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DOP Portugal?

por Rui Falcão, em 08.12.12

 

Os nomes são importantes. Um nome tem sempre uma mensagem associada, seja ela positiva ou negativa, moderna ou antiquada, justa ou injusta. Como qualquer aspirante a estudante de marketing poderá afiançar de bom grado os nomes são decisivos para vender uma região, para vender um país, para vender uma mensagem, para vender um conceito, para vender um estilo de vinho.

Sem estratégia, sem uma boa mensagem e sem um nome proveitoso, a promoção transforma-se numa tarefa realmente penosa. Escolher um nome eficaz e conveniente, um nome que seja simultaneamente agradável e entusiasmante, um nome que se confunda facilmente com qualidade, originalidade, exclusividade e com uma origem, com um lugar de nascença, é a ambição de qualquer responsável de marketing e o objectivo de qualquer gestor de comunicação e relações públicas.

O mundo do vinho, um mundo onde muito para além do vinho em si mesmo ainda se vendem emoções e sensações, é especialmente sensível ao apelo de um nome sonante, seja ele uma casta, uma região, um país, um enólogo ou um produtor. Ainda antes de se provar um vinho a maioria já está condicionada pelo nome da região, pelo nome do produtor, pelo nome do rótulo, pelo nome da casta que aparece em destaque ou por um outro nome qualquer que chame a atenção. Quanto mais se sabe sobre vinho, quanto maior for a sapiência e a dedicação aos mistérios do vinho, maior será a dependência de um bom nome e maior será o destaque emocional dado a coisas tão estranhas como a origem da madeira das barricas ou o nome da tanoaria que construiu as barricas.

No vinho, tal como em qualquer outra actividade económica, existe um par de nomes especialmente felizes, nomes consagrados pelo tempo, pelas circunstâncias ou por uma estratégia de promoção especialmente brilhante que fazem prosperar os produtores que beneficiam pelo seu aproveitamento. Veja-se, se atentarmos somente no figurino português, o caso dos nomes Alentejo ou Douro, nomes que por si só são já potenciadores de vendas, nomes que pelo simples facto de constarem num rótulo ou contra-rótulo já ajudam a vender graças à imagem positiva e de confiança que proporcionam e transmitem.

No entanto poucos se podem orgulhar de possuir um nome tão positivo e condicionador como os produtores de Champagne, o nome mais feliz e indiscutível do mundo do vinho, o nome que faz soltar suspiros de alegria entre consumidores do mundo inteiro e suspiros de inveja em produtores de vinhos espumantes no resto do mundo. Um nome que transmite uma imagem perfeita e entretanto consagrada de prestígio, de pujança económica, alegria, fortuna e comemoração. Apesar de a região produzir muitos milhões de garrafas por ano, apesar de alguns dos produtores mais prestigiados produzirem perto de vinte milhões de garrafas anuais, os vinhos da região de Champagne e os seus produtores continuam a gozar de uma imagem de prestígio, exclusividade e luxo que só pode ser justificada pela criação de um nome que a promoção tornou perfeita.

Os vinhos de Champagne abafam os demais vinhos espumantes do mundo. Seja qual for o produtor, seja qual for a região, seja qual for o país, os restantes vinhos espumantes terão de se debater numa segunda liga, no campeonato da segunda divisão, incapazes de se esgueirar até aos postos cimeiros. Portugal, infelizmente, nem tem condições para combater nesta segunda liga mantendo-se tolhido na discussão da terceira liga, das distritais, incapaz de apresentar um nome alternativo que pudesse ajudar a ganhar consistência.

Cientes desta contrariedade outros países criaram há muito um nome seu, um nome próprio para os vinhos espumantes, um nome que identificasse os seus vinhos por um nome com personalidade. Se os italianos ganharam asas com o nome Prosecco, os espanhóis cedo brilharam com a denominação Cava, nome que rapidamente ganhou prestígio suficiente para o colocar entre os substantivos mais reconhecíveis dentro do mundo do vinho internacional. Cava transformou-se num dos trunfos mais saborosos e substanciais de Espanha, um nome universal que todos ligam instintivamente aos vinhos espumantes de Espanha. Uma vantagem comercial que durante muitos anos aprendemos a admirar e a cobiçar.

Talvez surpreenda por isso saber que um número crescente de produtores de vinhos espumantes espanhóis, sobretudo da denominação catalã de Penedes, alma, coração e berço dos vinhos espumantes espanhóis com cerca de 95% da produção total de vinhos espumantes, esteja a debandar do nome Cava, preferindo esconder o nome do rótulo refugiando-se na designação genérica de vinho espumante espanhol. Curiosamente, mas não estranhamente, têm sido os melhores produtores, os de maior reputação, quem deseja abandonar o nome Cava, um nome aparentemente castrador porque ter ficado associado internacionalmente a espumantes baratos e simples, vinhos vendidos a preços insignificantes que raramente conseguem ultrapassar a fasquia dos 5€ por garrafa.

Produtores reféns de um nome pouco recomendável, vítimas de uma regulação demasiado permissiva e vítimas da companhia de alguns agentes menos cumpridores e menos conscienciosos que transformaram o preço numa arma de assalto, permitindo descontos cada vez mais substanciais à procura de uma ilusória quota de mercado. Por outras palavras, a destruição progressiva de um nome que começou por ser um sinal de sucesso… para se transformar lentamente no pesadelo que é tão característico dos países mediterrânicos, a destruição de conceitos e o aproveitamento desbragado por parte de alguns que não se importam da desgraça colectiva.

