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Um regresso feliz ao Boi-Cavalo

por Duarte Calvão, em 17.08.18

Lagosta_BC.jpg

 

Com tantos restaurantes a abrir em Lisboa, a mudar de carta, de conceito ou de chefe, é cada vez mais difícil ter tempo e estômago para voltar àqueles que gostamos de acompanhar. Já há algum tempo que pretendia tornar ao Boi-Cavalo , em Alfama, mas havia sempre alguma “novidade” ou compromisso que se interpunha. Mas agora, aproveitando a acalmia estival, decidi ir ver o que Hugo Brito anda a fazer, tanto mais que nunca saí da sua casa decepcionado. Pelo contrário, fico sempre surpreendido como com poucos ingredientes e técnicas simples ele consegue ir inovando e proporcionando refeições que me deixam feliz e bem disposto, mesmo que no desfile dos pratos do seu menu único possa haver uma coisa ou outra que não seja tanto do meu agrado.

 

 

Pois desta vez não foi diferente, mas teve o "extra" de Hugo Brito estar de férias e do serviço ser assegurado pela equipa liderada pelo seu “braço-direito” Diana Cardoso. Não se pense que a presença do simpático e talentoso chefe me estraga o apetite, mas gostei muito de ver que este pequeno e bonito restaurante, instalado num antigo talho, funciona muito bem mesmo sem ser ele a comandar. Tomara muitos outros restaurantes, por vezes bastante conhecidos, se poderem gabar deste grau de profissionalismo.

 

Julgo que o menu único do Boi-Cavalo é um pau de dois bicos. Se, por um lado, permite certamente um maior controlo da frescura dos produtos e dos custos – essencial numa casa que só abre ao jantar para pouco mais de 20 pessoas -, por outro, afasta muitos dos turistas de passagem, que são atraídos pelo ambiente do restaurante, mas que não arriscam quando percebem que não têm grandes hipóteses de escolha do que vão comer. Já vi bastantes casos de gente que entra e sai quando percebe o estilo da casa. Mas acho muito bem que Hugo Brito se mantenha fiel a este conceito, até porque hoje, felizmente, a Lisboa já vem muita gente que através de Internet e das redes sociais procura certos restaurantes. E, por 40 euros (que é quanto custa o menu), ter uma experiência gastronómica desta qualidade é um achado. Também há vinhos a preços razoáveis pelo que a refeição fica no total pelos 50/60 euros por pessoa.

 

pratos_BoiCavalo1.jpg

 Da esq. para a direita, vichyssoise de grão, arroz de tomate, cavala e brioche com presa de porco ibérico

 

Ainda por cima, além dos seis pratos que compõem o menu, vêm ainda extras não cobrados, em nada inferiores aos mencionados. Foi o caso de uma deliciosa vichyssoise de grão com pepino, cremosa e equilibrada (que poderia estar um pouco mais fria), logo depois dos aperitivos de bacalhau numa espécie de barquilho de massa de empada com cebola assada num estaladiço e de um merengue com fígado de frango e maçã verde. Gostei muito do primeiro, menos do segundo, algo adocicado. Por falar em coisas de que não gosto, tive a boa ideia de dispensar o pó de algas que vinha com o arroz de tomate, encimado por um “queijo de pinhão” feito na casa. Muito interessante de ter um “primeiro prato” de arroz, mas em vez do estafado “risotto”, optar pelas técnicas e variedades portuguesas. Estava espectacular e creio que ficaria melhor se, em vez das enjoativas algas, houvesse, por exemplo, orégão, manjericão, tomilho ou qualquer das muitas ervas que se casam no céu – e não no mar -com o tomate.

 

A seguir, novo extra, com cavala cozida num cesto de vapor, com uma “capa” de um tipo de molho verde e ainda mais um molho suave de maracujá e "água de alho". O peixe, que calculo que tenha sido marinado ou salgado antes, estava absolutamente perfeito na sua suculência e sabor. Entra directamente nas melhores cavalas que já provei, mostrando como ainda há tanto a tirar desta espécie abundante, barata e saudável. Aliás, Hugo Brito aproveita bem estes peixes “acessíveis”, tenho excelentes memórias das suas receitas com carapau. Já o molho estava algo desequilibrado, talvez com demasiada salsa, mas não a ponto de estragar o conjunto.

 

Nada a dizer da tempura de lagosta que se seguiu (foto de abertura), a não ser talvez um pouco de sabor a óleo no frito, mas com o sabor marisco saliente e nítido. Vinha com um molho sambal caseiro (aprendido talvez na Holanda, onde há muita cozinha indonésia e onde Hugo Brito viveu uns anos tentando a sorte como artista plástico) e com uma pujante salada de ervas, que brilhou a grande altura e só pecou pela escassez. Comeria facilmente o dobro, de tal maneira me agradou na sua conjugação com os fritos.

 

O prato que se seguiu estava mesmo perfeito, desta vez não vou andar à procura de defeitos, num bom exemplo desta cozinha de poucos ingredientes e muita imaginação. Tratava-se de um brioche grelhado com presa de porco ibérico com couve coração cozida com (adivinho) estrela-de-anis. Todos os sabores muito bem integrados, tudo bem feito e tudo apropriado para encerrar a parte salgada de modo alegre e com uma leveza que os infredientes não deixariam supor.

 

Antes da sobremesa, queijo de Serpa com rodelas de batata doce assada, a fazer a vez da tradicional marmelada, uma boa ideia que funcionou. Mas, estranhamente, vinha também uma manteiga de caril verde para se comer com broa de milho feita na casa. Confesso que fiquei estupefacto. Eu sei que está na moda (iniciada em Portugal, julgo, pelo Loco) apresentar o pão e manteiga num momento mais avançado da refeição. Mas antes da sobremesa? Com o queijo? Além disso, acho que há que pensar bem também nesta outra moda de manteiga com tudo e mais alguma coisa - chouriço, farinehira, tomate, algas, tinta de choco, fumada, fermentada e mais não sei o quê. Fora dois ou três ingredientes consagrados (alho, algumas ervas) raramente os resultados são felizes.

 

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Babá ao rum com gelado de folha de figueira

 

Por fim, a sobremesa e esta compensou. Babá ao rum, que poderia estar mais “molhado”, com flor de laranjeira e um óptimo gelado caseiro de folha de figueira. Não me apeteceram as “mignardises” que vinham com o café - torresmos doces, chocolate branco queimado, gelado de azeitona com laranja.

 

Resumindo, foi um belíssimo jantar, que me deu logo vontade de voltar daqui a algum tempo para conhecer os novos pratos que estão sempre a aparecer no menu do Boi -Cavalo, para mim o melhor exemplo que há em Lisboa da chamada “bistronomie” e que também me lembra a criatividade divertida e cosmopolita que encontro muitas vezes em Espanha em bares de tapas modernos. Saí dali feliz para a noite de Verão de uma Alfama limpa, bem iluminada e gentrificada (que diferença para as ruas emporcalhadas e as paredes cobertas de horrorosos e cretinos grafitis do Príncipe Real...), com bares, restaurantes e esplanadas animadas por turistas.  Não há nada como Agosto em Lisboa.

 

Contactos: Boi-Cavalo, Rua do Vigário 70 B, Lisboa. Horário: 3F a Domingo, 20h-02h. Tel: 218871653

 
 

Fotografias: Cristina Gomes

 

 

  

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publicado às 19:29



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