles, quando isso acontece, têm coragem para o divulgar, como é o seu caso. Fico-lhe muito grata. Maria Rito

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Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

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