Por isso seria tão preocupante a hipotética criação de uma denominação de origem Portugal, um nome que englobasse o país como um todo. Se no início e no conceito a ideia seria bondosa, rapidamente a prática seria desastrosa, com a desventura suprema de o nome envolver todo o país, todas as regiões, todos os produtores…

 

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 17 de Novembro de 2012

 

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publicado às 17:02

Serra da Estrela Vintage?

por Rui Falcão, em 02.02.12

 

Algumas pessoas não conseguem estar paradas, não conseguem imaginar o mundo sem desafios, sem provocações que estimulem a imaginação. Uma dessas pessoas é Dirk Niepoort sempre pronto a desinquietar os espíritos, sempre disposto a arriscar-se por novas causas, sejam elas no mundo do vinho, do chá ou, nos casos mais agudos, na gastronomia.

Há pouco mais de uma semana coincidiu num almoço com José Matias, dos famosos queijos da Serra da Estrela da Casa Matias, e poucos minutos depois os dois já discutiam sobre a hipótese de fazer algo em conjunto, afinando queijos com Vinho do Porto, associando de forma séria o Vinho do Porto com o Queijo da Serra da Estrela, vinculando dois dos produtos mais nobres de Portugal que, por casualidade, já gozavam de uma tradição de complementaridade.

Uma semana é tempo mais que insuficiente para aproar a qualquer conclusão, mas a verdade é que a curiosidade era demasiada para esperar mais tempo pelas primeiras experiências… que foram já provadas esta terça-feira. Por ora as tentativas cingiram-se a um requeijão injectado com Niepoort Vintage 2011, um Serra da Estrela de estilo amanteigado inoculado com o mesmo vinho, e um Serra da Estrela curado cortado ao meio e submergido num banho de Niepoort Vintage 2011 durante uma semana.

Os resultados estão patentes nas fotos (de péssima qualidade, tiradas com telemóvel) com os amanteigados a mostrar uma cor inesperada e o queijo curado a mostrar um raiado de belo efeito. E foi precisamente no Serra curado que este primeiro ensaio me pareceu mais sólido e conseguido, estética e qualitativamente. O caminho é longo e há muito espaço a percorrer, desde a escolha do momento de infusão, ao estilo de vinho a adicionar, Ruby, Tawny ou branco, até à técnica de produção.

Neste momento é difícil dizer qual dos dois, Dirk Niepoort ou José Matias, se mostra mais entusiasmado com a experiência. Mas que o potencial existe, parece-me mais que evidente. Quem sabe se num futuro próximo não teremos um Serra da Estrela Niepoort, ou um Niepoort Matias desenhado de propósito para acompanhar os queijos da Casa de Matias?

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publicado às 00:47

Uma crise de vocações?

por Rui Falcão, em 11.01.12

 

Caso raro no mundo, no Douro convivem lado a lado duas denominações de origem, Vinho do Porto e Douro, partilhando as mesmas vinhas e o mesmo espaço físico. Dois estilos radicalmente distintos que convivem nas mesmas adegas, nas mesmas casas, unindo dois universos que concorrentes e potencialmente discordantes entre si. Dois mundos distintos que, apesar de manterem alguns pontos óbvios de comunhão, nem sempre são fáceis de conciliar ou harmonizar, nem sempre são facilmente compatíveis, nem sempre são conciliáveis.

Os riscos são relevantes, particularmente evidentes na carência de uvas de qualidade em quantidade suficiente para alimentar dois vinhos únicos, exigentes na excelência da matéria-prima. Mas o maior risco para a região, o mais pernicioso para o futuro do Vinho do Porto, é a falta de novas vocações para a causa do Vinho do Porto, a falta de interesse, a apatia generalizada dos novos produtores pelo Vinho do Porto, a falta de vocação de enólogos, consagrados e emergentes, para se dedicarem ao Vinho do Porto.

As razões são facilmente compreensíveis e até expectáveis. Afinal, têm sido os vinhos do Douro a agitar as marés, a trazer emoção e novos caminhos ao Douro. Têm sido os vinhos o Douro a fazer-se falar, a aparecer nas revistas, a apresentar-se como a nova coqueluche da imprensa nacional e internacional. E o Vinho do Porto, acompanhando a tendência global para uma sociedade light que penalizam o consumo de vinhos fortificados, vive um momento de dormência, de latência, pouco propício aos holofotes mediáticos.

A tendência é compreensível… mas é profundamente errada! Porque a vida não se vive num só dia, porque as modas são efémeras, porque o Douro não pode sobreviver sem o Vinho do Porto. Mas também porque o Vinho do Porto, a par do Vinho da Madeira, é o único vinho português verdadeiramente internacional, a grande porta de entrada nos mercados externos, a chave que serviu para a internacionalização do Douro. Desbaratar três séculos de uma história brilhante é um pecado que simplesmente não podemos cometer. Desprezar um património ímpar, esquecer práticas, conhecimentos e tradições, desperdiçar uma geração inteira, é um erro que não podemos cometer. O futuro não se constrói ignorando o passado.

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publicado às 01:34


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Os autores

Duarte Calvão (perfil)
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Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

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