Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




 

Já há algum tempo que me intrigava a conclusão a que chegavam, em Portugal e noutros países, vários chefes de cozinha e gente do sector: “A pandemia vai reforçar a ligação dos restaurantes aos pequenos produtores locais”. Nada contra, pelo contrário, mas não percebia bem porque razão, passada a pandemia, aqueles que não costumavam recorrer a esses pequenos produtores iriam passar a fazê-lo, por muito bonita que a ideia parecesse. Decidi que era hora de tentar esclarecer esta dúvida e telefonei para João Rodrigues, já que o chefe do Feitoria é sem dúvida um dos profissionais portugueses que mais cultiva esta “aliança” com os pequenos produtores e fornecedores, aliás muito bem concretizada através do Projecto Matéria, surgido em 2017, mas cujo site só ficou disponível no início de Março (ver aqui).

 

 

“A pandemia não obrigou ninguém a recorrer aos pequenos produtores locais, mas acabou por ser uma janela de oportunidade para estes chegarem mais facilmente não só aos restaurantes como também à casa dos consumidores dos grandes centros urbanos”, considera João Rodrigues. A explicação é que, com o fecho generalizado dos restaurantes, que constituem boa parte dos seus clientes, estes produtores desenvolveram – ou criaram mesmo – serviços de entrega ao domicílio. Ora, mesmo passada a pandemia, é natural que estes novos circuitos logísticos se mantenham e sejam aproveitados, quer por restaurantes quer por consumidores domésticos.

 

Para o chefe do Feitoria, uma das grandes questões será o preço dos produtos, já que são normalmente mais caros do que os dos grandes produtores, inclusive os de outros países, por isso, cada um terá que fazer contas e verificar se lhe vale a pena ter esse encargo adicional num período que será seguramente difícil também em termos económicos.

 

João Rodrigues tem noção de que houve um certo oportunismo de vários chefes em se quererem colar a esta ideia, bem vista mediaticamente, de dar preferência aos pequenos produtores nacionais. Até chefes conhecidos pela ligação a grandes marcas - portuguesas ou internacionais -  foram na onda. “Eu nunca digo o que está certo ou está errado, mas acho que devemos ter consciência das escolhas que fazemos e responsabilizarmo-nos por elas”, afirma. “Há agora um certo léxico, o do ‘comprar português’, mas não me parece que seja suficiente neste caso. Há, por exemplo, produtos lácteos que são feitos em Portugal, alguns até certificados, mas que utilizam leite em pó francês... Para nós, os produtores que integram o Projecto Matéria têm que possuir uma ética de boas práticas, inclusive de respeito pelo ambiente e pelo bem-estar animal”, sublinha.

Enchido_SCanense.jpg

 

 

Segundo vários pequenos produtores com quem João Rodrigues tem falado, passado o período de confinamento, já se nota uma certa quebra das encomendas dos consumidores caseiros. “Eu acho que os chefes de cozinha têm um papel fundamental na criação de uma ponte entre os produtores e os consumidores. Se alguém gostar de um produto que experimentou num dos nossos restaurantes, poderá querer tê-lo quando cozinha em casa e ficar a saber como consegui-lo”, explica.

 

Não há dúvida que o Projecto Matéria, que foi apoiado pelo Turismo de Portugal, é um óptimo auxiliar nesse sentido, apresentando cerca de 50 produtores e fornecedores de Norte a Sul do País, com informações sobre eles e os seus produtos, com os respectivos contactos. E ainda outras informações úteis como, por exemplo, um calendário, de que gostei especialmente, onde estão as épocas, mês a mês, não só de frutas e legumes, mas também de cogumelos, carnes (inclusive caça) e peixes.

 

Para terminar, fiquei também a saber que o Feitoria tem reabertura marcada para 7 de Julho, que fará duas noites de “pré-reabertura” a 3 e 4 de Julho, que reduziu o número de mesas de 14 para 10 e que terá um menu a preço mais acessível, mas dentro da linha a que João Rodrigues nos habitou e que já lhe valeu uma estrela Michelin e quatro anos consecutivos como chefe preferido do painel de jurados dos Prémios Mesa Marcada, com o Feitoria a conseguir igual feito como restaurante preferido.

LagostaOCEANTOUR.jpg

 

 

Nota: Fotografias retiradas do site www.projectomateria.pt. Foto de abertura, com João Rodrigues, de barba, ao centro, na visita ao produtor H2Douro, em Marcos Canavezes, de autoria de Vânia Rodrigues. Segunda fotografia de um produto da Salsicharia Canense, em Cano (Portalegre), da autoria de Vânia Rodrigues. Última fotografia, do fornecedor Ocean Tour, de Peniche, da autoria de Tiago Pais.

 

 

Leia ainda:

publicado às 16:24


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Pesquisar

  Pesquisar no Blog